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As horas e as possibilidades
de diálogo entre o literário e o cinematográfico
elisa rodrigues moreira

De adaptações e
adaptações...
Drácula de Bram Stocker,
é o título do filme de Francis Ford Coppola. Uma referência explícita e
até mesmo, de certa forma, reverencial, à obra literária que o
inspirou. O filme, entretanto, estabelece com o livro relações nem
sempre tão diretas, não é apenas uma transposição de códigos. Apresenta
novos elementos, explora recursos específicos do cinema e abre mão de
elementos narrativos caros à literatura, além de trazer ao roteiro
fílmico informações que não constam da obra literária.
Em A liga extraordinária, filme dirigido por Stephen Norrington e
baseado num quadrinho de Alan Moore e Terry O'Neill, a relação com a
literatura aparece também através da citação, da intertextualidade, da
referência aos personagens e às narrativas literárias nas quais estes
existem: os protagonistas da narrativa fílmica são Allan Quatermain (As
Minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard), Mina Harker (Dracula,
de Bram Stoker), Henry Jekyll e Edward Hyde (Dr. Jekyll e Mr. Hyde,
de Robert Louis Stevenson), Rodney Skinner (O Homem Invisível, de
H.G. Wells), Capitão Nemo (20.000 Léguas Submarinas, de Julio
Verne), Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde),
Tom Sawyer (As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain) e
Professor James Moriarty (The Final Problem, de Arthur Conan
Doyle).
Peter Greenaway, em O livro de cabeceira, parte de um livro
escrito no século X, composto por inúmeras listas, para criar um filme
em que as relações entre imagem e texto, entre cinema e literatura, são
todo o tempo deslocadas, desbordadas, questionadas e ao mesmo tempo
recriadas.
As horas,
de Stephen Daldry, traz à tona o livro homônimo no qual se baseia (de
Michael Cunningham), que por sua vez refere-se diretamente ao livro
Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, e à biografia desta mesma autora.
Este é um pequeno inventário que pretende apenas demonstrar o quanto
esse diálogo entre cinema e literatura, através da adaptação para o
cinema de textos literários, ocorre de formas muito diversificadas,
sendo que no escopo da chamada “adaptação fílmica” encontram-se filmes
que estabelecem, com a literatura, interlocuções variadas,
distanciamentos, alusões, referências mais ou menos explícitas,
citações...
Diante dessa diversidade de produções fílmicas que, de uma ou outra
forma, dialogam com o literário, é possível também buscarmos suportes
teórico-conceituais diversos, que podem funcionar como operadores de
leitura importantes para se refletir sobre a adaptação fílmica. Dentre
estes, destaco as noções de tradução, intertextualidade e hipertexto,
das quais me utilizarei para pensar um pouco no filme As horas e
nos diálogos que ele estabelece com os textos literários aos quais
alude.
Parece-me interessante, para começar esta reflexão, falar um pouco de
como se estabeleceu, em particular, o meu diálogo com este filme e com a
questão do literário no mesmo.
Primeiro trajeto: de
Stephen Daldry à Virginia Woolf e Clarissa Dalloway
O que é que uma
pessoa quer?
(Michael Cunningham, As horas)
Meu primeiro contato com As horas
foi através do filme de Stephen Daldry.
Muito recomendado pela crítica, com várias premiações, o filme
encantou-me pela forma com que conjugava a biografia de Virginia Woolf a
um de seus livros, Mrs. Dalloway.
O filme a princípio
deixou-me confusa, eram três histórias distintas, em tempos e espaços
diferentes, entre as quais se transitava livremente e dava-se a entender
que havia um fio em comum, que no decorrer do filme identifiquei como o
livro de Virginia. Nunca havia lido nenhum de seus livros, mas sabia um
pouco sobre sua obra e biografia, de forma que foi possível identificar,
já nesse primeiro momento, que o filme de alguma forma estabelecia algum
tipo de diálogo com o literário.
