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dois escritos
ontem
lau siqueira

poema para uma noite de pequenas chuvas
ainda que não chova nesta noite de passaredos
imensos e misteriosos seres cavalgando nas sombras
segurarei tuas mãos para construirmos juntos na
eternidade de um relâmpago uma canção de aparência
estática que perfure as algazarras cotidianas onde
somos todos estranhos como são estranhas as reses
no pasto com seus olhares mortificados em sonoros
silêncios de placidez imersa em algo de um corpo
etéreo montado sobre pedregulhos de cor alaranjada
e fractais impressos em literatura neolítica
ainda que as águas não caiam sobre os telhados
desta noite qualquer espalhada pela carcaça inicial
do terceiro milênio vamos mastigando nossos passos
ingerindo caminhos percorridos a um palmo
das cumeeiras de nudez e tradução futurista tal
uma criança aprendiz de hacker ou xamã
sabemos que o poeta sorverá seu próprio lodo em
razão de uma existência que acumula benzinas e outros
fluidos derramados na extensão do incêndio que se
alastra enquanto bêbados de sono tomamos o café das
manhãs de invernias mornas como um chá
em busca do verso livre
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a palavra insiste em ser livre
por isso transcrevo silêncios dos quais não
guardo memória
escrevo versos de indigência catalã ou virulência
bárbara que consumimos ao luar que se esconde
entre folhagens densas e extensões minimalistas
as cartilagens do que sonhamos
caem do telhado
como um inseto que desistiu de tudo
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