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A propósito da
produção
plástica de Wilson Neto
( por
Herbert Rolim )
Uma
compreensão da poética visual de Wilson Neto, para além do deleite fugaz
(pelo qual podemos ser atraídos e, até mesmo, traídos) passa
necessariamente pelo caráter multidimensional de sua obra, ou seja, pela
inseparabilidade entre criação e contexto complexo que a engendra.
Em outras palavras, os desenhos
e as pinturas de Wilson Neto não se encerram no traço espontâneo, quase
gestual, ou no colorido exuberante de suas imagens. É mais do que isso,
também estão aí inter-relacionados, parafraseando o pensador Edgar Morin,
os aspectos biológicos, psíquicos, sociais, afetivos e racionais que
revelam e, ao mesmo tempo, velam a condição humana do artista.
O uso da
chita de ricas padronagens, por exemplo, como suporte de suas pinturas
remonta a uma tradição que tem sua origem na história cearense.Em fins
do século XIX, Sobral teve como base econômica a fabricação de tecidos
de algodão, nela se instalando, em 1895, a Fábrica de Tecidos de
Sobral.O avô de Wilson Neto, de quem herdou o nome, nas décadas de
1930-1980, foi um importante comerciante de tecidos, contribuindo para a
expansão industrial do município.
É desse
universo, em Fortaleza, onde costumava passar as férias escolares, vindo
de Sobral, que emergem as imagens mentais do fazer artístico (pöesis) de
Wilson Neto, cuja memória resguarda os tempos de infância, diante do
armazém do avô ou na companhia da avó, às voltas com as costuras
ricamente coloridas, por vezes juninas. As festas, a feira, os tipos
populares de Sobral, onde residiu por quase 20 anos, fazem parte do seu
repertório, o que explica a escolha do artista por uma estética
propositalmente kitsch, com seus retratos e paisagens de
pigmentos industriais sobrepostos ás vistosas estampas.
Nesse
sentido, dentro da história da arte mais recente, a obra de Wilson Neto
dialoga com as questões da Geração 80, que utilizava a pintura
como meio, e não como um fim em si mesma, intermediando figuração e
abstração, questões do Pop e Neo-expressionismo. Dessa época, de modo
particular, mantém afinidades com a obra de Leonilson (1957-1993), com
quem compartilha simbolicamente o gosto pela prática artesanal, a
tessitura do desenho, as possibilidades do tecido...
Embora
pautada na geração que o antecedeu, a obra de Wilson Neto não está
dissociada de seu tempo presente, pelo contrário, seu trabalho não dá
margem para umas visões impositivas, baseadas em parâmetros
estabelecidos, como foram as “artes de vanguarda”, da década de 1970,
que queriam banir a pintura, principalmente figurativa, dos
procedimentos artísticos. No mundo contemporâneo há lugar para artesania
e tecnologia, matéria e virtualidade, pintura e conceito. |