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Virgílio
e os cantadores
mauro mendes

Das razões de escrever este ensaio
“
Os mais antigos versos sertanejos eram as "quadras". Diziam-nos ‘verso
de quatro’. Subentendia-se ‘pés’, que, para o sertanejo, não é a
acentuação métrica, mas a linha”.
Câmara Cascudo. Vaqueiros e
Cantadores
Vivi boa parte
da infância no sertão cearense, nas cidades de Quixadá, Crato e Sobral,
e, assim, tive oportunidade de ver e ouvir os violeiros e cantadores da
minha terra. Lembro-me de que, nos dias de feira, eles chegavam, junto
com os tropeiros, no lombo de fogosas burras, onde traziam suas rabecas
e outras matulas. Eu não seria, hoje, capaz de descrever, com detalhes,
o clima daquelas cantorias (às quais meu pai, um sertanejo de Quixadá,
me levava), mas a elas fui, instantaneamente, transportado, quando,
muitos anos depois, ouvi Caetano Veloso cantando “Circuladô de Fulô”,
acompanhado pelo violoncelo do “cego tocadô” Jaques Morelenbaum.
Por esta mesma
época, tive também o primeiro contato com a literatura de cordel,
através daqueles livrinhos rudimentarmente impressos, que eram vendidos
nas feiras e mercados. No Crato, durante as festas da padroeira, Nossa
Senhora da Penha, tive o privilégio de ver Luiz Gonzaga, acompanhado por
zabumba e triângulo, cujas canções, divulgadas naqueles “bolachões” de
78 rpm, eu sabia de cor.
Aos doze anos,
minha vida mudou inteiramente, pois fui estudar num seminário, em
Fortaleza, o conhecido seminário do Barro Vermelho, onde fiquei muitos
anos. Foi a vez, então, de entrar em contato com a música clássica, a
música sacra, a literatura de língua portuguesa e também com as obras de
escritores e poetas latinos e franceses, entre os quais, naturalmente,
Virgílio. O convívio com estas diferentes formas de manifestação
artística me fez, já adulto, numa ampla síntese, confirmar, apreciar e
valorizar ainda mais aqueles que tinham sido meus primeiros paradigmas
de beleza: os cantores de música popular, os violeiros e os repentistas
do sertão!
Este ensaio é,
portanto, antes de tudo, um reencontro prazeroso com um passado que eu
considero muito rico. Tento, nele, demonstrar que os temas e cenários
que serviram de inspiração ao poeta latino Virgílio para escrever uma de
suas obras, As Bucólicas, são semelhantes aos encontrados em
muitas letras de canções nordestinas. Adicionalmente, mas não de menor
importância, este livro tem o objetivo de refutar os argumentos daqueles
que desprezam as letras de canções populares, a ponto de lhes negarem,
na totalidade, qualquer valor literário, sem falar no ridículo a que
tentam expô-las. Gustave Flaubert, com acerto, teria considerado que “a
tolice amena pode ser tolerada, mas não a tolice agressiva”.
Finalmente,
pretendo provocar uma reflexão a respeito de como pessoas cultas podem
chegar a conclusões tão diferentes a respeito de um mesmo substrato,
sendo o caso de se perguntar se a análise equilibrada de uma questão não
depende menos da falta de conhecimento do que da existência de
arraigados preconceitos.
1. Dos
primórdios de Virgílio
A vida do poeta
latino Virgílio (Publius Vergilius Maro, 70-19 a.C.) é cercada de muitas
lendas.
Uma delas conta que, por ocasião de umas festas (chamadas pelos romanos
de jogos — ludi), promovidas pelo imperador Augusto para divertir
o povo, chovia a noite toda, mas, durante o dia, o tempo ficava bom,
permitindo a sua continuidade. Virgílio, ainda desconhecido, escreveu,
então, na porta da entrada da cidade de Roma, o seguinte dístico: “Nocte
pluit tota, redeunt spectacula mane./ Divisum imperium cum Jove Caesar
habet”.
Sentindo-se
lisonjeado (os césares adoravam ser chamados de deuses), o imperador
procurou saber quem escrevera aqueles versos. Um certo Batilo
reivindicou a autoria e ganhou um prêmio. Inconformado, Virgílio, de
novo anonimamente, escreveu, debaixo dos versos anteriores, um outro
verso, seguido de quatro versos incompletos e repetidos:
Hos ego versículos feci, tulit alter
honores.
Sic vos non vobis
Sic vos non vobis
Sic vos non vobis
Sic vos non vobis
O imperador, já
desconfiado, a esta altura, do tal Batilo, promoveu, então, um concurso
para ver quem completava aqueles versos, o que, evidentemente, só
Virgílio conseguiu:
Hos ego versículos feci, tulit alter
honores.
Sic vos non vobis, nidificatis, aves!
Sic vos non vobis, vellera fertis, oves!
Sic vos non vobis, mellificatis, apes!
Sic vos non vobis, fertis aratra, boves.
Depois deste
episódio, Virgílio caiu nas graças do imperador Augusto e de Mecenas,
dos quais recebeu incentivo e apoio financeiro pelo resto da vida.
2. Das
razões de se contar a lenda
Ao escrever, há
mais de dois mil anos, alguns versos na porta da cidade de Roma, o
iniciante poeta Virgílio antecipou, de certo modo, os grafiteiros de
hoje... E vem-me à lembrança aquele grafitti “É Proibido
Proibir”, escrito igualmente por um anônimo, em um muro de Paris,
durante a chamada Revolução de Maio de 1968, que ficou famoso no mundo
inteiro e, depois, serviu de tema para uma canção homônima de Caetano
Veloso. A lenda também ilustra, de forma admirável, ainda que
embrionária, os diversos estratagemas aos quais um artista tem que
recorrer, em todas as épocas, para se tornar conhecido, para conseguir
um patrocinador, para, enfim, fazer sucesso. Como se sabe, as cidades
antigas eram terrivelmente sujas e, na maioria dos locais, caminhava-se
por entre excrementos de cavalos, bois, porcos e outros animais
domésticos. A porta da cidade de Roma não era uma exceção a esta regra.
No entanto, ao escrever ali alguns versos, Virgílio encontrou, no
momento, seu mais adequado espaço de divulgação, descobriu a sua melhor
mídia. De fato, poder-se-ia dizer, parodiando o poeta latino
Fedro que, às vezes, também se acham pérolas no esterquilínio...
Ah! Que
lembrança, de novo, daquelas fogosas burras, onde os cantadores traziam
amarradas suas violas e outras matulas, e que nem se pejavam de ir
andando pela cidade espalhando pra todos os lados as suas sujeiras!...
3. Virgílio
bucólico
Amigo, o campo é o ninho do poeta.
Deus fala, quando a turba está quieta,
Às campinas em flor
Castro Alves, “Sub tegmine fagi”
É um fato que a
primeira obra de Virgílio, As Bucólicas, foi escrita no campo, em
Mântua, sua cidade natal, onde o poeta possuía uma pequena propriedade.
