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Os malogros de Ema Bovary em relíquia de sebo:
uma revolta contra o “realismo”
chico lopes

Um livro
interessante, que é um dos meus companheiros de cabeceira há décadas, é
“A orgia perpétua – Flaubert e Madame Bovary”, de Mario Vargas Llosa.
Aviso: a edição,
da Francisco Alves, é de 1979, e hoje em dia creio que só possa ser
encontrada em raras estantes particulares ou em sebos. Dica para algum
editor de sensibilidade reeditar, porque o interesse é permanente.
Quem gosta de
saber quais livros alguns escritores de fama elegem como predileções,
revelando os motivos destas em tintas confessionais, encontrará quase um
modelo desse gênero no livro de Llosa sobre o romance também
paradigmático da que se convencionou chamar “escola realista”.
Llosa começa
dizendo que, numa certa época, residindo em Paris, ao sofrer a tentação
do suicídio, se purgava lendo o trecho de “Madame Bovary” em que a
heroína, já sem outra saída diante do fracasso de seu casamento e de
seus amores extraconjugais, endividada sem possibilidade de pagar, toma
arsênico. A descrição dessa cena é um dos primores cruéis da arte
realista de Flaubert. Ninguém que a tenha lido se esquece do “gosto de
tinta” que secava a garganta da infeliz. Temos que acompanhar sua longa
agonia, as atrocidades que seu organismo padece, como se o mundo
medíocre que a cerca a punisse dessa maneira por ter ousado sonhar. Os
sonhos de grandeza romântica de Ema Bovary, sua luta obstinada contra um
casamento que seria satisfatório só para uma mulher desprovida de toda
imaginação, acabam ali, naqueles estertores pavorosos, e sentimos o peso
de uma injustiça ilimitada contra aquela carne. Mas é um dos prodígios
da arte de Flaubert: ele queria nos fazer odiar a estupidez
pequeno-burguesa com violência, e precisava de um mártir para isso.
Cumplicidade
com Llosa
Confesso que
Llosa não é dos meus escritores favoritos, e a ironia é que esse livro
sobre Flaubert é dele o que mais gosto, porque “Madame Bovary” sim, é um
dos cinco livros que acho fundamentais na minha vida, que relerei
sempre.
É impressionante
como os clássicos reabrem em nós esconsos emocionais nos quais nos
refugiamos sempre. É como se, relendo-os, tendo já vivido por procuração
aquelas intensidades dramáticas de vidas fictícias, tivéssemos, de algum
modo, criado latências semelhantes, pequenas entidades psíquicas de
certa autonomia que disputam com nossas partes mais conhecidas e
racionais um lugar na nossa personalidade total.
Com o passar do
tempo, o apego a certos livros é quase uma declaração de misantropia:
eles são mais interessantes que as pessoas reais que nos cercam. Num
livro muito relido, reencontro criaturas que são para mim mais reais e
interessantes que as pessoas que conheço ou que posso encontrar,
digamos, numa festa ou numa reunião social. Iluminam minha vida,
fazendo-a mais ampla, mais geral – num certo gesto ou numa fala
empolada, é possível reconhecer o farmacêutico Homais, noutro, o médico
de província, esse pobre diabo Bovary, com quem Ema se casou, e no
sujeito arrumadinho, correto e insípido, que quer “subir na vida”, o
apagado Leon.
Quanto a
Flaubert, tenho-o em alta conta por pregar, acima de tudo, a integridade
da arte contra ideologias políticas e outras tantas bobagens mundanas e
exteriores que só fazem mal ao verdadeiro escritor.
Pai de todo o
realismo que hoje conhecemos já em formas diluídas, mas não esgotadas,
Flaubert nos disse o que mais nenhum escritor digno deste nome esqueceu:
que o autor está na obra, inevitavelmente, pouco importando onde e como
– mulher, homem, hipopótamo ou borboleta –, visto que tudo que importa é
o estilo, a criação, a vida que o texto ganha com o talento e a
imaginação empenhados na tarefa de captar e transfigurar.
Disse uma frase
célebre: “Os bons sentimentos não dão boa literatura”. Sua validez se
ergue quando vemos, sucessivamente – e hoje em dia, na enxurrada de
mediocridade que se publica – a quantidade de livros ruins escritos com
“coração” e “boas intenções”. Numa época como a nossa, em que se pede
que os livros ajudem, sendo terapêuticos, tendo alguma utilidade para
gente que ousou tirar 30 ou 40 reais do bolso para comprá-los, tendo a
eficácia de um Lexotan e as estéticas que se danem, Flaubert morreria
asfixiado. Ele também disse: “Todos os assuntos são indiferentemente
bons ou maus, conforme a maneira com que são tratados, e os que parecem
mais vulgares podem tornar-se os melhores”.
Llosa se rende à
personagem Ema, como todos já nos rendemos alguma vez. Tem por ela uma
paixão que se revela na maneira como vai citando o Flaubert fetichista
de sapatos femininos e outros pormenores. Mostra como, precursora
involuntária do feminismo, Ema comanda o tímido escriturário Leon nas
ações eróticas, destemida e sem moralismos. Quando fala da cena da
carruagem, em que na pena discreta e insinuante de Flaubert, se consuma
obliquamente uma relação sexual, abre-nos os olhos para a verdade de que
o melhor sexo em livros é aquele em que a sugestão e a insinuação
prevalecem.
Parece careta?
