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A estética do engajamento:
uma análise empírica
gilson motta e tânia alice feix

Esse artigo
propõe uma reflexão sobre a estética teatral
contemporânea a partir de cinco espetáculos apresentados no
Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana em julho de 2006,
partindo da questão do engajamento do artista no seu trabalho teatral.
Elegemos esse Festival para nossa análise, pois julgamos que os
festivais propiciam a visualização de um panorama geral das tendências
artísticas atuais. No caso do evento de Ouro Preto, tivemos a
oportunidade de acompanhar de perto a formação deste panorama, já que
atuamos como Curadores do setor de Artes Cênicas. A partir da análise
dos diferentes espetáculos apresentados, buscaremos entender quais
seriam as tendências em termos de engajamento teatral na cena
pós-moderna. Os cinco espetáculos escolhidos oferecem um panorama das
diferentes formas com a qual o encenador contemporâneo lida com a
questão do seu papel social. Nesse sentido, observamos que o espaço se
revela significativo para determinar a forma desse posicionamento.
A questão do engajamento do artista
se tornou uma das interrogações do teatro contemporâneo, como o
demonstra a temática do Encontro Mundial de Artes Cênicas (ECUM) de Belo
Horizonte em 2006, O Teatro em tempos de Guerra. Lyotard
analisa de que forma a sociedade pós-moderna e seus contextos de
informação e comunicação geram a necessidade de elaborar novas formas de
comunicação. Ele aponta para a importância da existência de uma
contracultura, de um contra-pensamento, que não seja utilitário,
funcional, subordinado aos meios e fins ou da produtividade ou do
marxismo – sendo essas, segundo Lyotard, as duas correntes de pensamento
dominantes do séc. XX. Nesse contexto, e conforme a máxima tão conhecida
de Deleuze, “resistir é criar”, a questão do engajamento se coloca com
força na criação teatral contemporânea. Conforme as teorias do
intelectual situacionista Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, tudo o que era vivido antes se afastou para tornar-se uma
representação, gerando o sentimento da impossibilidade de o ser humano
interferir e modificar o desenvolvimento da História, inclusive da sua
própria história, sendo isso o primeiro passo para a passividade
pós-moderna. Embora relativize esse posicionamento em Les temps
hyper-modernes,
Lipovetsky não deixa de reforçar a legitimidade da falta de engajamento
que se percebe assistindo a certas encenações contemporâneas e que gera
o que Jimenez chama de “crise da arte contemporânea”,
conseqüência dos trabalhos artísticos que buscam uma expressão romântica
do “eu”, sem se preocupar em buscar uma forma de comunicação com a
platéia – crise acentuada, segundo Jimenez, pela lacuna da crítica na
explicação do que fundamenta a criação contemporânea. Tanto é que, como
forma de contraponto a essa falta de engajamento, muitas Companhias e
grupos teatrais baseiam seus trabalhos na questão social através de
encenações feitas na periferia ou em comunidades carentes, como, por
exemplo, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos (SP) ou Nós do Morro (RJ).
Porém, fora dessa perspectiva de engajamento direto, percebemos que na
atualidade, há outros modos de o artista afirmar o seu papel ético e
político.
Em O Assalto, texto de José
Vicente, direção de Marcelo Drummond, nota-se uma tensão entre o
posicionamento político proposto pelo texto e a linguagem da encenação.
Por ser localizado originalmente no contexto onde a relação humana passa
a ser submetida mais intensamente ainda aos imperativos do mercado
liberal, o texto ressalta a crueldade e o interesse que domina as
relações humanas através do confronto entre um bancário e um faxineiro,
afirmando-se como um protesto contra o capitalismo. Encenado
originalmente no mezanino do Teatro Oficina, O Assalto foi
adaptado para um espaço tradicional. O confinamento original cedeu lugar
a um espaço aberto, numa cenografia minimalista. Aludindo a uma
instituição bancária, os elementos cenográficos adquirem função
metonímica. Na encenação, a separação entre palco e platéia é rejeitada,
pois os atores se movimentam para a sala e lá permanecem integrando os
espectadores à narrativa e ao espaço ficcional. Assim, o espaço teatral
é marcado por uma dinâmica de expansão e de compressão. Ao mesmo tempo,
os mínimos elementos localizados na cena são supervalorizados em sua
dimensão simbólica, de modo tal que a minimação cede lugar à
grandiloqüência. Se, por um lado, a encenação trabalha sobre os
significados do espaço tradicional, jogando com a relação cena-sala e
com o próprio signo teatral, por outro, ela comporta uma tentativa de
atualização do texto substituindo a máquina de datilografia pela
informática, mas utiliza-se de efeitos tradicionais como o recurso
freqüente à quarta parede. Assim, cada vez que o bancário levanta seus
arquivos, uma sonoplastia de cunho religioso vem sublinhar que o Deus
contemporâneo passou a ser o dinheiro. A encenação recorre a um humor
previsível, exacerbando temas da sexualidade e palavrões, inserindo-se
no contexto da comédia. O efeito é acentuado pelo recurso a um telão que
filma os atores sem que essa filmagem tenha um efeito retórico. Dessa
forma, a sobrevivência desencantada no contexto urbano é constatada, sem
que a encenação ofereça outras formas de resistência, além da exaltação
de uma relação erótica exacerbada, baseada na luta pela dominação
física, econômica e intelectual. O próprio tema da resistência parece
esgotado pelo fim dos “Grandes Mitos”.