Os estudiosos e críticos divergem apenas sobre se esta propriedade teria
ou não sido confiscada e, de qualquer modo, posteriormente devolvida,
quando o governo de Roma tomou e distribuiu entre os veteranos de guerra
vastas extensões de terra de muitas cidades do império.
O adjetivo
‘bucólico’ significa “pertencente ou relativo à vida e costumes do campo
e dos pastores; campestre; pastoril”.
Isto vem do fato de que os pastores em geral eram chamados bukolói
(do grego
boucoloi), nome que,
originalmente, se aplicava apenas aos pastores de bois, isto é, aos
antepassados dos nossos vaqueiros e boiadeiros. Já o termo ‘bucólicas’
(do grego
boucolica) designa poemas em
que figuram pastores e que representam e exaltam cenas e costumes de sua
vida simples. Em suma, os principais personagens de As Bucólicas
são pastores de cabras e ovelhas.
Virgílio foi o
primeiro poeta latino a escrever poemas bucólicos, inspirando-se na obra
Idílios, do poeta grego Teócrito, considerado o inventor do
gênero. Um grande estudioso da obra de Virgílio, F. Plessis
, teceu um
minucioso paralelo entre a obra dos dois poetas, valendo a pena resumir
alguns de seus comentários.
Segundo Plessis,
Teócrito utiliza expressões tanto eruditas quanto populares e não hesita
em adotar certas vulgaridades (trivialités) que incomodam a um
Virgílio mais refinado. Apesar disto, observa que mesmo os pastores de
Teócrito não são tão rústicos quanto deveriam. Embora os poemas
bucólicos dos dois poetas possuam o mesmo pano de fundo (a vida
pastoril), Plessis afirma que eles tiveram diferentes motivações para
escrevê-los. Teócrito procurou escrever poemas realistas, resultantes de
uma atenta, paciente e meticulosa observação dos pastores músicos e
cantores da Sicília. Virgílio escreveu seus poemas bucólicos a pedido de
Pollion, um de seus protetores, e, praticamente, “copiou” os pastores de
Teócrito, o que, no entanto, não o impediu de lhes imprimir a marca de
seu gênio. De fato, em As Bucólicas, já se pode vislumbrar o
poeta de A Eneida, sua obra-prima. A respeito disto, e em
resposta aos que consideram os poemas bucólicos de Virgílio inferiores
aos de Teócrito, Plessis chega a uma síntese surpreendente. Ele afirma
que seria tão injusto comparar os resultados estéticos conseguidos por
um e por outro quanto “[...] comparar pinturas de inspiração e intenção
diferentes pelo fato de terem sido colocadas em molduras iguais” e que
“[...] a moldura, que representa muito, quase tudo mesmo para a
retórica, significa pouco, quase nada para a literatura”, pois esta
se preocupa “[...] com a elaboração artística, com a cor do estilo e dos
versos, com as qualidades que dependem da personalidade do poeta muito
mais do que da moldura escolhida, que é uma questão secundária”
.
Este arguto
comentário de Plessis, embora escrito, evidentemente, noutro contexto,
não deixa, desde já, de nos remeter àqueles que, no tocante às
manifestações artísticas de cunho popular, não aceitam sequer a
“moldura” e, muito menos, se dispõem a analisar, com isenção, suas
possíveis qualidades estéticas.
4. Da métrica latina e outras
métricas...
Um poeta é sempre irmão do vento e
da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Cecília Meireles, “Discurso”
O leitor não familiarizado com a
poesia latina já deve, a esta altura, ter se perguntado o que havia de
extraordinário nos versos que, segundo a lenda, fizeram Virgílio cair
nas graças de Augusto e de Mecenas:
Chove a noite toda, de manhã
recomeçam os jogos.
Deste modo, César divide o poder com Júpiter.
Estes versos,
uma vez traduzidos, soam, na verdade, muito sem graça, são totalmente
desenxabidos, fato que merece alguns comentários.
A beleza da
poesia latina reside, sobretudo, na forma, ou seja, ela possui
características muito peculiares de ritmo, de vigor e de leveza, de
graça e de equilíbrio, que dependem da obediência a numerosas regras,
algumas das quais são resumidas, a seguir.
Há vários tipos
de versos, cada um contendo um determinado número de tipos de pés,
constituídos, por sua vez, de diferentes combinações de sílabas longas
(acentuadas) e breves (não acentuadas). Uma sílaba longa equivale a duas
sílabas breves, assim como, na música, uma mínima equivale a duas
semínimas.
A determinação
da quantidade de uma sílaba (longa ou breve) é feita, entre
outros critérios, com base na natureza da sílaba,
na posição da vogal e na terminação da
palavra.
Um ditongo é
longo por natureza. Uma vogal antes de outra vogal é breve, pelo
critério de posição, e é longa, também por posição, uma
vogal antes de “x” ou de “z” ou antes de duas consoantes, mesmo que a
segunda consoante não pertença à mesma palavra. A regra de terminação
da palavra é bastante variada. As vogais “a” e “e” finais são
breves, enquanto as vogais finais “i”, “o” e “u” são longas. Uma sílaba
final em consoante que não seja “s” é breve. Sílabas finais em “as”,
“es” e “os” são longas, enquanto as sílabas finais em “is” e “us” são
breves. Há, evidentemente, muitas exceções a estas regras.
Os pés de
versos latinos mais conhecidos são o dáctilo (uma sílaba longa seguida
de duas breves), o jambo (uma sílaba breve seguida de uma longa), o
troqueu (uma sílaba longa seguida de uma breve) e o espondeu (duas
sílabas longas).
O menor verso
latino, o adônico, é constituído de dois pés, sendo o primeiro,
obrigatoriamente, um dáctilo, e, o segundo, um troqueu ou espondeu, e
possui, portanto, cinco sílabas. Embora o número de sílabas dos versos
latinos seja, na maioria das vezes, inteiramente previsível, isto não
acontece, por exemplo, com um dos versos latinos mais utilizados, o
hexâmetro, como se mostra a seguir.
O verso
hexâmetro tem seis pés, podendo os quatro primeiros ser dáctilos ou
espondeus, o quinto pode ser um dáctilo (neste caso, o verso se chama
hexâmetro dactílico) ou um espondeu (neste caso, o verso se chama
hexâmetro espondaico), e o sexto é um espondeu ou troqueu. O hexâmetro
pode, portanto, ter um máximo de 17 sílabas, se os cinco primeiros pés
forem dáctilos, e um mínimo de 12 sílabas, se os cinco primeiros pés
forem espondeus.
Um outro
componente da métrica latina é a cesura (corte), definida como
uma pausa rítmica dentro do verso e que é responsável por grande parte
da sua beleza.
Como exemplos
de cesura e das possibilidades de variação do número de sílabas do verso
hexâmetro, seguem-se dois versos de Virgílio, onde as sílabas longas e
breves estão assinaladas e os pés separados por barras:
Exemplo
1: verso hexâmetro
dactílico de 16 sílabas
Jūpĭtĕr / ōmnĭpŏ/tēns, (cesura)
aū/dācĭbŭs/ ānnŭĕ / cæptĭs.
