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O trágico e o dramático
em “São Bernardo”
dimas carvalho

INTRODUÇÃO
Partindo da
observação de José Hildebrando Dacanal, com a qual con-
cordamos, de que “São Bernardo” pode ser considerado como uma síntese
do chamado “Romance de 30”, duas considerações iniciais merecem ser
feitas. A primeira, de implicações heurísticas e hermenêuticas,
prende-se
às verificações das causas que fazem de “São Bernardo” o paradigma da-
quele variegado conjunto de obras, o qual, em sua complexa heterogenei-
dade, reúne livros tão dispares como “O Quinze” e “Fogo Morto”, “Terras
do sem fim” e “A Bagaceira”. A segunda, intimamente ligada à anterior,
e de certo modo dela resultante, é que “São Bernardo” exige uma leitura
dupla, sincrônica e diacrônica, se quisermos, encontrando as sobreditas
causas, comprovar a possível validade da afirmativa de Dacanal. De forma
que o presente trabalho se propõe utilizar, com igual desenvoltura, os
dois instrumentos de que dispõe a Poética para a análise interpretativa;
a História Literária – comparação na sucessividade temporal – e a
Critica Literária – enfoque dos aspectos estruturais do livro, sua
combinação e apresentação. Ou seja, uma visão dinâmica e uma visão
estática, integrando-se numa visão geral.
No decorrer
do presente estudo, centraremos nossa atenção no personagem Paulo
Honório, narrador homodiegético e eixo em torno de quem se articula a
ação romanesca, embora sem deixarmos, obviamente, de fazer referências
aos demais actantes, principalmente a antagonista, Madalena. A crítica,
aliás, reconhece ao narrador-personagem de “São Bernardo” seu papel
preponderante, chegando Álvaro Lins a afirmar: “A realidade fundamental
do romance é a figura de Paulo Honório, com o seu egoísmo, com sua
maldade, com seu ciúme, com a sua desumanidade”. Ser complexo e
paradoxal, Paulo Honório se constitui no foco chamativo de nossa
atenção, motivo antagônico e ambíguo do nosso ódio e nosso desprezo, mas
igualmente de nossa perplexa piedade.
Cumpre
ressaltar ainda, nesta Introdução, em que sentido usamos os termos
dramático, épico, lírico e trágico; os três primeiros são vistos como
estilos manifestáveis quer na prosa, quer na poesia, embora, de acordo
com Staiger, seja mais fácil encontrarmos o lírico na poesia, por
exemplo, ou o épico na prosa. O que importa ressaltar é o fato de que
esses três estilos, baseados na tripartição da diegese mimética que
Platão fez no livro III da “Republica”, não se apresentam modernamente
estanques, detentores da suposta “pureza” que os preceptistas
neoclássicos advogavam para os gêneros; inversamente, é apenas pelo
predomínio de um sobre o outro que classificaremos uma obra como lírica,
épica ou dramática. Ora, o romance, desde seu surgimento por volta da
segunda metade do século XVIII, caldeia, produto típico que é dos tempos
modernos, elementos da mais variada procedência, por conta de sua
natureza sintética e incorporadora. Quando ao termo “trágico”,
representa o estilo dramático elevado, em contraposição ao cômico,
próprio do estilo dramático baixo, segundo Northop Frye, que vai buscar
tal diferenciação no capítulo II da “Poética” aristotélica.
A dicotomia
“método descritivo” x “método dramático” nos foi sugerida pela leitura
do livro “A Técnica da Ficção”, de Percy Lubbock.
“SÃO
BERNARDO” E A HISTÓRIA LITERÁRIA: O NÍVEL DIACRÔNICO
Procuraremos inicialmente estabelecer, dentro do plano diacrônico, uma
diferença fundamental. Seguindo a lição de Victor Manuel de Aguiar e
Silva, observemos a dicotomia “intertextualidade x intratextualidade”,
esta se refere à obra do próprio autor, com suas imbricações evolutivas
internas; aquela, pelo contrário, diz respeito ao confronto entre a obra
do escritor e as de outros escritores, seus contemporâneos ou não.
Para o
confronto intertextual, elegemos dois exemplares do “Romance de 30”: “O
Quinze”, de Rachel de Queiroz, publicado em 1930, e “A Bagaceira”, de
José Américo de Almeida, vindo a lume em 1928.
