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"O poeta e a
inquisição":
a tragédia das origens
josé
arrabal

Este levantamento descritivo de
algumas questões específicas
do texto O POETA E A INQUISIÇÃO
(1839), de Gonçalves de
Magalhães (1811/1882), procura compreender as
sutilezas dessa peça
para o teatro dotando-a de uma leitura mais
complexa no seu sentido
de origem da literatura teatral no Brasil já
independente da dominação
portuguesa.
Não se expõem aqui teorias gerais do
Romantismo brasileiro a partir do exemplo de Magalhães. São notas
sobre atos, cenas ou conceitos observados conforme a ambigüidade
estrutural desse texto de transição, ora trágico, ora dramático, pois
que movido seja pela fatalidade das situações, na sua feição histórica,
seja pelo conflito passional, no procedimento de sua rede de intrigas.
Esta leitura descritiva da obra de
Magalhães de modo algum pretende esgotar seus problemas. Fixa-se em
apenas cinco temas conforme são tratados pela peça:
1- A Condição do Teatro
2- A Teatralidade
3- O Sentido da Razão e do Desejo
4- O Artista e a Questão Nacional
5- O Discurso Trágico e o Discurso Dramático
Tem-se uma compartimentação
preocupada em didatizar as questões em jogo. Referências à reflexão que,
sem dúvida, obterá melhor proveito com a leitura simultânea do próprio
texto da obra.
Tais notas são como que
contribuições a pequenas teses dedicadas a uma análise de certas
ideologias então emergentes que irão mais ou menos conduzir de certo
modo a feição do chamado teatro brasileiro para além do
Romantismo até nosso dias.
A peça de Gonçalves de Magalhães,
embora sendo obra simplória, cresce de significado por semear certos
pontos de vista ainda hoje muitas vezes presentes no que se toma por
dramaturgia nacional : idéias tais como as de nação, elite, povo e
artista.
A CONDIÇÃO DO TEATRO
Em obra de feição exemplar e
moralizante, tratando da vida trágica de um dramaturgo (Antônio José,
o Judeu ), sendo este enamorado de uma atriz, sem dúvida, há que se
auferir desse contexto qualquer referência à então condição de
existência do teatro. E isto é explícito em O POETA E A
INQUISIÇÃO.
Já no primeiro ato a questão se
explicita sob feição didática. Magalhães não se satisfaz apenas com o
seu desejo de inaugurar a dramaturgia nacional. Quer ser um
renovador das artes, alcançando inclusive o próprio sentido da encenação
onde o teatro tem a sua plenitude.
Pelo autor se expressa Mariana,
personagem/atriz na peça para o teatro.
Em diálogo com Lúcia, criada
que “fala como o vulgo”, Mariana irá compor todo um
contraponto de indicações pertinentes à situação do artista frustrado
por seu esforço. A feitura do teatro é, nesse esforço, mal recompensada:
Mariana:...................................Ante
o espelho,
Estudando paixões, compondo o corpo,
Mil expressões numa hora procurando,
Meus dias passo; - e tu doida me julgas
Quando me vês gritar, lutar, ferir-me,
E às vezes investir-me delirante!
No caso, a função do teatro é a
composição de um modelo complexo de bom comportamento social, seja
divertindo o público, seja levando-o à catarsis de seus dramas e
falhas: ora “salutar remédio”, ora “interpretando a história”,
nas “sublimes lições de poesia” que suas referências analógicas
compõem por quadros “que são normas”.
No entanto:
Mariana:
...............................nos tratam
Como uma classe vil e desgraçada,
Sem honra e sem pudor.....................
CRIME E VIRTUDE
Assim, esse teatro é um espelho da
vida, uma revelação de sentimentos conflitantes que tem por objetivo o
equilíbrio social desses conflitos.
Este é o seu “crime”,
como tal, sua “virtude”: desempenho expresso pela
duplicidade da representação a favor dos outros :
Mariana: Um imenso
teatro é este mundo;
Um papel aqui todos representam;
Eu represento dois, de dia e noite.
Eis meu único crime.
Tais observações metateatrais, na
realidade das aspirações da obra, sintetizam o conjunto de toda uma
lição moralizante em plano fundamental de preocupações que tentam
recompor a importância social do artista e, por conseguinte, do palco,
junto à platéia.