Exemplo 2:
verso hexâmetro dactílico de 13
sílabas, cujos quatro primeiros pés são espondeus
Sāxō/sās īn/tēr (cesura) dē/cūrrūnt/
flūmĭnǎ/
vāllēs
Alguns outros
aspectos da poesia latina merecem também um breve comentário.
O primeiro
aspecto é que não existe sílaba muda na poesia latina. A sílaba final de
um verso sempre conta para a métrica e pode ser considerada longa
ou breve, sendo, por isto, chamada de sílaba comum.
O segundo
aspecto é que os poetas clássicos latinos (assim como os gregos) não
conheciam a rima. Este recurso poético, originário da língua árabe, só
foi incorporado à poesia latina na Idade Média, como se pode observar em
um pequeno trecho do Dies Irae, um hino do século XIII, que era
cantado durante exéquias, na liturgia da Igreja Católica Romana:
Dies irae, dies
illa
Solvet sæclum in favilla
Teste David cum Sybilla
Quantus tremor est futurus
Quando judex est venturus
Cuncta stricte discussurus
O terceiro
aspecto é que os poetas clássicos latinos já faziam uso da licença
poética, por exemplo, quando utilizavam uma sílaba longa como breve (ou
vice-versa) para atender à métrica do verso.
Finalmente,
alguns versos latinos são, intencionalmente, incompletos,
denominando-se versos catalécticos aqueles que possuem uma sílaba a
menos e, dicatalécticos, os que têm duas sílabas a menos, uma no meio e
outra no final do verso. Os versos latinos incompletos equivalem, num
certo sentido, (“mutatis mutandis”), aos versos que, hoje, de forma
pejorativa, são chamados de versos de pé quebrado... Mas isto não é
ainda tudo: há também os versos hipercatalécticos, que têm uma
sílaba a mais do que o normal...
Os versos
latinos são, portanto, versos métricos e, de fato, na época
clássica, não poderia ser considerado poesia o que não fosse escrito de
acordo com as regras estabelecidas, que estavam, é claro, sujeitas a
modificações, à medida em que os poetas criavam novos paradigmas,
podendo-se, com rigor, falar de uma métrica de Horácio, de uma métrica
de Virgílio, de uma métrica de Ovídio, etc.. Só Horácio utilizou, em
suas odes, 24 tipos de versos, que, combinados, formam 19 tipos de
metros!
Em algum
momento, os versos se tornaram silábicos, devendo conter não mais um
determinado número de pés e, sim, um determinado número de sílabas. Em
outras palavras, o sistema quantitativo latino de versificação
foi substituído por um sistema qualitativo (silábico) e, desde
então, não se pode mais, a rigor, falar em métrica, na poesia de
língua portuguesa, e, muito menos, em “métrica silábica”...
Tomemos, como
exemplo, os seguintes versos:
As armas e os barões assinalados
(Camões, Os Lusíadas)
Vīrgĭnĭ/būs pŭĕ/rīsquĕ/ cāntŏ
(Horácio, Odes III, 1, 4)
O verso de
Camões é um decassílabo heróico, com acentos na sexta e na décima
sílabas, mas (sem falar na elisão “e + os”, pois a elisão também é
permitida na poesia latina), como a última sílaba é muda e não entra na
contagem, ele possui, na verdade, onze sílabas. Já o verso de Horácio é
um decassílabo formado por dois dáctilos seguidos de dois troqueus, onde
a sexta sílaba é breve (sem acento), a penúltima é longa
(com acento) e a última é breve, mas conta para a métrica, ou
seja, além das diferenças de acentuação, o verso de Horácio tem,
exatamente, dez sílabas.
Qualquer verso
de língua portuguesa (o decassílabo heróico foi utilizado acima só como
exemplo) é, portanto, apenas silábico, não podendo nunca ser
equivalente a qualquer verso latino metrificado com,
supostamente, o mesmo número de sílabas. Isto decorre do fato de que
a prosódia de língua portuguesa não define nem sílaba longa nem sílaba
breve, mas, somente, o que é sílaba acentuada (forte) ou não acentuada
(fraca). Contudo, na poesia latina, tanto uma sílaba não acentuada pode
ser longa quanto uma acentuada pode ser breve, e é isto que faz, também,
a diferença entre o sistema quantitativo e o sistema silábico...
É evidente que
a poesia assume diferentes formas, ao longo do tempo, ou seja,
diferentes convenções vão sendo adotadas. Depois dos versos
silábicos, vieram os versos brancos, os versos livres e tantos outros
tipos de manifestação poética, todos incorporando novos recursos (e
outros recursos sempre hão de vir) com os quais os poetas clássicos nem
sonhavam! É necessário, no entanto, estar atento a certas impropriedades
cometidas quando se fala de métrica, na poesia de língua portuguesa. Um
elogia a “métrica do poeta fulano” e outro a critica, ambos, contudo,
sem explicitarem em que consiste esta métrica... Um diz que a “métrica
do poeta beltrano tende ao octossílabo” e outro diz que há
regularidades rítmicas, sim, no verso livre, mas só quando ele é usado
pelos “verdadeiros poetas”, sem, contudo, especificar quais sejam estas
regularidades rítmicas nem o que seja um verdadeiro poeta... Um se dá o
direito de “policiar” os poetas, dizendo que tal ou qual palavra
utilizada é “apoética”, e um outro, finalmente, diz que o verso latino
tetrâmetro jâmbico é o “correspondente perfeito” do verso octossílabo
latino, pois 4 x 2 = 8 e aquele metro possui 4 pés de duas sílabas
cada!...
Em suma,
embora, no caso de versos silábicos, possa ser adequado, (tomando como
referencial outros aspectos), se falar em métrica, simplesmente não
existe o que se costuma chamar de “métrica silábica”. Com maior razão,
no caso de versos livres, à falta de padrões definidos, aquilo
que é chamado de “métrica do poeta fulano”, “métrica do poeta sicrano”,
etc., é uma questão inteiramente subjetiva, ou, de fato, esta “métrica”
não existe ou permanece para sempre irrevelável...
Podemos até
fazer um paralelo entre toda esta questão e os versos de Cecília
Meireles acima citados. O poeta “deixa seu ritmo por onde passa”. Vento
e água são símbolos de sua passagem e, de certo modo, suas
“matérias-primas... Vento e água são fluidos que se amoldam a qualquer
recipiente, a qualquer forma... Podem passar, de maneira tranqüila, por
qualquer ambiente, seguir um determinado curso, mas, muitas vezes,
também são capazes de levar tudo de roldão!...
...Já o poeta
sertanejo, que não é besta nem nada e nem chegado a teorizações, chama
logo suas quadras de “verso de quatro pés” e não dispensa uma rima, como
veremos mais adiante, pois já é tempo de retomarmos As Bucólicas
de Virgílio...