Parece “reprimido”, “contido”, “enrustido”? Um artista de verdade mal se
importa com essas exigências de grupos militantes contra preconceitos
comportamentais. O que ele deseja é, acima de tudo, transfigurar e
vencer a realidade com a Beleza, e vamos lá censurar alguém que escolhe
pintar em aquarela, não em acrílico? A vulgaridade, a crueza, a
franqueza, podem até ter lá seus artistas, mas eu prefiro os da leveza e
da sugestão.
O fato é que Ema
Bovary não dá certo com seus amantes. De Rodolfo Boulanger, fazendeiro
rico e afetado, passa para o escriturário Leon. Os dois são tão
medíocres quanto seu pobre marido, cada um a seu modo, e só lhe são
superiores, a seu ver, porque, afinal de contas, não são ele. Llosa
observa que, na tentativa de ser livre, ela se masculiniza, e tinha que
se masculinizar para poder fazer de Leon um amante à sua altura, já que
ele era quase “feminino”, de tão fraco.
Conheceremos
quem é Boulanger, o fazendeiro sedutor, no ato da elaboração daquelas
cartas alambicadas, que destina a todas as incautas que conquista e das
quais, mais tarde, enfastiado, precisará se livrar. A cena em que se
revela completamente a sua fraqueza de caráter é aquela em que Ema lhe
aparece em casa, desesperada, para rogar que a ajude a pagar suas
dívidas estranguladoras com roupas e outros luxos. Ele se revela,
afinal, apenas um cafajeste que conquista mulheres e as contabiliza
para a sua vaidade e, que na hora das dificuldades, não passa daquilo
que é: um proprietário de terras sovina e bem “realista” na questão de
preservar o bolso. O que ele faz é, literalmente, abrir a porta do
suicídio para a sua ex-amante.
Traidora ou
traída?
Não sabemos se
essa mulher, que traiu seu marido e traía o papel tradicional de esposa
e mãe (quando a filha lhe nasce, acha-a feia, despreza-a; maternidade
não é seu forte), foi uma traidora ou foi a grande traída. Sua grandeza,
como observa Llosa, está no fato de ser uma perdedora por antecipação –
o que ela quer, a sociedade que a cerca jamais poderá lhe dar, mas ela é
maior, mais generosa, mais livre que suas circunstâncias, e terá que
pagar caro por isso. Ema, que Llosa compara ao Quixote de Cervantes,
acreditou demais nos romances piegas que lia e decidiu que a realidade
tinha que se submeter a eles, assim como o Cavaleiro da Triste Figura
quis fazer com seus romances de cavalaria. Querer que a quimera seja
maior que a vida todos sabemos no que dá.
O eco de “Madame
Bovary” na contemporaneidade não pode ser subestimado: quem é não perdeu
seu romantismo em contato com os malogros da realidade? O romance é
eterno um tanto devido a isso: revela que não há saída para sonhadores,
se estes sonhadores persistem em tornar reais seus sonhos mais
generosos, mais livres, se não são cínicos, não se acomodam ou não sabem
como negociar com os limites da realidade. O malogro os espera em cada
curva, e o malogro final pode ser devastador.
Pai do realismo,
Flaubert vinha na verdade do romantismo literário, e, para reforçar o
quanto dele havia em Ema Bovary, confessou: “Crêem que eu seja
apaixonado pelo real, enquanto o detesto: pois que por ódio do realismo
é que empreendi esse romance...”
É uma confissão
crucial: o artista verdadeiro é um inimigo completo do “realismo”
vulgar, qual seja – de uma vida pequeno-burguesa, limitadora, na qual,
por covardia, se racionaliza a mesquinhez e se ataca a grandeza dos
“românticos” que dela fogem, tachando-os como “sem juízo”.
O que nos pede a
“vida real”, ou essa criação ideológica tão típica de gente sensata,
comedida, adaptada às circunstâncias? Que renunciemos à desmesura, ao
sonho, à aventura. Flaubert era artista, acima de tudo: sabia que,
esmerando-se em produzir um livro quase maníaco na sua profusão de
detalhes realistas, produzia era um protesto contra um mundo detestável,
raso, mesquinho, e queria fazê-lo com um máximo de eficiência. Tomado
por um realismo passional, queria era, através da apreensão precisa do
mundo, perpetrar uma denúncia de sua irremediável pequenez.
Ele conseguiu:
odiamos todos esses arautos da vida pequena, sensata, provinciana
(médicos ineficientes e esforçados, farmacêuticos pedantes e cheios de
preconceitos, sedutores vagabundos com suas pieguices calculadas) com
acentuado vigor ao relermos seu livro fabuloso: todos os artifícios com
os quais as vidas limitadas se disfarçam diante de nós caem por terra ao
lembrarmos da lucidez com o que o escritor os desmistificou.
Sabemos, pelas
informações que Llosa vai pinçar em sua vida pessoal, sua
correspondência, o quanto ele odiou as limitações vulgares de seu mundo,
quanto fugiu dele, com auxílio do dinheiro da mãe. Foi um burguês
também, mas contrito, desesperado, porque tinha que conviver com algo
que em si era maior que qualquer burguesia: o apetite pela arte.
Para combater o
tédio e a mediocridade de um mundo utilitário e sem um pingo de grandeza
e aventura, tinha só uma solução: “O único meio de suportar a existência
é despojar-se na literatura como numa orgia perpétua”.
Creio que, até
hoje, não existe outra para nós.
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