Isto, quando se procura erguer o “Teatro
Nacional” como um dos esteios da formação dos valores da pátria.
O conceito de história para o poeta
é modelar: “úteis lições para o presente”. E assim se aspira um
novo tempo, uma nova época para uma nova nação. Solo em que o artista
também busca seu lugar. Um lugar que lhe seja glorioso, conforme a idéia
que tem de seus direitos naturais : “A recompensa do
gênio é a glória”, diz Gonçalves de Magalhães em seu “Discurso
Sobre a História da Literatura no Brasil”
Tem-se um artista sofrido e submisso
à imposição mitológica do talento, serviçal que pretende
ser reconhecido como trabalhador do espírito, a mais árdua missão
:
Mariana:
..............................Vê como é difícil
O trabalho da mente........................................
Nesse sentido, Mariana tenta
convencer a platéia e a criada Lúcia (curiosa identificação) de
seus argumentos, pois que agora, findada a época dos mecenas, o
artista se dirige ao “povo”, nesse “povo”
procurando o reconhecimento e o sustento de suas atividades.
Clarifica-se, porém, na obra, a
diferença entre as partes, nesse desejo de aproximação. Para o artista,
uma diferença natural demarcada por sua vocação, por sua sensibilidade.
Nesta passagem do texto também se
tem a apresentação de Antonio José, de sua tragédia e martírio,
artista popular esquecido na hora do infortúnio por aqueles a quem
serviu com suas “operas”.
Não é vã a sua imediata entrada em
cena após a fala de Mariana.
Exposta a contraditória condição de
vida do produtor de arte, mostra-se então sua personagem mais
pungente.
A TEATRALIDADE
O esforço do intérprete e a dor de
sua missão, situação de que se serve para valorizar-se junto ao público,
não são apenas uma referência conceitual na obra de Gonçalves de
Magalhães, nem somente um referência expressa por falas de seus
personagens. É de sobremaneira um dado presente na movimentação de cena,
conforme deixam claro as rubricas da peça.
A partitura transcende aos diálogos,
procurando uma feição cênica clara, delimitada e definida. Procura-se
reformar “a monótona cantilena com que os actores recitavam seus
papéis, pelo novo méthodo natural e expressivo, até então desconhecido
entre nós” (Breve Notícia sobre Antonio José da Silva,
por Gonçalves de Magalhães, 1839.). Assim se tenta superar a postura
teatral neoclássica, com o desejo de um modelo romântico para a
encenação.
O ator será mais do que mero
porta-voz das falas de um texto. O seu desempenho será algo integrado a
se compor no palco, contudo sem deixar de o ser sob indicação expressa
do dramaturgo. Indicações sempre presentes no texto.
Um momento de radicalização dessa
disposição teatralizante é a última cena do 4º Ato, quando os
Familiares do Santo Ofício prendem Antonio José. Aí o texto é
quase só rubrica: as falas se restringem a exclamações e a um mínimo de
frases, enquanto as rubricas indicam todo o desenvolvimento da ação
dramática.
Também a cenografia e a indumentária
não foram deixadas de lado nesse processo de reforma da cena. Cada
passagem da obra é um registro dessa renovação de métodos de encenação,
com suas implicações sintomais ou sentidos subjacentes. No decorrer de
cada quadro sucedem-se indicações comportamentais de modo minucioso.
MENTE FORTE, CORPO FRACO
Desde o primeiro ato, tal
preocupação se corporifica. Mariana não apenas entoa a “monótona
cantilena” de sua condição social. Há toda uma série de dados que
confirmam por seus atos e sentimentos as suas palavras. Assim também
Lúcia, a criada, é personagem vivo nas indicações de seu
comportamento no palco. O que contrapõe as duas não são simplesmente
idéias ou conceitos, são condições palpáveis e concretas de ação e
presença em cena.
Mariana
está cansada, doentia, sofrida, violentada pelo árduo trabalho, pelo
esforço de sua missão, ainda que esforço não reconhecido como o de
alguém que serve à sociedade. Lúcia, a serviçal, a que pelo
hábito e costume o “vulgo” julgará como sendo a imagem do
verdadeiro trabalhador, mostra-se cheia de saúde, vitalidade, disposição
física. Uma indicação serve à outra nos seus contrastes, se observadas
como projeção de suas representações sociais.