5. Algumas
cenas bucólicas
As atividades
pastoris, as paisagens campestres e a forte influência que o amor e os
entes mitológicos exercem sobre elas são os principais temas da poesia
bucólica. Apresenta-se, a seguir, uma comparação, do ponto de vista
temático, entre algumas passagens de As Bucólicas e algumas
formas de manifestação da cultura nordestina.
Cena Nº 1 de
As Bucólicas: debaixo de uma frondosa faia
A 1ª Bucólica
de Virgílio é o diálogo entre Melibeus e Títiro, dois pastores dos
arredores de Mântua, terra natal do poeta. No início do poema, Melibeus
lamenta o confisco de suas terras e sente inveja de Títiro, que tinha
conseguido conservar as suas, por um beneplácito do imperador.
Transcreve-se, abaixo, o início do poema, sendo que os dois primeiros
versos estão entre os mais famosos e conhecidos versos de Virgílio e a
expressão “sub tegmine fagi” é também o título de um poema de
Castro Alves:
Melibeus
Tityre, tu patulae
recubans sub tegmine fagi
Silvestrem tenui musam meditaris avena.
Nos patriae fines et dulcia linquimus arva,
Nos patriam fugimus. Tu, Tityre, lentus in umbra
Formosam resonare doces Amaryllida silvas.
Virgílio, 1ª Bucólica, 1-5
A expressão “sub
tegmine fagi” (debaixo de uma frondosa faia) se refere ao costume
que os pastores têm de, nas épocas quentes, se protegerem do sol,
debaixo das árvores, junto com os rebanhos, como comenta Plessis :
“[...] les pâtres, dans la saison chaude, menaient leurs troupeaux sous
les bois”.
Cena Nº 1 do
Nordeste: debaixo de um pau frondoso
Observem-se,
agora, os versos da canção popular “Reflexo”, gravada pelo Quinteto
Violado no seu primeiro disco, de mesmo nome
:
Meu patrão, quando eu morrer,
eu quero ser enterrado
debaixo de um pau frondoso,
no meio do seu cercado,
pra, nos dias de calor,
eu descansar mais o gado.
Quero ir todo encourado,
porque eu tenho vontade
de me juntar a São Jorge
no sertão da eternidade,
pra ganhar muito mais fama,
mais nome e celebridade.
O pedido feito
ao patrão não revela apenas que o vaqueiro nordestino também tem o
costume de descansar com o rebanho, debaixo de uma árvore frondosa, que
dá sombra e reconforta. Ele possui força e dramaticidade admiráveis,
pois é um desejo de ficar ali para sempre, o vaqueiro quer se perpetuar,
através do que já era a experiência de uma vida inteira, no quase sempre
seco e quente sertão!
Cena Nº 2 de
As Bucólicas: as disputas poéticas entre pastores
Enquanto
cuidavam dos rebanhos, os pastores costumavam promover disputas entre
si, para ver quem era o melhor na arte de cantar e fazer versos.
Plesssis,
sem nenhum preconceito, chama a este tipo de disputa de “concurso
poético” (concours poétique), o qual se realizava sob a
observação de um juiz. Iniciada a disputa, os dois rivais se alternavam
cantando estrofes, que deviam ter o mesmo número de versos, tendo o
segundo improvisador a obrigação de se manter dentro do tema proposto
pelo primeiro, quer o contradizendo, quer o enriquecendo com variações.
O primeiro improvisador (repentista) tanto podia se manter dentro de um
mesmo tema durante várias estrofes quanto podia mudá-lo, bruscamente,
criando, assim, maiores dificuldades para o segundo. Este tipo de
desafio era denominado canto “amebeu” (canto alternado).
A 3ª e a 7ª
Bucólicas de Virgílio são, na verdade, concursos poéticos entre
pastores. Transcrevem-se, abaixo, como exemplo, os cinco primeiros
versos da 7ª Bucólica, que servem de introdução à “peleja”, que,
adiante, no poema, se trava entre os pastores Córidon e Tírsis:
Forte sub arguta consederat ilice
Daphnis
Compulerantque greges Corydon et Thyrsis in unum,
Thyrsis oves, Corydon distentas lacte capellas,
Ambo florentes aetatibus, Arcades ambo,
Et cantare pares et respondere parati.
Virgílio, 7ª Bucólica, 1-5
O concurso
poético entre os dois pastores se dá entre os versos 21 e 68 da 7ª
Bucólica, onde se pode ver que eles se alternam seis vezes, em estrofes
de quatro versos (quadras). Dáfnis, escolhido como o juiz da disputa,
era também um pastor da região, ao qual, segundo Plessis, a idade e o
talento conferiam autoridade em matéria de poesia (“[...] à qui l’âge et
le talent donnent de l’autorité en matière de poésie”).
O adjetivo “árcades”, que Virgílio atribui aos dois pastores latinos (Arcades
ambo), é uma alusão ao reconhecido talento musical e poético dos
pastores da Arcádia, antiga região da Grécia, como comenta Plessis:
“[...] arcadiens non de naissance, mais par leur talent dans la musique
et dans la poésie champêtres”.
Virgílio diz
ainda: “Et certamen erat, Corydon cum Thyrside, magnum”.
(7ª Bucólica, 15)
No final,
Dáfnis considera Córidon vencedor do desafio.
Cena Nº 2 do
Nordeste: os desafios entre os cantadores do sertão
O relato acima
mostra que os desafios entre os repentistas do Nordeste são, em muito,
semelhantes aos que já ocorriam entre os pastores gregos e latinos que
serviram de inspiração a Teócrito e Virgílio. Há inúmeros registros de
pelejas entre cantadores nordestinos. Eles porfiavam durante muitas
horas, cada um tentando superar o outro em invenção e improviso, tecendo
armadilhas de todo tipo, até que um fosse considerado vencido. Uma das
pelejas mais famosas foi a que envolveu o Cego Aderaldo, famoso
repentista cearense, e o não menos famoso cantador piauiense, Zé
Pretinho do Tucum. Transcrevo, a seguir, o final desta cantoria, com
base nas referências bibliográficas 3, 4, 5 e 8.
Após horas de
desafio, Zé Pretinho pede para o cego mudar o tema, cantando esta
sextilha:
Cego, agora me puxa uma
Das tuas belas toadas
Para ver se estas moças
Dão algumas gargalhadas
Quase todo mundo ri
Só elas estão caladas
A resposta foi
mais rápida do que esperava o desafiante:
Amigo José Pretinho
Não sei que hei de cantá
Só sei que depois da luta
O Senhor vencido está
Quem a paca cara compra
Cara a paca pagará.
Zé Pretinho se
atrapalhou com o final da sextilha de Aderaldo e pediu duas vezes ao
oponente para “repetir a paca”. Disto se aproveitou Aderaldo para vencer
a contenda, pois, a cada vez que repetia o tema, trocava, habilmente, a
ordem das palavras ou das frases (“Paca cara pagará/ quem a paca cara
compra” e “Quem a paca cara compra/ Pagará a paca cara”), impedindo a
resposta de Zé Pretinho.