Tanto no
livro da cearense como no livro do paraibano, registra-se a existência
de um casal polarizador da trama: Conceição x Vicente, e Soledade x
Lúcio. Em “São Bernardo”, teríamos, por analogia, Paulo Honório x
Madalena. Até aqui, tudo é semelhança; as diferenças começam a aparecer,
quando atentamos na forma como Graciliano vai promover o relacionamento
de seus personagens, conduzindo-os a uma situação fechada, típica
da tragédia. O conflito, presentes nos três pares, processa-se em
desiguais níveis de tensão, e vai se resolver de modo bem diverso. Em “O
Quinze” e em “A Bagaceira”, o envolvimento emocional nunca chega à
concretização física do amor; Conceição permanece solteira, Soledade
será desvirginada pelo pai de Lúcio, Dagoberto Marçau. Em “São
Bernardo”, Paulo Honório e Madalena não somente casam, como também
convivem durante anos, chegando o casal a ter um filho. Esta proximidade
vai fazer com que a problemática relacional, que é muito esgarçada entre
Conceição e Vicente, e somente um pouco mais sólida entre Soledade e
Lúcio, chegue ao paroxismo do ciúme desenfreado e da solidão total, por
parte Paulo Honório, e da loucura e da morte, por parte de Madalena.
Soledade e Conceição, pode-se dizer, assim como Lúcio e Vicente, têm, ao
terminarmos “A Bagaceira” e “O Quinze”, um horizonte aberto, em que
poderão inclusive evoluir para outras situações, quem sabe até
encontrando a felicidade. De qualquer modo, pode o leitor divagar sobre
os possíveis desdobramentos posteriores dos heróis e das heroínas. Em
“São Bernardo”, nada disso ocorre; ao invés de abertura final dos
livros supracitados, temos um fechamento irreversível. Madalena
está morta e Paulo Honório, segundo suas palavras, é “um homem
arrasado”, fracassado economicamente, moralmente e socialmente.
Compare-se com Vicente, entregue com viril ardor à labuta rural, ou com
Lúcio, próspero e empreendedor fazendeiro.
Sem dúvida,
todos os três conflitos são solucionados negativamente; todavia, a
separação de Conceição e Vicente, e de Soledade e Lúcio, são, embora
teoricamente, reversíveis, pois os protagonistas sobrevivem. Resulta
isto, na verdade, da visão do mundo - “Weltanschauung” - dos autores em
pauta, plástica e exuberante em Rachel e José Américo, profundamente
trágica e pessimista em Graciliano. A par desse fato, e conexionado com
ele, o ângulo visual empregado – na 3° pessoa – por Rachel e José
Américo, é outro fator de distanciamento épico. São romances elaborados
a partir do “Método Descritivo” de que nos fala Percy Lubbock. Em “O
Quinze”, a ocorrência contrapontística de duas ações – a saga de Chico
Bento e família e o idílio Conceição x Vicente – dilui o impacto
dramático. Em “A Bagaceira”, as constantes interpolações do narrador,
alheias à trama, bem como o descritivismo paisagístico, carreiam o mesmo
resultado. Em “São Bernardo”, a forma seca, concisa, impiedosa mesmo com
que é conduzida a ação, levando-a a um final trágico, dizem da maestria
de Graciliano, um autor consciente de seu ofício, em plena posse dos
segredos do “métier”.
Completando
o enfoque diacrônico, vejamos agora que ilações podemos rstirar da
comparação de “São Bernardo" com outros três romances de Graciliano:
“Caetés”, “Angústia” e “Vidas Secas”, a fim de melhor situá-lo e
compreendê-lo em sua singularidade. Assim, verificamos que “São
Bernardo” foi publicado em 1934; ”Caetés”, um ano antes, em 1933, mas
escrito a partir de 1925; “Angústia”, em 1936; e “Vidas Secas”, em 1938.
Depois desta data, Graciliano não mais voltará a praticar a ficção de
longo fôlego, enveredando pelo o caminho do memorialismo – “Infância”,
1945, “Memórias do Cárcere”, em 1953 e “Viagem” de 1954 –, da crônica –
“Linhas Tortas”, de 1962 e “Vicente de Alagoas”, também de 1962 –, do
conto – “Insônia”, 1947 – e da literatura infantil - “Alexandre e Outros
Heróis”, 1962. Como se vê, uma boa parte destes títulos é póstuma, tendo
o escritor falecido em 1953.