O fenômeno inverso pode ser observado
com o espetáculo Um homem é um homem, do Grupo Galpão, com
direção de Paulo José. A encenação leva o texto de Brecht de 1926 para o
contexto da invasão do Iraque pelos Estados-Unidos.
Como o sublinha o diretor Paulo José:
Os assuntos
abordados, guerras de pacificação, Oriente versus Ocidente, a luta do
Bem contra o Mal, são de absoluta atualidade. O que ocorria na Índia na
época em que a peça foi escrita pode ocorrer hoje no Afeganistão, no
Iraque ou em um pais fictício, um Urbequistão qualquer da Ásia menor, e
as tropas inglesas são hoje as forças coligadas do mundo livre ocidental
e cristão em luta contra a barbárie oriental. (...) Nossa adaptação
permitia que se colocassem em cena as teorias que orientam a política
externa americana de hoje, expondo os motivos reais de suas ações
bélicas, deixando claro que elas não são uma calamidade inevitável, como
os terremotos e outros grandes acidentes da natureza, mas atos
criminosos que podem ser denunciados, combatidos e evitados.
A presença de uma cenografia com
características construtivistas vem apoiar o caráter engajado do texto e
da encenação. O traço construtivista aparece no funcionalismo e na
materialidade do cenário: estruturas metálicas (andaimes) com rodas,
formando espécies de praticáveis móveis. O movimento destas estruturas e
a sua transformação por intermédio do uso de tecidos (cortinas, painéis)
criam novas configurações plásticas, que atendem às solicitações
espaciais da narrativa. A ênfase recai no mecanismo, no modo de
construção de um aparelho cênico que produz a ficção. O palco é
valorizado como um lugar de ação e de jogo, onde a verticalidade é
bastante explorada, em especial, pela utilização de técnicas circenses,
como as pernas de pau, que, aumentando a dimensão dos atores, se
manifestam como uma critica à prepotência dos militares. A mistura dos
elementos circenses, musicais, cinematográficos aponta para uma
teatralização, criando um mundo de artificialidade e de
convenção. Assim, a encenação joga com a produção artificial de sentido,
o que ocorre, por exemplo, na transformação de espaços interiores em
exteriores e vice-versa. Assim, o aparelho cênico estabelecido é
antiilusionista e épico, elemento este que é reforçado pela presença de
projeções de textos, dialogando com as teorias brechtianas, reforçando a
caráter engajado da encenação. A junção do texto de Brecht com o poema
de Heiner Muller “A Hiena”, no final do espetáculo, reforça o caráter
épico da encenação, atualizando assim a questão do engajamento através
da dramaturgia.
A noção de engajamento pode adquirir
uma outra forma de expressão, diferente dos modelos precedentes.
Baseando-se em Deleuze, que define o criador como “o grande vivente
de saúde frágil” que se opõe a “gorda saúde dominante”, o
psicanalista e ensaísta Miguel Benasayag[7]
analisa a importância da resistência no nosso mundo “ontologicamente
obscuro no qual o inimigo é indefinido”. Para Benasayag, a
concretização artística é, em si, uma forma de resistência. A visão
marxista de luta de classes não é mais vigente, ultrapassada pela
própria realidade histórica. Para Benasayag, colocando o corpo em cena,
o restituindo em sua densidade, o ato criador em si é um ato de
resistência, válido e necessário, que se afirma em nome da vida, do
desejo – recusando o utilitarismo e tornando-se efetivo a partir do
momento em que encontra um eco em outras formas de ação social.