Cena Nº 3 de
As Bucólicas: o amor que faz a terra seca revivescer
Na Cena Nº 2,
acima, mostrou-se que a 3ª e a 7ª Bucólicas de Virgílio são, na verdade,
desafios entre músicos repentistas. Analisa-se, a seguir, uma quadra que
faz parte da peleja que ocorreu entre os pastores Córidon e Tírsis:
TÍRSIS
Aret ager; vitio
moriens sitit aeris herba;
Liber pampineas invidit collibus umbras;
Phyllidis adventu nostrae nemus omne virebit;
Juppiter et laeto descendet plurimus imbri.
Virgílio, 7ª Bucólica, 57-60
A estrofe
evidencia a forte influência que, conforme já observado acima, o amor e
a mitologia exercem sobre a poesia bucólica. Baco está negando às
colinas a sombra benfazeja das ramas de videira, as quais, sendo ele o
deus do vinho, estão sob seu controle. Mas tudo será reparado por
Júpiter, deus dos deuses, controlador também dos fenômenos climáticos.
Devido ao caráter panteístico da religião romana, Júpiter se confunde
mesmo no poema com a própria chuva, que descerá, do céu, abundante. (Juppiter
descendet). Os bosques, onde, “nos dias de calor”, os pastores
costumam “descansar mais o gado”, reverdescerão, e tudo isto acontecerá,
como diz Tírsis, com a chegada de sua amada Fílis (Phyllidis adventu).
Cena Nº 3 do
Nordeste: o verde dos olhos de Rosinha
Transcreve-se,
abaixo, a letra da conhecida canção “Asa Branca “
Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai!
Por que tamanha judiação?
Que braseiro, que fornalha!
Nem um pé de plantação!
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão.
Até mesmo a asa branca
Bateu asa do sertão
Entonce eu disse, adeus Rosinha,
Guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva caí de novo
Prá mim vortá pro meu sertão
Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação,
Eu te asseguro, num chore não, viu?
Que eu voltarei, viu, meu coração.
É o mesmo
cenário de terra arrasada descrito em As Bucólicas. É o mesmo
“Deus do céu”, que tudo poderia resolver, mas se compraz em submeter o
sertanejo a tanto sofrimento, a tanta judiação. O sertanejo / pastor /
boiadeiro foi embora, virou retirante, mas ele sabe que, um dia, vai
voltar, pois sua amada Rosinha / Fílis tem o poder de espalhar o verde
dos seus olhos na plantação, de fazer reviver a terra esturricada do
sertão!
6. Onde se discutem alguns
argumentos contra as letras de canções populares
Nesta parte,
analiso e discuto alguns argumentos contra as letras de canções
populares. É imprescindível esclarecer que me restrinjo, neste ensaio,
às opiniões do poeta Bruno Tolentino pelo fato de ele ser, na
atualidade, não só o representante mais em evidência de uma certa
corrente de pensamento que nega às canções populares qualquer valor
poético, mas, também, o mais radical, como se pode inferir, desde já,
desta sua afirmativa: “A partir de um certo nível expressivo, as
fronteiras entre poesia e prosa cedem; entre poema escrito e texto
cantado jamais”.
6.1. Texto
de poema x Letra de canção
Em seu livro
A Balada do Cárcere,
o poeta Bruno Tolentino (de agora em diante, por simplificação,
designado apenas como BT) assim inicia o texto introdutório intitulado
Da Quod Jubes, Domine:
Jamais, como na experiência do
cárcere, me aparecera tão nítida a natureza da diferença, da distância
expressiva entre o texto de um poema e as palavras de uma canção
(o grifo é meu), seja esta de cunho popular ou erudito
A “diferença” e
“a distância expressiva” às quais BT alude existem, de fato, e são
amplamente reconhecidas. Por exemplo, Charles Perrone, em seu livro
Letras e Letras da MPB
, assim se
expressa sobre a questão: “As letras de canção são destinadas à
transmissão oral num contexto musical”. Diz ainda: “A poesia da canção e
a poesia destinada à leitura possuem origens históricas comuns e mantêm
muitas afinidades, mas não são exatamente iguais. O reconhecimento das
diferenças fundamentais entre o verso escrito e o verso destinado à
execução musical é um pré-requisito indispensável para uma discussão
entre as duas formas”. E acrescenta: “Sem deixar de lado as distinções
necessárias, existem diversos modos pelos quais um texto musical pode
ser tratado como uma unidade literária”.
BT reconhece a
existência desta diferença e também a dificuldade que, muitas vezes,
existe, de estabelecê-la (“[...] nunca me aparecera tão nítida”)
), mas,
logo na seqüência, como não querendo admitir a complexidade da questão,
resolve radicalizar, dizendo que poema tem texto e letra de
canção tem palavras. Tal afirmativa, segundo artigo dele mesmo,
decorre do fato de que “[...] os franceses chamam suas letras [as letras
de canções] de paroles (palavras) e não de vers (versos)”.
Uma simples consulta ao dicionário francês Larousse mostra que tal
afirmativa é completamente equivocada e tendenciosa. Segundo o Larousse,
o termo parole, quando usado no plural, significa texto de
canção e exemplifica: fazer a música e a letra de uma canção (“Au
pluriel: texte d’une chanson: faire la musique et les paroles”).
Ficamos, assim, sabendo que, para os franceses, canção também tem
texto...
O preconceito
de BT contra as letras de canção é tal que ele não se contenta em lhes
negar qualquer valor poético, tentando também tirar delas até o status
de texto! Ao distorcer e falsear a própria fonte em que diz se basear,
BT induz o leitor menos avisado a concluir que os franceses menosprezam
as letras de canção e as relegam a um plano inferior. Por outro lado,
insinua que todas as letras de canções não passam de um amontoado de
palavras sem nexo.
Em suma, o
termo paroles é, simplesmente, sinônimo de letra, é o
termo que os franceses usam, sem nenhuma conotação pejorativa, para
designar letra de canção, assim como os americanos usam o termo words
para designar a mesma coisa. Por outro lado, o termo words é
também sinônimo de lyrics, ou seja, expressa o fato sobejamente
conhecido e trivial, repetido à exaustão em qualquer compêndio sobre o
assunto, de que, na Antiguidade, a expressão “poesia lírica” designava
poemas feitos para serem cantados ao som da lira. Mas julgo necessário
dar, aqui, um exemplo mais marcante da boa convivência milenar entre
poesia e música. O conhecido poema Carmen saeculare foi escrito
pelo poeta latino Horácio, no ano 17 A.C., a pedido do imperador
Augusto, para ser cantado por um coral, durante festividades cívicas de
passagem de século denominadas Jogos Seculares. Ou seja: o Carmen
Saeculare nada mais é do que um hino
, com letra
de Horácio e música de autor desconhecido. Ficamos, assim, sabendo, ao
contrário do que afirma BT, que textos de canções também podem ter
versos...