E um diálogo que, a meu
ver, pareceu ser construído pela narrativa cinematográfica de forma
muito interessante: um enredo que mesclava a biografia de Virginia e a
trama de uma de suas principais obras, num filme que consegue criar uma
atmosfera de densidade psicológica por vezes angustiante. Exatamente a
imagem que eu tinha do que seria a literatura de Virginia Woolf, de
forma que o filme acendeu o desejo de ler Mrs. Dalloway no
sentido de perceber se o diretor tinha conseguido trazer para o cinema
não só a trama do romance e a biografia de sua autora, mas também alguns
elementos característicos de sua escrita.
Até então, eu
não tinha atentado para o fato de o filme ser a adaptação de um livro
homônimo, mesmo com essa informação aparecendo nos letreiros iniciais do
filme. Minha leitura do filme, até este momento, só havia criado
“links” (aproveitando aqui um termo vinculado à noção de hipertexto), só
havia identificado relações intertextuais com a obra de Virginia Woolf,
sua biografia, o romance Mrs. Dalloway, em particular. Foi só
após esse primeiro contato e o estabelecimento dessa primeira
interlocução entre filme/obra literária que, ao buscar mais informações
sobre o filme, atentei para o fato de que ele baseava-se em uma obra
literária que não o romance de Virginia Woolf.
Acho interessante
destacar este trajeto porque ele me suscita uma primeira questão em
relação à reflexão sobre a adaptação fílmica: se o vínculo entre o filme
e o texto literário é claro para o diretor da obra cinematográfica, em
que medida estas referências e alusões são claras também para o
espectador do filme? Como é criado esse vínculo, essa rede de
inferências e referências que partem do cinematográfico em direção a um
determinado conhecimento do literário?
Acho que se optarmos por
pensar nesta relação que se estabelece entre a adaptação fílmica pelo
viés da recepção, as teorias acerca do hipertexto podem trazer valorosas
contribuições. Se concebermos o processo de recepção, de leitura do
texto fílmico ou literário, como um movimento no qual pedaços se perdem,
associam-se ou unem-se a outras informações às quais cada
leitor/espectador tem acesso, podemos utilizar a noção de hipertexto
como um importante operador de leitura da adaptação fílmica:
Se ler consiste
em selecionar, em esquematizar, em construir uma rede de remissões
internas ao texto, em associar a outros dados, em integrar as palavras e
as imagens a uma memória pessoal em reconstrução permanente, então os
dispositivos hipertextuais constituem de fato uma espécie de
objetivação, de exteriorização, de virtualização dos processos de
leitura. (LEVY, 1996, p. 43)
Acho
importante ressaltar esta questão, uma vez que a maioria das discussões
acerca da adaptação fílmica às quais tive acesso busca mais as relações
entre a obra literária e o filme, deixando de lado em certo momento o
terceiro elemento dessa rede na qual o sentido se constrói, que é o
leitor/espectador, para o qual a relação entre o cinematográfico e o
literário poderá se apresentar de formas diversificadas diante de uma
obra adaptada.
Pensando ainda em meu
trajeto de leitura diante do filme As horas, percebe-se que a
rede de informações que se constrói diante da adaptação fílmica nem
sempre vai contemplar todas as referências presentes na obra. No
entanto, como a leitura não é estanque e novas informações podem ser
agregadas à mesma constantemente, mais uma vez utilizo o conceito de
hipertexto para assinalar as novas ramificações de meu percurso de
leitura de As horas:
O hipertexto é
dinâmico, está perpetuamente em movimento. Com um ou dois cliques,
obedecendo por assim dizer ao dedo e ao olho, ele mostra ao leitor uma
de suas faces, depois outra, um certo detalhe ampliado, uma estrutura
complexa esquematizada. Ele se redobra e desdobra à vontade, muda de
forma, se multiplica, se corta e se cola outra vez de outra forma. (LEVY,
1996, p. 41)
Segundo trajeto: de
Mrs. Dalloway a Michael Cunninghan
É sempre melhor o
livro que se tem na cabeça do que aquele que se consegue pôr no papel.