Dentro
deste quadro intratextual, “São Bernardo” vai ressaltar-se justamente
pelo uso daquilo que poderíamos chamar, ainda conforme a terminologia
cunhada por Percy Lubbock, de “método dramático”, isto é, por aquele
modo de narrar que, concentrando a ação e agudizando as tensões, vai
aproximar o romance, em seus efeitos e em sua estrutura, das obras
teatrais elevadas, ou seja, da tragédia. Adotando o esquema triádico dos
estilos épico, lírico e dramático, constatamos que, enquanto “Caetés”,
por sua fatura naturalista, (traindo inclusive forte influencia de Eça
de Queiroz), tende à objetividade própria da Épica, e “Angústia”
aproxima-se, pela constante sondagem do mundo interior, da Lírica, “São
Bernardo”, ao realizar o perfeito equilíbrio entre o social e o
psicológico (cf. Alfredo Bosi: “pois regionais e psicológicas são
obras-primas como “São Bernardo” e “Fogo Morto”), “São Bernardo”, como
dizíamos, vai estabelecer a síntese feliz entre o subjetivo e o
objetivo, entre o “eu” e a realidade, construindo conseguintemente uma
tensão dramática que irá culminar na tragédia final do livro, tragédia
esta que de acordo com o depoimento de Paulo Honório, é ao mesmo tempo
microcósmica e macrocósmica, interna e externa: “O mundo que me cercava
ia-se tornando um horrível estrupício. E o outro, o grande, era uma
balbúrdia, uma confusão dos demônios, estrupício muito maior.” (Cap.
34). Para a consecução da intensidade tensional inerente ao dramático,
Graciliano habilmente concentra em um só local – na casa-grande da
fazenda – os acontecimentos decisivos do romance, seguindo desta maneira
o clássico preceito da unidade do lugar, já expresso por Aristóteles
quando, em sua “Arte Poética”, refere-se aos meios de se obter o “efeito
trágico”. E é aqui que reside a grande diferença entre “São Bernardo” e
“Vidas Secas” , no primeiro, drama individual – de Paulo Honório – e
invariabilidade espacial; no segundo, drama coletivo – de família de
Fabiano – e grande mobilidade horizontal. Depreende-se claramente que,
em “Vidas Secas” o sequenciamento dos acontecimentos, em quadros bem
delimitados, nos quais varia o papel do protagonista, que ora é Sinhá
Vitória, ora Baleia, ora o menino mais velho, ora o menino mais novo,
ora Fabiano, gera uma organização paratática da trama, ao contrário de
“São Bernardo”, onde rigorosa hipotaxe subordina todos os fatos em torno
de um centro único. Não nos esqueçamos também que, ao inverso dos três
outros romances de Graciliano, “Vidas Secas” é contado através do
recurso épico da visão onisciente.
A conclusão
que se impõe, conseqüentemente, de um estudo diacrônico-comparativo de
“São Bernardo”, quer intertextualmente, quer intratextualmente, é que
uma das razões da sua especificidade diante das obras consideradas,
reside exatamente no uso sistemático e consciente do “estilo dramático”,
na perfeita dosagem entre o social e o psicológico, que Graciliano soube
imprimir à história de Paulo Honório. Tal atitude levou a um
deslocamento do centro de gravidade no romance, que em José Lins,
Rachel, José Américo, Jorge Amado, etc., pende muito para o
“documentarismo” estudado por Adonias Filho. Graciliano, certo de que a
literatura deve precipuamente valer como “monumento”, soube bem
discernir seu estatuto de ficcionista como criador de uma
para-realidade, diferente em tudo do historiador, pois, como bem
explicou o Estagirita no capitulo IX da “Arte Poética”, “deverá um
contar realmente o que aconteceu, o outro o que poderia ter acontecido
segundo a necessidade e a verossimilhança”. Das três grandes fontes de
que dispõe o escritor – memória, observação e imaginação –, Graciliano
vai privilegiar sobretudo a última, embora sem desprezar as demais. É em
“São Bernardo” exatamente que ocorre a superação das duas primeiras
características, tão patentes em “Caetés” e na obra dos demais autores
do “Romance de 30”.