É um fato
também sobejamente conhecido e trivial que a poesia cantada precedeu a
poesia destinada exclusivamente à leitura, não cabendo, aqui, discutir
como, quando e porque houve a predominância de um ou outro destes
fenômenos. Perrone, na obra já citada diz: “Toda a poesia da Idade Média
era cantada. Compêndios das literaturas européias geralmente dão conta
de que a arte músico-poética dos trovadores provençais e dos
trouvères do norte da França foram as primeiras manifestações da
poesia lírica”.
Concluindo esta
análise (e para não perder o mote...), o poeta francês Jacques Prévert
(1900-1977) publicou, em 1949, um livro de poemas cujo título é,
exatamente, Paroles.
A escolha
do título do livro foi proposital e Prévert não poderia ter sido mais
feliz. Sua obra como um todo é um extraordinário exemplo de utilização
poética da linguagem popular, pois ele partia do pressuposto de que sua
poesia seria tanto mais viva e duradoura quanto mais se servisse da
linguagem de seus contemporâneos. Ao chamar seus poemas de “paroles”,
Prévert, didaticamente, não deixou também de questionar aqueles que
tentam estabelecer um rígido divisor entre textos de poemas e textos de
canções.
6.2. Da
grandiosidade dos negro spirituals
O texto de BT
Da Quod Jubes, Domine assim continua:
E, malgrado a grandiosidade dos
negro spirituals, por exemplo, mantenho que só a poesia, a
linguagem profunda de uma raça, tem a amplitude de meios capazes de dar
à complexidade da condição humana aquela dimensão de verticalidade
correspondente às grandes perplexidades da alma.
Observe-se,
inicialmente, que, ao escrever “a grandiosidade dos negro
spirituals, por exemplo”, BT admite que outros tipos de canção
também possam ter a mesma grandiosidade. Admite, então, necessariamente,
a grandiosidade também de suas words, de suas paroles,
pois, sendo uma canção constituída de música e letra, é impossível
admitir a grandiosidade de uma e negar totalmente a da outra, e
vice-versa. É, igualmente, evidente que uma letra de música só pode ser
julgada grandiosa pelos critérios de forma e conteúdo poéticos e não por
um outro critério qualquer subjetivo ou de pura condescendência. Ao
negar, então, que os negro spirituals possam ser a
linguagem profunda de uma raça, BT subverte a lógica para manter o
preconceito.
É impossível
analisar, aqui, todos os argumentos expressos por BT no livro A
Balada do Cárcere e nos veículos de comunicação. De maneira geral,
ele acha que a música, de alguma forma, “contamina” o texto poético,
como se pode depreender desta sua afirmativa:
A questão não é se o texto é “culto”
ou não. O problema não está no nível de fatura estética, mas na natureza
da linguagem quando utilizada como mero esteio ou “recheio” de uma forma
alheia ao discurso verbal.
A afirmativa
acima é extremamente infeliz ao considerar que a forma musical é alheia
ao discurso verbal, no sentido de que “não tem nada a ver com”, de que é
“estranha” a este discurso. Como já se comentou, a poesia e a música
sempre andaram de mãos dadas, o homem sempre teve necessidade de cantar,
de “falar com música”. Por outro lado, pode-se dizer que há não um
desconhecimento mas a falta de uma melhor análise, por parte de BT, dos
diferentes processos pelos quais um texto e uma música se associam para
formar uma canção, e caímos, de novo, na necessidade de ter que
‘explicar’ o óbvio. Uma letra não é, necessariamente, apenas um “esteio”
ou “recheio” da música, isto é, nem sempre
é escrita após
a composição da música. Há textos que são escritos separadamente, embora
com a intenção de serem, posteriormente, musicados, há letras e músicas
que vão surgindo simultaneamente e, finalmente, há textos que foram
escritos sem nenhuma intenção de serem musicados. Cabe perguntar: e o
poema de Drumonnd “E agora, José?”, perde suas qualidades poéticas pelo
fato de, posteriormente, ter sido musicado? E o que dizer de “Morte e
Vida Severina”, de João Cabral, que Chico Buarque, depois, musicou? Há
inúmeros exemplos. Pode-se concluir que a qualidade literária de um
texto poético não depende, essencialmente, de ele estar ou não ligado a
uma música. Sempre houve e haverá pessoas com habilidade para fazer
versos, outras com habilidade para fazer música, outras com habilidade
para fazer tanto versos quanto música e outras, enfim, sem nenhuma
habilidade para uma coisa ou outra. E isto também vale para quem escreve
poemas destinados apenas ao papel...
Considero que
os negro spirituals (e outras manifestações culturais
semelhantes) são grandiosos, “num dado momento”, seja pela predominância
da qualidade da letra, seja pela predominância da qualidade da música,
seja, em outro momento, pela feliz associação de letra e música de alta
qualidade. Neste sentido, podem muito bem ser a linguagem profunda de
uma raça!
6.3 De
cantadores, seus males e alguns suspiros...
Segundo BT, em
Da quod jubes, Domine, a poesia é uma coisa rara, “[...] é a
última operação do espírito” e esta raridade “[...] passa pela
dificuldade do acesso àquela linguagem cuja decantação individual nasce
de uma reconquista de valores acumulados pela tradição expressiva de uma
raça”. Parece claro, neste contexto, que “tradição expressiva de uma
raça” quer dizer “cultura”, no sentido de conjunto das
manifestações intelectuais e artísticas de um povo, pois, logo a seguir,
BT afirma: “[...]. Uma cultura nunca é nem mais nem menos que um celeiro
vivo, sem cujos grãos acumulados não há esforço de expressão pessoal que
consiga produzir a antemanhã de uma nova e verdadeira colheita”. Mais
adiante, com muita propriedade, afirma: “[...]. Assim como a criança não
aprende a falar senão a partir daquilo que ouve, o adulto que se
defronta com o desafio da arte da escrita não tem como aprender a
expressar-se em qualquer coisa como um canto pessoal senão a partir
daquilo que já houve”. Depois de um outro trecho que será
discutido, mais adiante, BT raciocina que: “[...]. Aqui é o poeta que
resume a raça, é ele que a afirma e a canta, onde o mero cantador
simplesmente seus males espanta”.
Quem seria
capaz de negar que a arte dos cantadores e, por extensão, as canções
populares são, precisamente, uma parte desta mesma “tradição expressiva”
à qual BT alude? Quem seria capaz de negar que a arte dos cantadores é,
exatamente, uma parte dos “grãos” desta cultura, que é “um
celeiro vivo”, na própria expressão de BT? A afirmativa “o mero cantador
simplesmente seus males espanta” é, portanto, não apenas mais um exemplo
do desprezo votado por BT à arte de caráter popular. É, sobretudo, um
exemplo notável de como alguém pode tirar conclusões falsas a partir de
premissas verdadeiras e, o que é pior, a partir de suas próprias
premissas. Não deixa de ser interessante observar ainda que BT justapõe
“arte da escrita” a “[...] expressar-se como um canto pessoal”
e diz que o poeta canta a raça. Não teriam estas
afirmativas, de forma implícita, algo a ver com o conhecido pensamento
de Walter Pater, segundo o qual “[...] toda forma de arte aspira,
constantemente, à condição de música?”