(Michael Cunningham, As horas)
Mrs. Dalloway.
Foi minha primeira conexão com
o filme, e a primeira leitura que decidi fazer. Estava sobretudo
interessada em confirmar duas impressões trazidas pelo filme: primeiro,
se a trama, o enredo que perpassa no filme a personagem Clarissa Vaughan
– a Mrs. Dalloway contemporânea – era semelhante à trama de Woolf; num
segundo momento, se o filme realmente conseguia captar, transmitir ao
público a característica da escrita de Virginia, o chamado “fluxo de
consciência” – no qual as personagens eram descritas não por suas ações,
seu comportamento, mas sobretudo pelo que não diziam ou faziam, pelo que
pensavam.
Apesar de já ter, neste
momento, conhecimento do livro de Cunningham, minha atenção estava ainda
voltada para os possíveis cruzamentos entre o filme e o romance de
Virginia Woolf. E lá estava, a primeira frase do livro: “A Sra.
Dalloway disse que ela própria iria comprar as flores.”
O diálogo entre o livro e
o filme parecia se confirmar, uma vez que esta frase marca de forma
importante, na narrativa fílmica, a interligação entre as três
personagens: Virginia Woolf escolhe a frase com que irá iniciar seu novo
romance, Laura Brown lê a primeira frase do romance de Virginia e
Clarissa Vaughan parece, de certa forma, incorporar a personagem, ao
sair de casa afirmando que irá ela mesma comprar as flores.
Com pouquíssimos
diálogos, o livro de Virginia Woolf narra um dia na vida da Sra.
Dalloway, preocupada com a preparação de uma festa em sua casa. Esse
dia, no entanto, estende-se de forma prolongada, uma vez que a narrativa
de Virginia apresenta detalhadamente os pensamentos não só de Clarissa
Dalloway (sim, elas têm o mesmo nome), mas também os dos outros
personagens que cruzam seu caminho, de alguma forma.
O dia de Clarissa
Dalloway reflete-se no dia de Clarissa Vaughan. Há algumas
transposições, algumas situações levemente diferenciadas, mas o cerne da
trama de Woolf parece ter sido transposto para a história de uma das
três personagens do filme. Os detalhes incluem nomes semelhantes (ainda
que para personagens diferentes) e eventos que se reforçam no trajeto
daquele dia na vida das duas mulheres. Não é à toa que Clarissa Vaughan
é chamada, por seu amigo Richard, de Mrs. Dalloway, uma alusão não
apenas ao prenome em comum (Clarissa), mas também uma forma de
explicitar a referência ao romance de Virginia Woolf.
Eu conseguia perceber no
filme, assim, a escrita de Virginia não só representada na ação de
escrever pela personagem de Nicole Kidman, mas também pela ação que
transcorre com a personagem de Meryl Streep. E pela sensação de
angústia, pelo clima denso, sufocante de certas cenas. Sim, era
possível estabelecer um diálogo entre o filme, Virginia Woolf e Mrs.
Dalloway. Nesse momento, eu já me perguntava se esse diálogo era
decorrente da narrativa fílmica, ou se a narrativa literária que
efetivamente servira de base ao filme, o livro As horas,
de Michael Cunningham, não seria o eixo fundamental dessa ligação.
Lendo um pouco a respeito
do livro, tive acesso a uma informação que me chamou a atenção: “As
horas” era o primeiro título que Virginia Woolf tinha pensado para seu
romance. Uma informação significativa, à medida que representava uma
alusão explícita do autor à obra de Virginia. A trama do livro era
exatamente a que eu vira no filme: um dia que se passava na vida de três
mulheres, em épocas e locais distintos – Virginia Woolf, Laura Brown e
Clarissa Vaughan.