O talento e o espírito de Mariana
são fortes. O físico é fraco. O oposto se dá com Lúcia. Assim
ambas se movem em cena. Não apenas falam de seus sentimentos com
palavras, mas também os confirmam com a naturalização de gestos e
expressões indicadas, no microcosmos do cotidiano que o palco pretende
ser.
Mariana: (levantando-se) Vê
como é difícil
O trabalho da mente, e o quanto custa......
ALIANÇA PARA O EQUILÍBRIO
A fala e o gesto se compõem para
alcançar o intuito temático: a valorização do trabalho intelectual
confrontado com o trabalho manual a encargo de Lúcia
Um pouco antes fora Lúcia quem
trouxera o remédio para o corpo doente de Mariana.
As duas, nas suas representações, se
complementam, numa aliança cuja plenitude pretende o equilíbrio,
mantidas as suas diferenças devidamente realçadas.
Esta aliança é uma impingência dos
novos tempos, da nova nação, considerada a naturalidade das diferenças
entre as partes: entre o “vulgo” e o “talentoso”.
A ruptura dessa aliança será uma
ruptura trágica: é o que se procura dizer em dada instância exemplar da
obra. Concepção da relação artista-povo presente até hoje em
muitos textos do chamado teatro brasileiro.
Trata-se de um desejo de aliança e
aproximação nada simplório, nem imediato, pois que sua complexidade é
evidente, no mundo de existência peculiar em que cada parte há de ser
situada pela peça. Diferença a ser preservada na sua graduação,
somando-se a isto o dado difuso do que vem a ser “povo”, pois que
não se trata de classe trabalhadora, na sua expressão fundamental, já
que esta é o braço escravo. Trata-se pois de uma massa informe, de
circulação urbana, descaracterizando-se, é claro, quaisquer relações
classistas mais a propósito. Conceito difuso no que diz respeito ao “vulgo”,
e não no que irá determinar a categoria dos artistas. Estes são os que
informam e qualificam os valores sociais para a grandeza nacional. E no
teatro essa relação de indicação cultural se reproduz no próprio
confronto vertical entre o palco e a platéia.
A estrutura complexa da obra
objetiva conduzir o público de modo imposto, autoritário, às injunções
do autor. O público é trazido ao centro da ação, conduzido por suas
dores, ânsias ou alívio, pois que esse teatro moralizante é um
indiscutível exemplo a seguir. Afinal de contas, seu produtor, o
artista, é um ser especial, um “nobre de espírito”, a maior das
nobrezas:
O Conde:
.........................................................
Sei que um bom escritor vale mil Condes,
E curo de deixar úteis escritos.
A SITUAÇÃO NATURAL
A teatralidade - a mobilidade cênica
como dado de naturalização de situações dramáticas - é uma exigência
permanente do texto, para que ele se faça crível e conseqüente como
verdade inabalável nos seus propósitos de indicação comportamental junto
à platéia.
Gonçalves de Magalhães, na sua
minúcia ao rubricar cada passagem, assim determina, pelo procedimento
formal, o senso, a ideologia o padrão comportamental que reproduz em
cada fala.
Esse cuidado cênico é um cuidado
maior de O POETA E A INQUISIÇÃO.
Feito evidência, isso se explicita
categoricamente no instante em que a tragédia toma seu rumo definitivo,
justo na cena VII do 3º Ato, passagem em que Frei Gil consegue
sua prova fundamental contra o judeu Antônio José, o
bilhete que este enviara ao Conde.
A cena é toda marcada com rubricas
do dramaturgo, detalhe por detalhe até sua culminância:
Frei Gil:
......................................................................
Oh! Que coisa feliz! Como apanhei-o!
É de Antônio José. Ei-lo assinado!
Estará ele aqui?... Se está!... É ele
Que ontem vestido estava de criado.
Vai para lá de noite!... Hei de esperá-lo.
Que livro!... Vou pô-lo sobre a mesa
( Procurando pôr o livro no mesmo lugar )
No seu lugar... Aqui; creio que é isto.
Estava mais deste lado, assim virado.
O conde o que estará fazendo agora?
( Chega-se à porta escutando )
Muito bem... Muito bem... aí vem gente.
( Vem, assenta-se pé ante pé, tira da
Algibeira o breviário e põe-se a ler. ).
Não peco contra a forma.