O uso do
“estilo dramático”, porém, não se restringe ao estrato ideológico, à
cosmovisão; para que se efetive, faz-se necessário que assuma uma forma
adequada para a sua expressão. E é a análise formal, dos recursos
estilísticos e da carpintaria literária que intentaremos promover na
perquirição do nível sincrônico.
“SÃO
BERNARDO” DE “PER SI”: O NÍVEL DA SINCRONIA
Em seu livro “De Anchieta a
Euclides”, José Guilherme Merquior nos chama a atenção para o fato de,
dos três objetivos da literatura – ensinar, divertir e problematizar –
haver ocorrido uma progressiva hipertrofia do ultimo dos objetivos
citados. Questionar, mais que tudo, parece ser a razão última da
literatura moderna, agora que todas as certezas revelaram-se tão somente
ilusões “humanas, demasiado humanas”. Resulta daí, como conseqüência
lógica, que o herói do romance possuirá forçosamente características do
épico, na medida em que o próprio romance é o homólogo da épica antiga,
mas também do dramático, no momento em que é um herói em crise. O herói
épico “puro”, encontrável em Homero, sendo o representante de um mundo
sem má consciência, apresenta profundidade mínima, preso que é em uma
única dimensão temporal – o presente.
Evidentemente que o herói trágico do romance moderno diferencia-se do
herói da tragédia grega clássica. Lucáks, na sua “Teoria do Romance”,
esclarece bem este ponto, lembrando-nos que, ao mundo fechado, finito e
limitado dos argivos opõe-se um mundo aberto, infinito e ilimitado em
que nos movemos. Para os antigos, o destino (“fatum”, entre os latinos,
“moira”, entre os helenos) é uma divindade controladora das demais
divindades; mesmo Zeus-Júpiter, o suserano dos suseranos, pai e chefe
supremo dos outros deuses, a ele está submetido, não lhe sendo possível
modificá-lo. Em alguns pensadores pré-socráticos, principalmente em
Heráclito, é que vai se dar a explicação da transição teológica para a
explicação filosófica do conceito de “destino”, que passa a ser visto
como uma “lei inalterável” regedora de todo o cosmos, cuja transgressão
acarreta em castigo e sofrimento. Já no romance moderno de linhas
realistas e naturalistas, como “São Bernardo”, o “fatum” é decorrente
não mais de insondáveis desígnios celestes nem de misteriosas leis
cósmicas, porém de outras condições determinantes. O grande impacto do
Darwinismo nas ciências humanas, e por conseqüência na literatura, com
seus postulados de “luta pela vida” e “seleção natural”, irão
influenciar Taine, que fará a transplantação, para o domínio da arte da
palavra, da ideologia evolucionista, através do célebre esquema do meio,
da raça e do momento. Afrânio Coutinho, inclusive, chega a afirmar que o
grande fato cultural da segunda metade do século XIX foi a avassaladora
influencia do pensamento biológico em todas as áreas do conhecimento,
motivado pela publicação , em 1859, do livro capital de Darwin, “A
Origem das Espécies”.
Na obra de
Graciliano Ramos, mormente em “São Bernardo”, os personagens são típicos
representantes deste determinismo. Paulo Honório chega a confessar: “Foi
este modo de vida que me inutilizou”, “A profissão é que me deu
qualidades tão ruins” (Capítulo 36). Aceitação do destino, do “Mak Tub”,
é uma atitude que permeia todo o livro; “É tarde para mudar de
profissão” (Capítulo 2). Outra característica do herói trágico é a “hybris”,
o orgulho desmedido: “Nunca me arrependo de nada. O que está feito, está
feito.” (Capítulo 20). A ironia trágica, que se manifesta quando o
indivíduo é levado a fazer o inverso do que quer, conduzindo-o a buscar
o que irá lançá-lo no “sparagmos” (desgraça), também pode ser
constatada. No capitulo 12, quando decide fazer a corte à filha do juiz,
Paulo Honório encontra Madalena, “precisamente o contrário da mulher que
andava imaginando – mas agradava-me, com os diabos”. É a repetição, em
outros termos, da saga de Édipo, que, procurando salvar-se, vai cada vez
mais se aproximando de sua inexorável perda.
