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Agressividade crítica
e outras maldades
luiz edmundo alves

Outro dia manifestei minha
indignação com escritores que aproveitam entrevistas em jornais para
detonar a nova literatura. Isso tem acontecido com freqüência. Falam da
"pobreza" das frases e dos novos versos, do "minimalismo"
do "nada", do "coisa nenhuma".
Há dois casos recentes. O
primeiro foi Deonísio da Silva em entrevista a Carlos Herculano Lopes:
"Com a facilidade das gráficas e de publicações na internet, quem
quer lançar um livro lança, e isso é terrível".
Como assim, "terrível"...?
Meu Deus, que livros estes escritores estão lendo?
O segundo caso foi a crítica grosseira publicada na revista Veja,
escrita por Jerônimo Teixeira, aos chamados Transgressores, turma de
escritores reunidos numa antologia de contos com o mesmo nome. Teixeira
leu um livro de cada um dos escritores, e em poucas linhas escritas em
estilo pseudo-professor faz um "pseudo-panorama" da literatura feita
pelos Transgressores, e detona todos. O crítico apropria-se da palavra
Transgressores e faz sua "viagem". Que horror, diriam
outros.
Quanta maldade! dirá Simone.
Qual o verdadeiro sentido dessas
críticas?
Per-gunto-lhes.
A crítica ao novo, em todos os campos da Arte, é antiga e raramente se
sustenta historicamente. Acompanho a literatura brasileira desde o final
dos anos 70, quando os jovens poetas faziam livros em mimeógrafos ou
xerox e também eram acusados de empobrecer a literatura, numa luta para
se editarem que "dava pena". Muitos desses jovens tornaram-se
poetas consagrados e aqueles "livrinhos paupérrimos" e sua distribuição
no mano-a-mano uma epopéia que vai se perpetuando.
Perpetua-se também esse "falar mal", a despeito dos exemplos históricos.
Toda vez que alguém (crítico, artista ou escritor) se apressa em fazer
críticas genéricas às novas gerações e suas opções estéticas, eu
desconfio. Desconfio porque me lembro daquele respeitabilíssimo crítico
francês que, ao ver os quadros de Monet, Manet, Cézanne e outros foi
para o jornal e escreveu:
"Farsantes, impressionistas!"
Desconfio porque me lembro dos ataques que Drummond recebeu quando
publicou "No meio do caminho".
Em qualquer geração haverá escritores bons e ruins, e em algumas os
gênios e aqueles que fazem da literatura uma arte de primeira grandeza.
Cada geração cria suas referências, seus cânones, alimentando as
controvérsias de sempre.
Certamente Deonísio não leu Antonio Barreto, Nicolas Behr, Ana Elisa
Ribeiro e Luís Giffoni, não leu Nelson de Oliveira, Leonardo Deleo Gama,
Anízio Viana, não leu Wilmar Silva, Sérgio Fantini, Fabrício Marques,
João Filho e Eustáquio Gorgone, desconfio que não...
O que quero dizer é que a nova Literatura brasileira vai bem, não
morreu, nem pobre está. O que importa não é a quantidade expressiva de
livros ruins, que sempre existiu. Ou a quantidade inexpressiva de
leitores, mas o surgimento constante de bons escritores, boas
publicações, bons projetos.
Deonísio, em defesa da boa literatura, até sugeriu alguns livros
"que não se comparam com o que está sendo produzido atualmente no país".
Boa pedida. Mas aproveito e igualmente sugiro ao "mestre" que seja
generoso, que não faça comparações passado/presente e leia Braxília
revisitada de Nicolas Behr, O filho do Crucificado e
Pequeno Dicionário de Percevejos, de Nelson de Oliveira,
Perversa, de Ana Elisa Ribeiro, Arranjos de Pássaros e Flores
de Wilmar Silva e Zeosório blues de Edmilson de Almeida
Pereira. E ainda posso sugerir "O Livro de Zenóbia", de Maria
Esther Maciel. Acontece com a Literatura brasileira o mesmo que acontece
com o futebol e com a música (guardando as devidas proporções de
visiblidade e rendimento$): diversidade de estilos, renovação constante
de talentos. Assim estilos e valores estéticos surgem das contradições
sociais, das variáveis culturais, das circunstâncias políticas. Surgem
até mesmo das diferenças sociais existentes. Se há controvérsias,
melhor.
Roda moinho, roda pião...
Quanto ao Jerônimo na revista Veja e à crítica aos Transgressores,
fico cheio de dúvidas, de perguntas diante de um texto com tal
agressividade e tanta asneira, tantos argumentos grosseiros, refutáveis
e... vis?
A arrogância "crítica" de Jerônimo intenciona desqualificar uma
geração de escritores. Qualquer leitor esperto também vai desconfiar
dessa arrogância do Sr. Jerônimo.
Quais interesses estão em jogo? Quem se beneficia?
Até que ponto o crítico quer usar escritores em ascensão para aparecer e
destilar sua vaidade?
E desconfiemos.
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