O livro de Cunningham
amarrava, por meio de referências intertextuais, esses três universos
distintos permeados por um mesmo elemento: o livro Mrs. Dalloway.
Através destas três personagens, Cunningham nos apresenta elementos da
biografia de Virginia e de sua relação com a literatura, de seus
processos de escrita, de seus personagens. Se pensarmos na tradução
como um “processo de leitura e reescrita de um texto” (SOUZA, 1993, p.
36), é possível pensar no livro As horas como um texto que irá
traduzir, rearranjar e interligar, não apenas o livro Mrs. Dalloway,
mas a obra de Virginia Woolf, informações sobre sua vida, estudos sobre
sua escrita e sobre a importância de sua obra.
Cunningham recria o
universo woolfiano, e utiliza-se para isso não apenas dos elementos
factuais acima descritos, mas também da apropriação do chamado “fluxo de
consciência” como estilo escritural. Seu texto quase não apresenta
diálogos, as personagens se compõem muito mais por seus pensamentos do
que por suas ações. A sensação de não-pertencimento àquele mundo, de um
certo deslocamento em relação ao contexto em que vivem, de valorização
de situações corriqueiras e cotidianas, da opção – ou não - pela vida,
todos esses elementos são perceptíveis na obra de Michael Cunningham.
O diálogo de Cunningham
com a obra de Virginia Woolf se dá através das mais diversas formas
intertextuais: aparecem citações diretas do texto da autora, paráfrases,
elementos biográficos, epígrafes, apropriação de traços da escrita e de
nomes de personagens, transposição de situações, deslocamentos temporais
e espaciais. É possível perceber Virginia Woolf ali, refratada, mas
sempre presente:
(...) Não olha
direto para o espelho oval pendurado sobre a pia. Tem consciência dos
movimentos refletidos no vidro mas não se permite olhar. O espelho é
perigoso; às vezes mostra-lhe aquela manifestação escura de ar que imita
seu corpo, toma sua forma, mas fica atrás, vigiando, com olhos porcinos
e respiração silente, molhada. (CUNNINGHAM, 1999, p. 31)
Restava,
agora, o estabelecimento de uma nova rede de interlocuções em meu
percurso: observar as formas como o livro de Michael Cunningham e o
filme de Stephen Daldry dialogavam, as estratégias narrativas utilizadas
por cada um deles na recriação do universo de As horas.
Terceiro trajeto: de
Michael Cunningham a Stephen Daldry
Mas ainda restam
as horas, certo? Passa uma, depois outra, você atravessa uma, mas aí tem
outra. Estou cansado.
(Michal Cunningham, As horas)
A chamada “tradução
intersemiótica”, que pode ser considerada, de forma genérica, como a
recriação de um determinado texto em um sistema semiótico distinto
daquele de sua existência original, implicará certamente em determinadas
mudanças, uma vez que “as diferenças são inevitáveis ao se transpor um
texto de um código para outro” (PAULINO, WALTY, CURY, 1998, p. 47).
Ao transpor para o cinema
a obra literária, Stephen Daldry fez algumas opções que, a meu ver, não
são fundamentalmente movidas pela diferença de códigos. É óbvio que a
diferença de códigos permite algumas destas escolhas, mas elas não são
exigências desta diferença. E são justamente estas escolhas que, a meu
ver, fazem do filme uma obra capaz de trazer à tona, de forma magistral,
tanto o livro de Cunningham quanto Virginia Woolf e sua obra.
Para discutir um pouco
mais estes diálogos entre estes dois As horas, apontarei alguns
pontos que me chamaram a atenção pelo tipo de interlocução que
representam entre o texto literário e o texto fílmico.