Particularmente importante, para formarmos uma idéia do plano geral do
livro, é a análise que se pode fazer do primeiro capitulo da obra. Nele
está como que um resumo de tudo aquilo que posteriormente vai se
suceder, ou pelo menos já aparece nele todas as peças essenciais da
ação, denotando o escritor artífice, consciente e construtor que era
Graciliano, em oposição ao escritor iluminado, vate, inspirado, que
começa o enredo sem saber exatamente onde irá desaguar. É este Capítulo
I, repetimos, exemplar, no sentido de ser uma espécie de sumário das
principais características do livro, mostrando de modo insofismável que,
em “São Bernardo”, assim como na tragédia grega clássica, tudo era
determinado desde o início, e tudo se encaminha para um desfecho de
antemão preparado e sabido pelo autor. Daí, o uso que ele faz do “flashback”.
Vejamos,
detalhadamente, a ocorrência de tais características. Logo na primeira
fala de Paulo Honório, que, por sinal, é o primeiro exemplo de discurso
direto do livro, patenteia-se o caráter rude e violento do protagonista:
“Vá para o inferno, Godim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está
safado, está idiota. Há lá quem fale dessa forma.” A incomunicabilidade,
ou antes, o fracasso comunicativo, condição da tragicidade de Paulo
Honório, evidencia-se quando se lê, a propósito da feitura do livro, que
de atividade social a ser compartilhada com João Nogueira, Padre
Silvestre e Azevedo Godim, apenas o último permanece. E mesmo este não
consegue entrosar-se com Paulo Honório, pois “cada um prestava atenção
às próprias palavras, sem ligar importância ao que o outro dizia”. Na
mesma passagem, a visão reificadora de Paulo Honório, reduzindo sempre
seres humanos a coisas ou máquinas: “... chegava a considerá-lo (Godim)
uma folha de papel destinada a receber as idéias confusas que me
fervilhavam na cabeça”. Sua radical solidão aparece também quando,
fracassado o projeto inicial do livro, confessa a causa de tal fracasso:
“Compreendi que não nos entendíamos.” Porque esta é a grande razão do
fracasso de Paulo Honório; ele não compreende ninguém, nada vê a não ser
seu lucro e a acumulação, e todo diálogo que trava, como demonstraremos
a seguir, nada mais é do que um monólogo a dois, pois cada palavra que
profere é uma ordem, um grito de comando, não uma tentativa de
comunicação.
Outras
características que podemos arrolar, visíveis neste Capítulo I; a
incorporação da linguagem coloquial, o lastro histórico-documental
(“Depois da revolução de outubro”), a ironia (“Torceu-me a cara. E
éramos amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem suas manias”), a
crítica à literatice dominante no Brasil de então, da qual Graciliano
faz Azevedo Godim representante (“A literatura é a literatura, seu
Paulo”). De passagem, surgem ainda os nomes de Casimiro Lopes, Marciano,
Maria das Dores, da velha Margarida, e, principalmente, de Madalena, no
final do Capítulo: “Estremeci, pensei em Madalena.”
É
interessante verificar como vão se desenvolver, no transcorrer do livro,
estas pequenas sementes lançadas ao longo do 1° Capítulo. Todas as
possibilidades de evolução da trama já estão indicadas no começo do
romance, mostrando como Graciliano, antes de começar a escrever, havia
construído de forma total e definitiva o mundo ficcional que iria pôr em
movimento logo a seguir. Nada acontece ao acaso, cada elemento possuindo
sua função específica pré-determinada.
De cunho
metalingüístico, como o subseqüente, pois a ação só vai começar
propriamente no Capítulo 3, este Capítulo inicial revela ainda, se o
compararmos com o Capítulo final, um forte sentido de simetria na
estruturação da obra; a exemplo dos dois primeiros, o 36° Capítulo é
isento de ação, limitando-se às recordações de Paulo Honório; ao
aprofundamento psicológico que ele faz na retrospectiva da sua vida.
