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26 poemas e uma
canção saudosista
a. zarfeg

Com a publicação de Quarador (Anome Livros,
Belo Horizonte–MG, 2003), Vanderlei Lourenço dá um salto qualitativo na
sua produção poética, deixando de ser apenas uma promessa literária para
se transformar num poeta de verdade, dono de uma sensibilidade lírica e
uma riqueza temática afinadas. Além disso, percebe-se em seus poemas uma
visível maturidade no trato com os signos verbais, o que revela que o
poeta trilhou um longo caminho de tentativas, experimentos, altos e
baixos – até culminar com Quarador, sua obra-prima.
Conheci Vanderlei quando ele não passava de um
adolescente metido a poeta e cujas primeiras experiências poéticas já
haviam sido reunidas no livro Visão de Adolescente, que teve uma boa
repercussão naquele momento. Depois, viriam Primavera em dezembro,
Lírios para Maria, A casa do silêncio e, agora, este
Quarador.
Naquela época (final dos anos 80) nós nos reuníamos
na Rua da Bahia, na sede da Asbrapa (Associação Brasileira dos Poetas
Amadores), para discutir literatura brasileira e analisar criticamente
os poemas enviados pelos poetas interessados em se associar à entidade,
a qual, além de facilitar a publicação da obra dos associados, editava o
periódico Expressão Literária. A bem da verdade, a cúpula (o exigente
presidente Aguilar Pinheiro, Wilmar Silva, Gilmar Santos, Rodolfo
Ribeiro, Vanderlei e eu) vivia um intenso caso de amor com a literatura,
à qual estávamos ligados gratuita e esteticamente falando. Era como se,
naqueles encontros que se repetiam uma vez a cada quinzena, a literatura
nos envolvesse num misto de compromisso e passatempo (mais diversão do
que propriamente engajamento literário – como não me deixa mentir
Vanderlei, que, inspirado, recitava versos e, ao mesmo tempo, pilheriava
com os colegas).
Resumindo: a Asbrapa conseguiu viabilizar a
publicação de alguns livros, antes de extinguir-se no início dos anos
colloridos. Cada um de nós foi cuidar da sua vidinha. Aguilar se tornou
um neurolingüista de sucesso, adiando para sempre a publicação do
romance “O oitavo sentimento”; Wilmar, além de desenvolver um estilo
poético inventivo, virou dono de editora; eu retornei à boa terra a fim
de passar umas férias e acabei ficando de vez; já Vanderlei, pelo visto,
deixou a brincadeira de lado e se apegou com unhas e dentes aos
conselhos de Drummond, expostos em “A procura da poesia”, como atestam
os poemas de Quarador.
O ilustre crítico modernista Tristão de Thayde
ensinava que, antes de sentir “o espírito da obra e sua beleza
interior”, o indivíduo não deveria emitir nenhum tipo de julgamento
sobre a qualidade literária de outrem, sob pena de cometer uma grande
injustiça ou, mesmo, de se revelar um crítico superficial.
Obviamente que segui à risca a recomendação dele e,
com todo o prazer do mundo, dei início à leitura dos 26 poemas de
Quarador, assim que Wilmar me enviou o livro, no final de 2003. De
forma receptiva e prazerosa, li, reli até a exaustão os poemas. De
início, ainda conforme recomendação de mestre Athayde, cheguei até a
renunciar a todo e qualquer racionalismo, a fim de absorver melhor a
obra.
Em seguida, após meses de leitura e releitura,
durante os quais vivi em estreita comunhão com os textos poéticos, de
modo a me aproximar ao máximo da verdade implícita em cada um deles,
resolvi verbalizar as múltiplas impressões suscitadas por Quarador.
E, realmente, havia valido a pena tanta dedicação. Através dos versos,
tive a oportunidade de me reencontrar com um outro Vanderlei, agora sem
dúvida um poeta maduro, experimentado, capaz de conciliar em sua
produção original uma visão de mundo dialética, abarcando as diversas
facetas da realidade, como a denúncia social, através de poemas em que a
discriminação racial e a violência urbana aparecem consubstanciadas num
discurso articulado; as viagens empreendidas ao mundo encantado da
infância, em busca do resgate da família e dos valores do interior; o
questionamento filosófico-existencial com temas caros à condição humana,
como a angústia, a ausência, a saudade, a amizade e o amor; assim como a
preocupação metalingüística, em que o próprio código poético acaba
servindo de objeto para uma reflexão sobre o fazer poético. Dessa forma,
ao estabelecer vínculos com o presente, sem, contudo, abrir mão do seu
passado histórico-pessoal, Vanderlei vai elaborando uma poesia ágil,
telúrica, mas também reflexiva e envolvente. Trata-se de uma lírica
constituinte a serviço da vida.