A RAZÃO E O DESEJO
Há questões menores, contudo,
básicas para uma decodificação mais apurada de O POETA E A
INQUISIÇÃO. São dados de pano de fundo, marcando toda a obra.
Uma dessas questões é a polêmica que
se trava em torno dos conceitos de razão e instinto, cuja
polarização se expressa por duas falas contraditórias do texto.
Uma delas, formulação do Conde
( -“A culpa é nossa, que da razão tão pouco nos servimos”. ), por
ocasião de seu longo diálogo com Antônio José, no 3º Ato.
A outra fala é de Frei Gil (
- “... o mundo com razões não se embaraça”. ), no 2º Ato,
por ocasião de seu primeiro encontro com Mariana.
O que se contradiz sintetiza-se como
juízo, na reprodução dos conceitos ideais de história e predestinação
que movem o raciocínio de Gonçalves de Magalhães a propósito da vida e
da realidade social.
O acaso é um dos móveis da obra,
como também é seu motor certa relação mecânica de causa e efeito na
medida da participação dos homens em dado contexto. Uma conjunção
ambígua de fatores complexos que cada personagem ( e também o
dramaturgo, é claro ) usa ou dela participa enquanto vítima, a seu modo,
conforme os interesses moralizantes da trama.
A razão é uma razão ideal e
metafísica, daí ser inviável para impedir o desfecho trágico. Por ser
mecânica na sua expressão de possibilidade permite-se aos artifícios do
acaso.
Assim, a história torna-se uma
história de mitos e aspirações mitológicas. De “predestinados” e
“vulgos”. Uma história distorcida, de acordo com a aspiração de
quem a manipula, no caso, Gonçalves de Magalhães.
No fundo, é claro, tem-se também uma
fábula romântica, portanto não há o que mais se esperar disto.
Outra questão menor que compõe o
pano de fundo de sustentação das questões maiores, em O POETA E A
INQUISIÇÃO, é a condição de existência do desejo, da sexualidade.
É a sexualidade que de certo modo
leva Frei Gil ao desespero e ao descontrole, na sua perseguição a
Antônio José: sua disputa “irracional” por Mariana :
Frei Gil:
.......................................................
Que me faz palpitar de amor o peito.
Vinde, cara Mariana ........ Abraçai-me.
É a sexualidade o que constrange
Mariana em sua profissão mal vista pelo público a quem serve:
Mariana: ... Que nos vê com
desprezo e que nos trata
Como uma classe vil e desgraçada,
Sem honra e sem pudor;...............................
SEXO: PAVOR E DESESPERO
Por toda a peça rondam o desejo
contido e a sexualidade sublimada. E quando esses sintomas se
explicitam, desencadeia-se um fato trágico ou uma situação dramática. A
sexualidade explícita promove o pavor e o desespero, chegando a ser
determinante de confusos sentimentos de amor e ódio:
Frei Gil: Tanto orgulho já me
irrita!
Eu quero, mulher louca, eu quero ver-vos
No Santo Tribunal com esse orgulho.
O estigma do desejo irá atormentar
Antônio José em seu sonho, verdadeira premonição da tragédia. E
quando mais tarde esse sinal de desejo vem ao consciente, se expressando
na sua proposta de casamento a Mariana, para ela se dá o desfecho
trágico: sua morte. Mera coincidência? Jamais, principalmente numa obra
tão mobilizada pelo acaso.
O sonho de Antônio José, na cena IV
do 2º Ato, está carregado de símbolos e índices de referências eróticas
( “... sonhava com serpentes”. ). Seu pavor conota uma
sexualidade reprimida. Em questão, a salvação de Mariana
perseguida por um homem que a empurra para a fogueira. Mariana,
salva e desmaiada aos pés de Antônio José, não será o suficiente.
Este investe contra o fogo do Santo Ofício, espalhando tochas
por toda a praça. A arma que tem em mãos, no embate, é uma espada.
Os índices são óbvios, não apenas prenunciando a tragédia, mas também
toda a questão passional e dramática que a envolve. Sua falha e seu
conflito.
Desejo e morte se entrelaçam sob o
estigma da violência e do medo. Para ambos - desejo e morte - a salvação
está em Deus, instância única da felicidade:
Antônio José: .......Deus
ouviu-me,
E de minhas misérias condoeu-se!
Eu vítima vou ser no altar do fogo,
................................ – Eia, partamos!