Que por
todas estas causas seja “São Bernardo” um livro longamente amadurecido,
fruto de uma visão dramática, concentracionária, do ofício de escritor,
é o que se percebe até pela escolha do título. Graciliano, ao intitular
o romance com o nome da fazenda pela qual tanto desejou, trabalhou e até
assassinou Paulo Honório, parece querer significar que São Bernardo é
sua vida, e que ele, Paulo Honório, vive em função exclusivamente de São
Bernardo. Reificador por excelência, eis que ele mesmo se coisifica, ao
submeter-se à propriedade que foi o motivo de sua ascensão e queda; e
mesmo quando nada mais lhe resta, a não ser o livro que escreve, e no
qual deposita sua mágoas e frustrações, o que lhe serve como resumo e
síntese de sua vida não é o nome de Madalena, nem outro qualquer, mas o
onipresente pedaço de terra em que iniciou a existência como trabalhador
alugado e para o qual convergiram todo o seu suor e seus sonhos.
Recorda-se, por exemplo, a seguinte fala do Capítulo 2: “O meu fito na
vida foi apossar-me das terras de São Bernardo, construir esta casa,
plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador,
introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um
rebanho bovino regular.”
Por outro
lado, é bom recordarmos que o nordestino é aquele tipo de homem que,
preso à terra e dela inteiramente dependente, sofre um verdadeiro
“complexo de Anteu”, a exemplo do lendário gigante filho de Géia.
Afastado de sua mãe, perde toda sua força e vitalidade, apenas o contato
constante com ela revigorando-o e dando-lhe novo alento. Se bem que no
caso do Nordeste brasileiro, mercê da crueldade climática e da incúria
governamental, talvez fosse mais apropriado falarmos de “Complexo de
Sísifo”, ou de Tântalo, ou de Íxion, os eternos condenados a eternos
trabalhos sem êxito ou recompensa, recomeçando sempre um inútil e
desgastante esforço em direção do impossível, padecendo fome e sede no
momento mesmo de saciá-las, ciclicamente presos a uma inalterável “roda
do Destino”. Tal quadro, válido ainda em nossos dias, muito mais
gritante revelava-se nas décadas de 20 e 30. E significativamente vai o
romance fechar-se com a involução de São Bernardo, depois do breve surto
capitalista imprimido por Paulo Honório, a uma situação próxima da
anterior, típica de uma economia de subsistência.
Fracasso,
solidão. Tocamos aqui o ponto nevrálgico da personalidade de Paulo
Honório. Enquanto o herói cômico apresenta-se integrado ao seu meio
ambiente, interagindo em perfeita consonância com os que os cercam, suas
complicações resolvendo-se sempre em um nível superficial, o que
caracteriza o herói trágico é precisamente a extrema, profunda e radical
solidão que o envolve, impossibilitando-o de, ao comunicar-se, promover
sua integração e seu entendimento com os demais. Neste sentido, seria
cabível um estudo mais detalhado de Paulo Honório em relação a cada um
dos outros personagens que, embora não exaustivo, servisse para delinear
seu irremediável isolamento. Graciliano, na verdade, preocupava-se em
salientar, em cada um dos personagens que entram em contato com o
protagonista, aqueles detalhes contrastantes que irão realçar as
diferenças existentes entre eles e Paulo Honório. Teríamos, portanto, o
seguinte quadro:
Paulo Honório X
Madalena
Paulo Honório X Padilha
Paulo Honório X “Seu” Ribeiro
Paulo Honório X Mendonça
Paulo Honório X Azevedo Gondim
Paulo Honório X Marciano
Paulo Honório X D. Glória
Paulo Honório X Padre Silvestre
Paulo Honório X Costa Brito
Paulo Honório X João Nogueira
A rigor,
apenas três personagens das mais atuantes – o juiz, a velha Margarida e
Casimiro Lopes – não se apresentam em confronto direto com Paulo
Honório. O Dr. Magalhães, por ser representante da “Justiça”, é neutro,
embora, como facilmente se subtende, favoreça o dono de São Bernardo,
subornado por João Nogueira. A velha Margarida, que não tem nenhum peso
na trama, é mais um rasto do passado que uma força do presente. Com
Casimiro Lopes, o caso é diferente: Paulo Honório com ele identifica-se,
e tão completamente, que chegam a comunicar-se usando somente sinais.
– “Isto vai mal, Casimiro, dizia eu
com os olhos
Casimiro Lopes concordava, erguendo os braços.”