Apresentado pela Bem-vinda Cia. de Dança, com direção de Dudude Hermann,
o espetáculo Como habitar uma paisagem sonora foi realizado na
área externa da Igreja do Carmo, em Ouro Preto. Numa extensa área que
circunda a igreja, cinco bailarinos se moviam com liberdade e
independência. Do mesmo modo, os espectadores podiam mover-se pelo
espaço, acompanhando a evolução de cada corpo, ou podiam permanecer
fixos numa mureta situada em torno da igreja. A movimentação livre dos
corpos contrasta com a movimentação tradicional dos espectadores,
criando um encontro e um questionamento. O corpo sugere a liberdade em
relação aos moldes sociais, sem que o espectador sinta a necessidade de
uma explicação específica. “É preciso que a gente pense em dança como
qualquer deslocamento de massa. Como tratamento em que vai haver uma
tensão, um conflito, para mudarmos a percepção do espaço, mudarmos o
estado desse espaço. Sair do cotidiano e, de repente, a gente continua
nessa mesma ação. Mas alguma coisa muda. Essa alguma coisa é que é o "X"
da questão.”.
De acordo com o pensamento de Miguel Benasayag, Dudude Hermann parece
sugerir que o modo de movimentação no espaço pode se constituir numa
forma de resistência em si.
Em Agora e na hora de nossa hora,
criação de Eduardo Okamoto, a narrativa estrutura-se a partir de um
fato real, a chacina dos meninos de rua no Largo da Igreja da
Candelária, no Rio de Janeiro. Integrando os espectadores que envolvem
parcialmente a cena, o espaço faz alusão a esse local, num procedimento
próprio ao realismo sugestivo, no qual um bueiro representa a
totalidade: uma rua de uma grande cidade. Pequenas pedras desenham no
piso uma cruz ou uma encruzilhada, a qual ocupa todo o espaço de
atuação. Por sua vez, esta cruz alude à igreja em questão e, num nível
mais amplo, à transcendência. Assim, inevitavelmente, o espaço possui um
forte caráter simbólico: espaço de passagem, de luta, de sofrimento, de
morte, de redenção. O bueiro e a cruz também determinam topografias: o
baixo, o subsolo como elemento de degradação e o alto, como espaço
sagrado. O baixo e o alto parecem se configurar, respectivamente, a
partir das formas quadrangulares e circulares. A iluminação define estas
formas no espaço, sendo que a forma circular penetra o espaço como
elemento de contraste. Se, por um lado, a circularidade nos aponta para
a totalidade, para a redenção, por outro, os demais espaços fragmentados
vêm reforçar a impossibilidade de transcendência num mundo marcado pela
violência e pela crueldade. Deste modo, a dramaturgia e o jogo do ator,
bem como o espaço, afirmam o caráter engajado da encenação.
Em Erê - O Eterno Retorno, o
ator-diretor Fábio Vidal explora a linguagem do teatro físico para a
elaboração de uma dramaturgia inspirada no tema nietzschiano do eterno
retorno do mesmo, abordando a questão da dialética entre repetição e
mudança. Em A arte da performance, Glusberg interpreta a
repetição como algo que remete a um simbolismo mágico-mítico, isto é, a
preservação de um estado de ordem frente à ameaça do caos bíblico. Em
Erê, a dramaturgia é tipicamente pós-dramática, no sentido de que a
peça não tem início, meio e fim, como avisa o ator em vários momentos do
espetáculo. Este não acabamento possibilita ao ator um uso diferenciado
do espaço, visto que ele acompanha o público desde sua entrada no
teatro, faz cenas na platéia, sai do teatro junto com o público e
termina por retornar ao palco. Assim, o espectador é solicitado a uma
participação ativa durante todo o espetáculo. O aspecto anafórico do
espetáculo, além de propor uma dramaturgia inovadora não isenta de
critica social, sublinha o eterno retorno ao ator e suas capacidades e,
por conseguinte, a novas possibilidades de leitura da obra pelo
espectador. A participação é particularmente solicitada em momentos em
que o texto efetua uma critica social, tratando de temas como o consumo,
a invasão da cultura norte-americana no contexto brasileiro e a cultura
televisiva. A sonoplastia de Nação Zumbi vem reforçar esse aspecto
critico. Além da interpretação do sentido, que se torna pluralista, o
espectador interage diretamente com os espetáculos, dentro de uma
perspectiva de apropriação e construção conjunta.
A partir dessa análise, percebe-se
que a produção teatral do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana de
2006 reflete as principais tendências estéticas da Pós-Modernidade no
que diz respeito ao engajamento do artista. Essas tendências são
particularmente perceptíveis na maneira como os diretores lidam com a
dramaturgia, a interpretação, a sonoplastia e o espaço cênico, que se
torna o local de expressão do desencanto pós-moderno. Os elementos
épicos, a fragmentação e a fusão estilística do espaço cenográfico,
revelam então a complexidade de posicionamento do Homem no mundo
pós-moderno. As diferentes formas de engajamento se refletem através das
estéticas diferentes adotadas pelos espetáculos, concordando assim com a
célebre formulação de Wittgenstein: “Ética e estética são uma coisa
só”.
LIPOVETSKY, Gilles e CHARLES, Sebastien. Les
temps hypermodernes. Pari : Grasset, 2004.
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