A cena inicial: o
suicídio de Virginia Woolf
Tanto o livro
quanto o filme são iniciados com Virginia Woolf enchendo os bolsos de um
pesado casaco com pedras e entrando no rio em que morreria. Esta cena,
fundamental tanto no livro quanto no filme, e que funciona como uma
introdução da temática da morte, da angústia, do tormento, destaca-se
por escolhas narrativas diferenciadas.
No livro, estruturado em capítulos alternados que apresentam sempre o
nome das personagens femininas (Mrs. Woolf, Mrs. Brown e Mrs. Dalloway),
a cena do suicídio aparece com o título “Prólogo”. Marca-se, assim, o
distanciamento temporal e espacial desta seqüência em relação ao
restante da história. Ela é um capítulo à parte. Cunningham descreve a
ida de Virginia para o rio, e também o fluxo de seus pensamentos durante
este trajeto. Sua opção pela morte, a entrada no rio e o afogamento.
Depois passa para Leonard – marido da autora - descobrindo a carta
deixada por Virginia, inclui o trecho da carta e então retorna ao rio,
com a correnteza levando o corpo de Virginia.
No filme, a dimensão espaço-temporal distinta é apresentada pelos
letreiros. O que é uma opção do filme, e não uma necessidade devida à
transposição intersemiótica. Vemos Virginia dirigindo-se ao rio, ao
mesmo tempo em que escutamos a narração da carta que ela deixa a
Leonard. Não temos acesso aos seus pensamentos, às suas dúvidas. O
suicídio já se apresenta como evidência.
Dessa forma, acho que o diretor explicita uma escolha: a não utilização
do “fluxo da consciência” enquanto possibilidade narrativa (ele podia
utilizar o recurso do off, por exemplo, para transmitir os pensamentos
das personagens). E, a partir dessa escolha, ele cria alguns desafios em
relação à interlocução com uma obra que praticamente não apresenta
diálogos, um texto no qual muitas das situações só se tornam claras para
o leitor por meio das divagações dos personagens.
No caso desta cena, ele soluciona isto utilizando um recurso permitido à
narrativa fílmica, que é a simultaneidade de informações na narrativa.
No plano da imagem, temos acesso a uma informação e no plano do áudio, a
outra informação, que vai complementar a primeira. A angústia de
Virginia, suas dúvidas e a justificativa de sua decisão são apresentadas
ao espectador por meio da carta que ela deixa ao marido.
A questão temporal
Há uma opção, no filme, pela
manutenção da estrutura temporal apresentada pelo livro: são mantidos os
blocos temporais distintos, o recurso do flashback não é utilizado para
fazer as ligações entre as três histórias. No entanto, dentro desta
mesma estrutura temporal global, livro e filme vão utilizar recursos
diferentes para ressaltar as ligações entre as três narrativas e para
criar a sensação de angústia temporal, de peso, de arrastamento do tempo
ao longo deste dia narrado em épocas diferentes.
No livro, cada capítulo é
responsável por apresentar um período do dia na vida de cada uma
daquelas mulheres. Com isso, parte do dia de cada uma delas fica em
suspenso para o leitor, enquanto temos acesso às ações e angústias da
personagem título do capítulo em questão. A relação entre cada uma delas
vai se construindo mais lentamente, ao longo da trama, por pequenos
detalhes, sentimentos semelhantes, frases citadas em um e outro
capítulo.
No filme, as histórias se
intercalam com maior freqüência, ressaltando ações em comum praticadas
pelas três personagens. É o caso, por exemplo, da cena que mostra todas
se levantando de manhã e se arrumando. Indica-se, dessa forma, que é o
início de um novo dia para cada uma delas, e ressalta-se que há alguma
ligação entre aquelas três narrativas, devido à repetição das ações das
personagens. O efeito de angústia e de prolongamento temporal
constrói-se mais pela repetição de ações que pela suspensão da
narrativa.