No capítulo
6, quando é tomada a decisão do assassinato de Mendonça, ocorre entre os
dois um perfeito entendimento: “Desci a ladeira e fui jantar. Enquanto
jantava, falei em voz baixa a Casimiro Lopes, a princípio com panos
mornos, depois delineando um projeto. Casimiro Lopes desviou-se dos
panos mornos e colaborou no projeto.” Enfim, quando da agudização da
crise, no momento em que Madalena o acusa de assassinato (Cap. 26),
Paulo Honório tem a seguinte reação: “De repente achei que Madalena
estava sendo ingrata com o pobre do Casimiro Lopes. Afinal ...” e mais
adiante: “Que trabalhada! Que confusão! Ela não tinha chamado assassino
a Casimiro Lopes, mas a mim. Naquele momento, porém, não vi nas minhas
idéias nenhuma incoerência. E não me espantaria se me afirmassem que eu
e Casimiro Lopes éramos uma pessoa só.”
Fora tais
exceções, Paulo Honório vê a todos e para com todos age como se fossem
seus inimigos, ou então os trata com um velado menosprezo. Retomando o
quadro de oposições, vejamos as mais significativas delas: Paulo Honório
X Madalena, sobre a qual pouco falaremos, tal a sua evidência e clareza.
São antípodas totais; ele é dominador, egoísta, ambicioso; ela é
despreendida, altruísta e sonhadora; Paulo Honório é um Sancho, Madalena
um D. Quixote de saias.
Entre
Padilha e Paulo Honório, o contraste acentua-se pela troca de lugares
que fazem os dois personagens no decorrer da narrativa, ascensão de
Honório, que de trabalhador do eito de São Bernardo passa a dono e
patrão; queda de Padilha, que de herdeiro da fazenda vai se transformar
em um mero trabalhador assalariado no mesmo local onde fora chefe e
senhor.
“Seu”
Ribeiro e Mendonça representam o passado semifeudal do Nordeste, a velha
classe proprietária decadente porque não soube adaptar-se aos novos
tempos. Embora Paulo Honório não seja um capitalista completo, nem possa
sê-lo, pois nem sua formação nem as condições concretas da época o
permitem, nota-se que ele é uma tentativa de superação, via capitalismo,
da estagnação em que modorravam o Gama, o Fidelis, o Mendonça, o próprio
Padilha. O caso de “Seu” Ribeiro, narrado no Capítulo 7, é ainda mais
contundente. De “considerado e major” reduz-se a vender bilhete de
loteria na cidade grande, o que leva Paulo Honório a considerar: “Tenho
a impressão de que o senhor deixou as pernas de baixo de um automóvel,
Seu Ribeiro.”
Tais
oposições, a que se somam outras, vão criando um ambiente de progressiva
e constante tensão. Com razão observa Antônio Cândido que, em “São
Bernardo”, “os interlocutores não falam à toa, e a impressão é que
duelam.” O diálogo é um combate, um jogo de palavras duras e
contundentes que “eram para mim semelhantes às cobras: faziam voltas,
picavam e tinham significação venenosa.” (Capítulo 30)
De qualquer
modo, o diálogo, mesmo áspero e cheio de arestas, é uma porta
comunicativa. Paulo Honório, apesar dos pesares, comunica-se, embora
precariamente, com outras personagens. A partir do Capítulo 24, porém, a
forma dialógica é lenta, mas seguramente abandonada, exatamente quando
Paulo Honório começa a padecer de seu incurável mal – o doentio ciúme
que levará Madalena à morte. O discurso direto vai se compor cada vez
mais, à medida em que se sucedem os fatos, de frases desconexas,
isoladas, perguntas sem respostas que ecoam no vazio. Concomitante com
este abandono do diálogo, surgem as formas características da crise
dramática, quando de sua agudização – o monólogo e o solilóquio. Exemplo
mais forte de solilóquio e monólogo é precisamente o último Capítulo do
livro, onde Paulo Honório, sucessivamente abandonado por “Seu” Ribeiro,
D. Glória e até pelo Padilha, vagando sozinho nas suas trevas
interiores, revê seu passado.