(“All art constantly
aspires to the condition of music”).
BT diz ainda,
em Da quod jubes, Domine:
[...]. E assim como um certo lirismo
singelo, feito de levezas e doçuras decorrentes de sensações imediatas e
dirigidas a reações por assim dizer epidérmicas pode muito bem exprimir
a sensibilidade típica de um povo a um dado momento – na mesma medida é
igualmente incapaz de sustentar efetivamente a inteireza do ser nos
graves momentos de ascensão ou descida da alma humana.
Como se isto
fosse coisa de pouca monta! Como se não fosse admirável o lirismo que
consegue “exprimir a sensibilidade típica de um povo”, isto é, a
sensibilidade característica, genuína e verdadeira deste povo! Por isto,
BT trata logo de dizer que este lirismo é “singelo”, “feito de levezas e
doçuras” e capaz de provocar apenas “reações epidérmicas”, ou seja, este
lirismo seria meramente superficial, do ponto de vista estético. Na
verdade, BT é que se define como puramente cerebral, quando diz: “Talvez
seja que a simples emoção conduz ao canto; [...] a emoção pensada
(o grifo é meu) compele à operação de poesia”.
Além do mais, “sensibilidade típica de um povo” diz respeito a um
fenômeno multifacetado e complexo, que inclui todas as formas utilizadas
por este mesmo povo para manifestar uma vasta gama de sentimentos,
inclusive, utilizando uma expressão do próprio BT, para “[...] definir
seu lugar e sua posição ante o real, o bem, o mal, a vida e a morte”.
Desta perspectiva, é impossível atribuir a qualquer forma de
manifestação artística uma primazia sobre as demais, como BT tenta fazer
em relação ao poema destinado unicamente à leitura.
É difícil
entender de todo porque Bruno Tolentino transformou A Balada do
Cárcere, um livro de grande qualidade poética, em uma espécie de
libelo contra as letras de canções populares. Este caráter panfletário é
evidente no texto Da quod jubes, Domine (uma parte muito pequena
do qual foi comentada acima e onde o poeta relata sua experiência no
cárcere), e, sobretudo, nas entrevistas colocadas como apêndices ao
livro, mas pode ser percebido também nos dois últimos versos do poema “A
Gralha”: “Se um tom assim te irrita / leitor, fecha este livro e vai
ouvir canções...”
Sim! Já sei o
que irei ouvir. É o próprio poeta quem dá a dica, pois, como,
freqüentemente, acontece, o feitiço vira contra o feiticeiro e BT acaba
não resistindo a alguns momentos de “Oh! Jardineira, por que estás tão
triste?”, quando, no poema “Il Sospiroso”
, relembra
“a camélia que caiu do galho”. Com direito a suspiros e tudo!...
7. Onde Virgílio conversa com
alguns matutos e, depois, entra em peleja com um famoso cantador...
Êêêêêê! Boi incantado e aruá!
Ê, boi! Quem havera de pegá!
(Elomar, "Cantiga do boi incantado")
Imaginemos, um dia,
quando o sol já vem subindo,
Virgílio se encontrando
com uns matutos que vêm vindo
para a feira do lugar...
Eles vêm de muito longe,
bem pra lá daquela serra,
eles costumam andar
dezessete légua e meia
pra ir num forró dançar...
E, no meio do estradar,
Virgílio, extenuado,
a todos convidaria
para, um pouco, descansar
desta légua tão tirana,
sentir o cheiro da imburana,
à sombra da barriguda
ou de um pé de cambucá...
Com certeza, lhes diria:
-Me contem dos boiadeiros,
esta gente valorosa,
de quem tanto ouvi falar!
E um matuto mais arteiro,
destes sem papas na língua,
logo iria retrucar:
- Me adescurpe, seu moço,
num quero lhe ofendê,
num sei donde é vosmecê,
posso inté me inganá,
mas acho qui nunca vêi
por estas banda de cá!
São tantos os boiadêro
qui reinam neste sertão,
qui falano o dia intêro
num nomêo todos não.
Tem João Silva lá de Contas,
Antenoro do Gavião,
Bragada lá das Trêis Ponta,
Tiquiano do Rumão,
nem qui fale o dia intero
num menajo todos não.
E tem Rêimundo Jacó,
qui foi morto à traição,
lá dentro destes grotão,
foi coisa de fazê dó!
Todo ano os boiadêro
daqui desta região
se arreúne ao pé do altá
pra rezá por sua alma,
pru seus feito ixaltá,
pra intuá o mesmo aboio,
as mesma cantiga triste
qui ele cantô no sertão...
Nem qui fale o dia intêro
num nomêo todos não...
E Virgílio,
insistente:
- Então fale dos violeiros
e também dos arrieiros,
comboieiros e tropeiros,
que andam por este mundo,
por tudo quanto é lugar,
vendendo a toda gente
quase tudo quanto há!
E o matuto,
renitente:
- Num me farei de rogado,
mas o causo indicado
é inda mais compricado!
De cada vinte tropêro,
dezenove é violêro!
Quando vem caindo o dia,
se arrancham à beira da estrada,
passam a noite em cantoria,
é tudo gente inspirada,
cantadô de arrilia!...
E Virgílio,
persistente:
- Tudo o que o senhor disse
é a mais pura verdade,
ninguém pode negar não,
mas, ao menos de um violeiro,
eu queria ouvir falar:
me conte de Elomar,
este poeta afamado
das barrancas do Gavião!
E o matuto,
escolado, responde, com precisão:
- Mais famoso que Elomar
é aquele boi incantado,
aquele boi marruá!
Vosmecê talvez num saiba,
ele tem parte cum cão!
Já juntáro os boiadêro
mais valente do sertão
e niúm deles deu conta,
num pegáro ele não!
Mas seu Virgílio, adescurpe,
num quero sê discortêis,
num atraze mais a gente,
vâmo no exato momento
cair na estrada outra vez!
Já joguemo cunversa fora,
o qui é bom num se demora,
o qui cai bate no chão,
lá na feira ouviremo,
os cantadô do sertão...
E se aceita a cortesia,
eu lhe servirei de guia.
Virgílio e os
sertanejos chegam, enfim, à cidade. A feira está no auge, é aquele
rebuliço, pregões de tudo que é tipo, gente pra tudo que é lado, andando
entre barracas de frutas e de verduras, entre patos e galinhas, pulando
os caçuás, passando por entre bois, bodes cavalos e ovelhas (“Isto me
lembra a porta da entrada de Roma”, diz Virgílio com seus botões...).
E, lá num canto
da feira, um violeiro entoa:
- Eu venho desde minino
desde muito piquinino
cumprino o belo distino
qui me deu Nosso Sinhô!
Eu nasci pra sê vaquêro
sô o mais filiz brasilêro
eu num invejo dinhêro
nem diproma de dotô!