Adeus, masmorra! Oh! Mundo! Adeus, oh, sonho!
O ARTISTA E A NAÇÃO
O próprio Gonçalves de Magalhães é
quem irá considerar O POETA E A INQUISIÇÃO “a primeira
tragédia escrita por um brasileiro, e única de assunto nacional”. Há
portanto que se reproduzir na obra este seu intuito nacionalista,
auferindo-se daí o seu conceito de nação.
No caso, toma-se a idéia de nação
como uma somatória populacional determinada por dado solo pátrio.
Antônio José
é um poeta brasileiro por ser o Brasil o seu berço de nascimento.
Concepção decorrente da mitologia romântica, que toma a pátria como uma
idéia-força básica.
O Conde de Ericeira localiza
esse conceito e determina seus compartimentos:
Conde: O que é Nação? A soma
de escritores,
De artistas, mercadores, e empregados,
Gente do campo, frades, e governo.
Formulação que nos permite aglutinar
tamanhas peculiaridades em três estamentos, destacando-se como primeiro
desses o que reúne escritores e artistas, situando-se como o terceiro o
que reúne frades e governo. Isto numa disposição justo o inverso da
situação social do poder e do mando lusitano que nos traça a peça.
No trânsito mediano está aquilo que
se pode chamar de “povo” : mercadores, empregados, gente do
campo, sem dúvida o mais complexo e numeroso conjunto dessa
compartimentação social.
A nação se constrói com sua
história. A glória dessa história será o motor de sua feição no presente
e no futuro. E nesse âmbito, fundamenta-se a importância do intelectual
pátrio, uma espécie de nobreza do espírito, nobreza maior, ainda a ser
reconhecida, e a quem cabe registrar os passos dessa nação, marcos que
lhe servirão de exemplo no seu desenvolvimento histórico.
A partir dessas concepções, tem-se
um confronto de duas nacionalidades. Uma delas, decadente e corrupta,
incapaz de reconhecer seus valores intelectuais. Um Portugal opressivo,
nação que outrora não soubera considerar seus filhos de talento: o drama
de Camões revive-se no de Antônio José. Nação em que
impera o medo e onde o governo “a servidão ao povo contagia”.
Espaço nacional em que a religião se vê dominada por espíritos do mal
que desviam o sentido da doutrina:
Antônio José:
............................................................
Era de corrupção e decadência!
E o que fazemos de nós! A passos largos
Marchamos para a queda. ( ........................ )
Onde está Portugal? Nação que outrora
Do mar o cetro sustentava ufana,
E mandava seu nome a estranhos povos?
É a advertência exemplar que se faz
à outra nação, esta, jovem e emergente, que procura construir seu
futuro, solidificar suas bases gloriosas.
Considera a peça para o teatro que o
primeiro passo para isso deve-se dar através do reconhecimento, do
respeito ao valor do estamento superior que reúne a intelectualidade.
O INTELECTUAL E O POVO
O ideário de Gonçalves de Magalhães
sempre retorna a seu ponto de partida: a reafirmação da importância do
intelectual no contexto social.
Dado que pretende consolidar nas
novas perspectivas do país, invertendo o sentido da tragédia que se
descortina a olhos vistos, tomada como uma fatalidade, conforme já o
escrevera Camões:
“O favor com que mais se acende o
engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cubiça!”
Magalhães, ambíguo em suas
reflexões, crê e descrê na viabilidade de seus propósitos.
O esteio de uma nação, conforme se
aufere das palavras do Conde, é o “povo” . Mas, para o
próprio Conde, o “povo” é ingrato, além de submisso aos
opressores. Antônio José, por sua vez, confia no “povo”,
pois entende ser sua corrupção determinada pelos governos:
Antônio José: Sustenta o povo
a carga enquanto pode,
E, quando excede o peso às duas forças,
Ergue-se e marcha, e deixa a carga e o dono.
A advertência do poeta é aos
poderosos. Como ao “povo”, adverte o Conde , homem
poderoso, mas nobre esclarecido:
Conde:
Pois que se erga, e que marche; eu não o impeço.
A proposta liberal frente à revolta
popular contra a corrupção governamental é um dos pressupostos
ideológicos aparentes da peça para o teatro. Contudo, para que se capte
sua concretude, basta que se determine no texto quem é a representação
do “espírito popular” e como este se expressa.