É interessante ressaltar
também, em relação a este aspecto de repetição, a utilização da trilha
sonora feita pelo filme. Composta por Phillip Glass, a trilha ressalta
a idéia de marasmo, de lentidão, de arrastamento das horas, ao utilizar
sempre o mesmo tema ao longo do filme.
E há, ainda, em relação a
esta questão, a própria escolha de manutenção, no título do filme, do
título do livro, que por sua vez remete diretamente a Mrs. Dalloway
de Virginia Woolf e antecipa a estratégia de repetição do filme e o peso
que o tempo representa na narrativa.
A importância da
escolha do elenco e dos diálogos
A opção pela não utilização do “fluxo da consciência” enquanto
possibilidade narrativa, como foi dito anteriormente, traz ao filme
alguns desafios relativos à forma como tornar claras emoções, sensações
e pensamentos não ditos. E o filme responde a estes desafios através de
duas opções que se destacam: a importância dos diálogos entre os
personagens e da escolha do elenco.
O elenco torna-se um elemento fundamental ao filme, em especial a
escolha das três atrizes protagonistas. Elemento próprio do cinema
(pensando em relação à literatura), o ator assume em As horas o
papel fundamental de transmitir, por meio de sua representação da
personagem, o que no livro aparece explicitado em seus pensamentos,
devaneios, desejos e dúvidas. O ator precisa corporificar essas
sensações em suas personagens, e Stephen Daldry conseguiu um trabalho
primoroso neste sentido.
A atuação de Nicole Kidman, Juliane Moore e Meryl Streep é fundamental
ao desenvolvimento da narrativa, uma vez que é sobre elas,
principalmente, que recai a responsabilidade da criação do clima
densamente intimista e psicológico do filme. É sua interpretação, em
muitos momentos, que funciona como o texto em off que traria para a tela
os pensamentos de suas personagens. Mais do que pelo enredo em si, é
pela atuação das atrizes que se constrói essa angústia feminina, essa
sensação de deslocamento diante do mundo, de sensibilidade exacerbada
que por vezes parece deixar as personagens à beira da loucura.
Também buscando preencher este mesmo papel na narrativa fílmica, são
criados diálogos e determinados personagens (em especial Richard,
interpretado por Ed Harris e Julia, a filha de Clarissa Vaughan,
interpretada por Claire Daines) ganham um maior espaço, preenchendo
lacunas da narrativa que, no livro, ficavam a cargo das elocubrações das
próprias personagens principais.
É por meio da atuação de Ed Harris e de seus diálogos com a personagem
de Meryl Streep que conhecemos Richard e sua história com Clarissa
Vaughan, na narrativa fílmica. No livro, apesar de o personagem de
Richard ser bastante presente, sua presença e sua história se constroem
muito mais através dos pensamentos e sentimentos de Clarissa em relação
a ele que por meio de diálogos explícitos entre ambos.
Todas estas questões, a meu ver, dão alguns indícios de como as relações
entre cinema e literatura podem ser pensadas e de como alguns conceitos
teóricos podem auxiliar nesta reflexão, como é o caso dos conceitos de
tradução, intertextualidade e hipertexto. No entanto, acredito que
nenhum deles é suficiente para, sozinho, conseguir cobrir a variedade de
adaptações fílmicas e de diálogos instituídos entre o filme e o texto
literário.
O caso de As horas parece-me interessante - e, certamente,
possibilitaria inúmeras outras leituras e possibilidades de análise -
por trazer à tona uma obra literária que já alude a outra e traz em si
inúmeros outros elementos vinculados à literatura e também por permitir
explicitar como determinadas formas de transposição dos discursos
literários para os discursos cinematográficos se dão mais por opção do
que por imposição de códigos distintos.
BIBLIOGRAFIA
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tradução como criação e como crítica. In: Metalinguagem & outras
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DINIZ, Thais Flores Nogueira. Literatura e cinema: da semiótica
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LEVY, Pierre. O que é o
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WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Rio de Janeiro: Abril Cultural,
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