Ao ouvir tal
cantoria, Virgílio, imediatamente, começa a caminhar na direção do
violeiro, que emenda nesta toada:
- Deus vos salve, meus sinhores,
to inté cantando bem,
mas agora me convém
mudar o meu istribilho,
vô fazê um disafio:
Dizei-me assim de repente
se este qui se aproxima
se este qui aí vem
depois de horas a fio
num é o poeta Virgílio?
Surpreso com a
tirada, Virgílio pergunta ao matuto que se ofereceu de guia:
- Quem é este cantador, que não só
divide os pés com elegância e maestria, mas, de quebra, ainda consegue,
de maneira surpreendente, fazer o final de um verso coincidir muito bem
com aquele que vem na frente?
O matuto
entusiasmado, por saber que está ao lado de um personagem afamado, trata
logo de dizer:
- O cantadô qui lhe incanta
é o nosso mui conhecido
Pintassilgo do Assaré,
um dos maiores poeta
qui véve na região,
digo, assino e dô fé!
E quanto ao causo da rima,
num fique avexado não,
logo logo ele vai dá
alguma ispilicação.
E, como se,
mesmo de longe e apesar do rebuliço, tivesse ouvido o cochicho, o
cantador continua:
- Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra num ficá paricido
Cum a fulô sem perfume.
A poesia sem rima
Bastante me disanima
E alegria num me dá;
Num tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.
Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta
Calado eu num vô ficá:
- Sem rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Num merece muita palma
É como o corpo sem alma
O coração sem amô!
Virgílio:
- Senhor poeta cearense,
eu venho da Roma antiga,
que, em todo o mundo, tem fama,
que toda gente proclama
como a cidade eterna,
para ouvir sua cantiga.
Também exaltei, na poesia,
as belezas de minha terra,
a vida simples do campo,
os costumes dos cabreiros
e também dos boiadeiros.
Se o senhor me perguntar
se eu faço versos com rima,
longe de mim enganar,
coisa que não me convém.
Eu escrevo versos com pés,
nisto sempre me dei bem.
Fazer os versos rimar
nunca foi o meu ofício,
mas, ouvindo o seu cantar,
acho que não é difícil!
E o cantador,
folgazão:
- Seu Virgílio, qui beleza!
Vosmicê se saiu bem
E com muita perfeição!
Seus verso têm natureza,
Não há do qui reclamá,
Quero aqui lhe louvá!
Mas descurpe a impertinência,
Vou agora perguntá
Apruveitano a ocorrência
Se o poeta tem coraje
De encará um repente,
No meio de toda gente,
De enfrentá os violêro,
Estes cantadô valente
Qui se embolam frente a frente
E sem nem pestanejar
Versejam rapidamente
Mais depressa do que o raio,
Igual ao relampeá!
Virgílio:
- Nobre cantador cearense,
agradeço o elogio,
porém o senhor não pense
que eu fujo de um desafio!
Também quero lhe dizer,
tenho que admitir,
o senhor sabe umas coisas
muito melhor do que eu,
mas eu também sei usar
os dotes que Deus me deu:
- Dou-lhe uma, dou-lhe duas,
quero que responda, agora,
se é capaz de cantar
no nosso modo amebeu
Já fiz versos deste jeito
Que o mundo reconheceu,
É um modo de minha terra,
Que muita beleza encerra,
Nele, há muito, já cantava,
O cabreiro Melibeu!
E o cantador,
esperto:
- Sinhô poeta rumano,
me considerá vencido
neste ou noutro disafio,
nunca esteve nos meus prano,
durante todo estes ano!
Mas devo reconhecê
Qui nunca ouvi falá
Deste tá de Melibeu.
E uma coisa me diz,
É apenas um parpite,
Por isto vô arriscá:
Este canto amebeu
Num deve sê diferente
Do qui tâmo aqui cantano
Tanto vosmecê e eu!
E voltando ao istribilho
Peço uma sarva de palma
Para o poeta Virgílio!
8. Um cordel
para Xerxes
[...]Lança-te para cima,
tornar-te-ás matéria de liberdade!
Gaston Bachelard, L’air
et les songes.
Quando vieram
dizer a Xerxes, rei dos persas, que o exército inimigo era tão numeroso
que suas setas iriam encobrir a luz do sol, ele, simplesmente,
respondeu: “- Tanto melhor! Combateremos à sombra!”.
Esta batalha de
Xerxes bem que merecia um cordel!
Situação
totalmente inversa à de Xerxes vive a poesia popular, quando, fugindo da
perseguição de um Conde raivoso e de seus asseclas, ouve, pela boca do
Pavão Mysteriozo:
- Não temas, minha donzela,
nossa sorte nesta guerra:
eles são muitos, mas não sabem voar!
De certo modo,
Mário Pontes sinaliza também nesta direção, quando assim se expressa
sobre a poesia de cordel:
É a poesia do movimento, da viagem,
do vôo. Poesia da imaginação sem travas e sem fronteiras. Poesia da
liberdade, apesar de tudo que se opõe à liberdade. Presa pelas cadeias
da cegueira, da pobreza, do analfabetismo, das superstições, dos
preconceitos – é certo – mas não a um rochedo imóvel e sem vida, e, sim,
a um cavalo fogoso, cuja marcha normal é o galope e cujo roteiro é o
altíssimo Caminho de São Tiago.
Nos versos de
certos poetas brasileiros que, com empáfia, se auto-intitulam
representantes da raça, só se encontram Medusas, Acteons, Ariadnes,
Teseus, Parcas, Carontes, Eros e Psiquês... Mas que raça, então,
representam? Eu queria encontrar, nos seus versos, também um Saci-pererê,
ou um Lobisomem, ou uma Mãe-d’água ou uma Mula-sem-cabeça. Ou um simples
fogo-pagou, como na estrada de Canindé, onde o rico anda em burrico e o
pobre anda a pé, mas pode ver, de perto, “o orváio beijando as frô” e o
galo-campina, que, quando canta, muda de cor.
Não deixa
também de se aplicar a estes poetas o que Ferreira Gullar disse a
respeito da sua (dele) poesia:
E a história humana não se desenrola
apenas nos campos de batalha e nos gabinetes presidenciais. Ela se
desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de
subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas
usinas, nos namoros de esquinas. Disto eu quis fazer a minha poesia.
Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada,
porque o canto não pode ser uma traição à vida e só é justo cantar se o
nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz.
Gostaria de ver
estes “representantes da raça” assistindo, contritos, à Missa do
Vaqueiro, onde, com certeza, ouviriam um “Pai, perdoai-lhes, pois não
sabem o que dizem”. Mas é uma vã ilusão esperar isto e só me resta
dizer, com o poeta Belchior: “Eu quero é que este canto torto, feito
faca, corte a carne de vocês!”
Oh! Que saudades que eu tenho
Das burrinhas cagadoiras,
Que entravam pela cidade
Fazendo tanta sujeira,
Mas traziam no seu lombo
Os cantadores da feira!
Salvador, 03/05/2005
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