Convém esclarecer que, nas primeiras obras (Visão
de Adolescente comprova isso), o poeta de Alvinópolis praticou uma
poesia voltada para as preocupações sociais, em que a denúncia e o
panfletismo se transformaram numa marca viciosa, da qual Vanderlei
demorou bastante para se ver livre. É claro que, pelo fato de ser negro
e, portanto, de trazer na pele o estigma de todo um histórico de
privação das prerrogativas básicas da cidadania, nosso poeta fez dessa
condição a razão de ser da sua práxis poética. Mais do que um
oportunismo literário, Vanderlei não dispunha mesmo de muitas opções,
nesse primeiro momento. Prova disso é que, antes de estrear com um livro
de poemas, ele já era conhecido como autor de um poema (de cujo título
não me recordo agora) dedicado exclusivamente aos menores de rua de
Beagá. Portanto, se ao contrário de Adão Ventura, nosso herói praticou
uma poesia ingênua no início, isso se deve ao fato de ter mantido o
primeiro contato com essa forma de expressão, que é o verso, muito cedo
– ao contrário do autor de “A cor da pele”. Uma mera questão de
contingência pessoal. Óbvio que, à maneira de Castro Alves, encontrei
ecos libertários nas obras de ambos os poetas mineiros.
Mas eis que, num “fiat” criador, Vanderlei Lourenço
dá a volta por cima com este livro de muito bom gosto e consistência
técnica, conciliando de maneira talentosa as diversas nuances temáticas
da sua nova fase poética e, ao mesmo tempo, preservando algo do
engajamento social dos primeiros anos. Numa leitura livre, poetar é isto
mesmo: “Tirar luz da fumaça”, como propôs Horácio em sua Arte Poética. E
o nosso autor soube fazer isso muito bem numa obra madura e que precisa
ser vista como o ponto alto desses quase vinte anos de caminhada
literária.
Com efeito, a mim não restou outra alternativa
senão me surpreender com os poemas de Quarador. E, inicialmente,
procurei botar em prática a recomendação de mestre Athayde, deixando-me
levar pela emoção das figuras, imagens e impressões, como que numa
viagem emocionante ao que Minas tem de melhor: seus artistas, que, com
talento e sensibilidade, conseguem transformar a rude e barroca
factuidade em arte, em transcendência, de qualidade.
A seguir, como eu havia prometido a mim mesmo,
procedi à elaboração de uma opinião justa e imparcial acerca de tudo que
eu havia lido, presenciado e experimentado. Por isso, eis-me aqui
cumprindo a minha palavra na forma de um depoimento despretensioso, mas,
com certeza, sincero. Li e gostei. E não poderia ser diferente, na
medida em que experimentei um caleidoscópio de sensações em versos
belíssimos, como em: “sou negro/há os que me querem preto/a certidão de
nascimento – pardo/há os que me enxergam africano/sem defender causa:
negro...” (poema do eu); “dor perene acompanha/dia de finados...” (2 de
novembro); “sei de pardais/que cruzam os ares/quando os amigos se
vão...” (mística); “transcender a noite/para além de outras noites/além
do breu/e da tempestade” (ausência); “de manhã lavar os sonhos/e quarar
ao sol...” (agenda); “sertão de meus pais/ou carvão da memória/bica no
quintal/ou rima d’água/menino que canta:/avô, avó – avoa...”
(reminiscência); “ao amor que não veio/construo paráfrases e
metáforas/sórdidas...”(silêncio); “os sonhos varam além/da
criança/consomem a energia/abstrata/com que me debato/na ânsia do poema”
(criação); “...quando menino fui fugitivo/no tempo da floração das
uvas/e deixei minhas pegadas perdidas/no além” (floração); “não saber o
que é saudade/até os sinos baterem...” (saudade); etc.
Como se depreende dos fragmentos acima, os poemas
quase sempre curtos, caprichados e instigantes de Vanderlei Lourenço são
o que a poesia mineira da atualidade tem de melhor para oferecer ao
leitor mais exigente em matéria de boa poesia. De minha parte, portanto,
vou continuar me deliciando com esses achados vanderleianos, tendo como
fundo musical uma velha canção amiga, que teima em se repetir na minha
memória baianeira: “Oh! Minas Gerais, quem te conhece não esquece
jamais, oh! Minas Gerais...”
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