É a criada Lúcia a expressão
personalizada desse sentimento, conforme a visão do dramaturgo.
Ora Lúcia, em cena, age como
simples coro trágico, ora não é mais que personagem farsesco, ingênuo e
medroso. Sempre um serviçal fiel. Às vezes, um tanto a voz da razão.
Mas que razão? Nas situações pungentes, dela se exige o apoio.
Além disso, não lhe resta mais que sair de cena.
Lucia
é o “vulgo” ainda incapaz de compreender a importância daquele
que lhe serve quase como escrevo e que tanto precisa de sua
consideração: o artista.
A peça se propõe a guiar esse “vulgo”
ao significado dessa necessidade, dessa consideração para com o “trabalhador
do espírito”.
Além do “povo” há um outro
aliado do artista: é o nobre esclarecido. Aqui a aliança é mais firme,
menos calcada nas aparências. Para o artista, essa nobreza tem um
projeto definido, viável e que sem dúvida lhe é de grande agrado:
Conde: (Só) É um homem de
gênio. Assim o Estado
Soubesse aproveitar o seu talento;
Assim o gênio governasse o mundo;
Ou então entre os Reis e as classes nobres
Só deviam nascer os grandes homens.
O SÁBIO E A FALHA
Gonçalves de Magalhães difusamente
aspira a uma meritocracia, em que o mérito reside no talento, no saber,
no intelecto. Uma nação onde em última instância o poder esteja nas mãos
do sábio, do esclarecido bem intencionado.
Por conta do andamento de suas
falhas, confrontando-se Antônio José e o Conde de Ericeira
tem-se uma outra situação complementar. A falha de um é a exaltação, o
extremismo; a de outro, a paciência. Pretende-se com isso um equilíbrio
delicado, com ponto de apoio no “povo”. Frágil ponto de apoio,
ainda que necessário, principalmente na hora do infortúnio. O “trabalhador
do espírito” não pode prescindir do trabalhador manual, consideradas
as suas diferenças de solos. Na hora do infortúnio, o sábio deve tanto
saber adotar a imagem popular ( Antônio José foge da Inquisição
com roupas de criado ), como agradar a certos camarotes.
Assim se compõe o ideário de
Gonçalves de Magalhães. Mas o equilíbrio social que reivindica e veicula
é de tal modo delicado que seu discurso chega a descrer um tanto de suas
reais possibilidades. ( O próprio prefácio da tragédia se encerra com
revelação descrente: “Mas ah! Na porta do templo da immortalidade
está escripto para os Brasileiros estas palavras, como na porta do
Inferno de Dante: Lasciate ogni speranza, voi che’ntrate”.).
Devido a isso, seu discurso trágico
é impositivo e moralista: advertência catastrófica que se compõe verso a
verso, cena a cena, quando o desequilíbrio provocado pela intolerância
ameaça a todos.
Na verdade, o liberalismo do texto
propõe não mais do que uma ficção convencional sintetizada num acordo
entre “classes” para a glória da nação: no ápice de suas
preocupações, a glória do artista, meta a ser alcançada em benefício
geral. Ambígua pretensão, pois que o equilíbrio desejado é frágil,
reconhecido como sonho, no mundo das artes.
As falhas de Antônio José são
complexas e desencadeadas por muitos fatores que são de determinação
natural ou social, tais como sua origem judaica, seu comportamento
exaltado e perturbado pelos ímpetos do desejo e do instinto, sua
ambigüidade pouco explícita na relação com o “povo” e a dita
nobreza esclarecida ( serve ao povo divertindo-o e recusa ouvir
os conselhos daquele que o protege ).
Nesse quadro de tensões e falhas,
Antônio José se perde, como há de se perder também o Conde de
Ericeira, de certo modo, o “outro” de o Judeu.
O modelo é uma somatória de seus
sentidos. O destino dos dois será o Céu , pois que na Terra não
há lugar para os seus sonhos.
Da peça para o teatro restam a
advertência e a pretensão do equilíbrio, quando ela se dirige e fala à
platéia e aos camarotes.
Gonçalves de Magalhães parece ver
nessa impingência modelar a única e frágil possibilidade de o artista
soltar-se à renovação das artes sem precisar entrar no inferno das
opções marcadas pela fuga ou pela morte. Uma renovação sem intensidade,
contida no seu desejo. Calcada em mitos e na distorção da história, para
se tornar viável. Ambígua na sua viabilidade, pois que, objetivando o
soerguimento nacional, conduz a nação pela crença numa história
distorcida, mitológica.