No Capítulo
31, em que ocorre a última conversa entre Madalena e Paulo Honório, com
subseqüente suicídio, cada um dos protagonistas fala de coisas
diferentes. Neste Capítulo, um dos mais perfeitos que realizou
Graciliano como ficcionista, ambas as personagens, perdidas em seus
labirintos íntimos, psicologicamente fragilizados, absortos e absorvidos
em seus problemas, nos transmitem a penosa imagem de dois cegos
percorrendo uma monstruosa cidade deserta; Madalena monologa, recordando
seu sofrido percurso; Paulo Honório, iludindo-se com um futuro que não
virá, faz planos que nunca se concretizarão. Entre os dois, o vazio, a
falta de compreensão mútua; heróis trágicos, caminham como autômatos,
porque “o destino conduz os que aceitam, e arrasta os que a ele se
opõem.”
O romance,
do meio para o final, assume, como vimos, as feições da tragédia.
Seja-nos lícito apontar, intertextualmente, para uma passagem do
Capítulo 36, comparando-se com um trecho de “Macbeth” (Ato V, Cena 5), a
fim de sentirmos como o solilóquio e o monólogo de Graciliano se
aproximam dos “pathos” deste gênio maior da dramaturgia, Shakespeare:
“Cinqüenta anos. Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa pra quê!
Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair
correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos,
para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é
bom vir o diabo e levar tudo?”
No “Macbeth”:
“A vida é apenas
uma sombra ambulante, um pobre cômico
que se empavona e agita por uma hora
no palco, sem que seja, após, ouvido;
é uma história contada por idiotas,
cheia de fúria e muita barulheira,
que nada significa.”
Em um e no
outro, a densidade trágica, a visão pessimista, a certeza que a vida é a
“agitação feroz e sem finalidade”, do verso de Bandeira. E é neste
momento que “São Bernardo” assume as proporções de metáfora da
literatura mesma: diálogo impossível do autor com um precário e fugidio
leitor, todo livro é, em sua tentativa de romper a solidão de quem
escreve, um monólogo desesperado, um solilóquio, um diálogo com o nada.
No seu processo comunicativo, o receptor está ausente e indeterminado; o
livro (qualquer livro) como entidade ambígua, tensa, dramática, cuja
fala é para todos e para ninguém.
CONCLUSÕES
Quando,
decolando do axioma de que “São Bernardo” pode ser considerado como o
protótipo do “Romance de 30”, empreendemos a investigação que ora chega
a cabo, suspeitávamos das dificuldades a serem enfrentadas no caminho.
Obra plural, complexa e instigante, “São Bernardo” oferece-nos múltiplos
aspectos a serem considerados, o que traz como conseqüência que nenhuma
leitura possa aspirar à totalidade. De modo que, ao fim e ao cabo, estas
“conclusões” são, mais exatamente falando, apenas tentativas de
conclusões.
Ao
desenvolvermos o trabalho, cingimos-nos a um aspecto da técnica de
Graciliano, certamente o não menos dispiciendo; o uso do “método
dramático” na elaboração de “São Bernardo”. Ao optarmos por este veio,
olvidamos outros, quiçá de importância tão grande quanto o que
privilegiamos. Apenas superficialmente, por exemplo, tratamos de alta
consciência metalingüística do autor; ao contrário de “A Bagaceira”,
onde só aparece no início, e de “Fogo Morto” ou “O Quinze”, onde é
totalmente posta em segundo plano, todo “São Bernardo” está entremeado
de reflexões sobre o fazer literário, inseridas aí as contundentes
críticas que faz Graciliano àquela arte que se convencionou chamar, por
seu superficialismo, “sorriso da sociedade”.
Além disto,
o perfeito domínio do código culto, a adequação da linguagem empregada,
o uso sóbrio do estilo indireto livre, a solução do problema das
mudanças de registro entre discurso direto e discurso indireto – tão
gritantes em José Américo de Almeida, por exemplo – são tantas outras
feições da obra que achamos por bem não aprofundar. Presentes em “São
Bernardo”, são elas comuns a toda obra madura de Graciliano. Ora, a
missão da critica é, segundo Rolando Barthes, procurar não a semelhança,
mas a diferença.
E esta
diferença, o sinal especificador que singulariza “São Bernardo” e o
coloca em posição ímpar dentro do “Romance de 30” e da obra de
Graciliano Ramos, é o equilíbrio tenso, a dramaticidade concentrada e a
tragicidade moderna, porque atual, do seu protagonista. No decorrer do
estudo realizado, procuramos anotar de que meios, quer no plano
ideológico, quer no plano formal, se valeu o escritor para atingir a
consecução deste objetivo.
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