O TRÁGICO E O DRAMÁTICO
Não se pretende aqui discutir a
propriedade da estrutura trágica de O POETA E A INQUISIÇÃO.
A questão é pacífica entre os estudiosos, pois de muito já se reconhece
a fragilidade do motor trágico da obra, tão dependente de frágeis
coincidências e de tantos recursos folhetinescos.
O que se propõe com esta nota é a
inserção de novos dados no âmbito das conclusões a propósito da questão.
Considera-se que, além do móvel
trágico da peça para o teatro, há nela, também, um motor dramático
que, se levado em conta, dimensionará sua leitura, além de melhor
esclarecer o significado ideológico de sua ambigüidade estilística.
Gonçalves de Magalhães é autor de
transição. Passa à experiência romântica sem se livrar das lições
neoclássicas. Situação que se evidencia no texto, ao rastrearmos seus
sintomas, na busca do modo de composição desses modelos.
A mobilidade da obra se calca
basicamente em duas determinantes.
Uma de frágil motor trágico:
Antonio José, na multiplicidade de seu significado, é uma personagem
trágica, contudo, um tanto instável no feitio.
Por outro lado, tem-se o motor
dramático: a questão passional em jogo na peça para o teatro.
A desesperada paixão de Frei Gil
por Mariana comporta conflitos íntimos que compõem uma personagem
dramática. Lida a peça através desses conflitos, enuncia-se, na tragédia
de frágil feitio neoclássico, o procedimento do drama romântico.
O equilíbrio dessa transitoriedade
modelar alcança sua plenitude no quinto ato, quando as duas personagens
– o trágico Antônio José e o dramático Frei Gil – se
defrontam em composição complementar.
Ainda que renovador das artes,
Gonçalves de Magalhães é um ponderado no seu pioneirismo. Na verdade, um
compositor de delicado equilíbrio, conforme tenta conjugar seus “heróis”
em conflito.
Antônio José,
no calabouço do Santo Ofício, encontra-se com o espírito fortalecido e o
físico em frangalhos: é o artista.
Com Frei Gil dá-se o
contrário: justo como antes o drama caracterizara Lúcia, a
criada, o “vulgo”. Sua alma padece de dor, embora ele esteja
forte e são fisicamente.
Os dois – protagonista e antagonista
– se confrontam e se complementam com seus sentidos contraditórios nos
rumos tomados do Céu e da Terra.
Em cena anterior, no mesmo ato,
Antônio José deixara claro que a vida é uma passagem: “em dor
começa e em dor acaba”.
Frei Gil,
personagem dramático e único sobrevivente da tragédia, “buscando
refúgio no seu remorso infinito”, é o exemplo vivo dessa dor
terrena. Seu apoio na vida virá daquele que vai morrer para a glória.
Antônio José
o perdoa para que Frei Gil possa crer na purgação de seu
arrependimento.
Por sua vez, é o drama de Frei
Gil que sustentará Antônio José em seu ânimo, empurrando-o à
certeza gloriosa do Céu.
Ao que fica na Terra cabe o
sofrimento com a dor do remorso.
A instância da felicidade reside na
morte, porta para o Paraíso:
Antônio José: E entre a
fumaça de meu corpo em cinzas,
Minha alma se erguerá com um aroma
Puro do sacrifício à Eternidade! ...
Recebei-a, Senhor! – Eia, partamos.
Adeus, masmorra! Oh! Mundo!
Adeus, oh sonho!
Fuga e morte. Remorso na fuga;
glória na morte.
Eis a contextura de uma
religiosidade paulina que se sobrepõe compondo todo um ideário
judaico-cristão.
Por conta disso, no drama de
Gonçalves de Magalhães predomina a tendência de estigmatizar com a
dor do sofrer na Terra a platéia da nova nação emergente, sociedade
em crise de transformações e plena de incertezas.
Tragédia das origens que ainda
contamina muitas obras da dramaturgia brasileira mais contemporânea,
ideologia presente em peças de um teatro pretensamente comprometido com
o destino libertário do “povo”, a quem seus autores e atores
parecem desejar servir.
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