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Abdelkebir Khatibie
As cintilações do pensamento-outro
nilson oliveira

Todo mundo louva a identidade
Todo mundo busca a origem
E eu, eu ensino o saber órfão.
( Abdelkebir Khatibi )
Pouco se ouve falar de Abdelkebir
Khatibi. Dele alcançamos alguns rastros, pistas
essenciais, deixados em
um curioso livro: Cultura e subjetividade (Saberes
nômades), no
belo ensaio Como dizer o Indizível? .
Seguimos adiante,
ao encontro de Khatibi, guiados pela lente de Daniel
Lins.
Khatibi é autor de uma obra vastíssima que inclui ensaios, romances,
crítica literária. Pensador da diferença, Khatibi nos oferece através
dos seus textos, instrumentos indispensáveis para a compreensão de
alguns aspectos do pensamento-outro. Mas a princípio é preciso
recuar até Maurice Blanchot, de quem Khatibi foi leitor, para na
literatura encontrarmos as primeiras evidências de um
pensamento-outro. Blanchot, em O Livro Por Vir, pensando Artaud nos
diz: o que é primeiro não é a plenitude do ser, é a fenda e a
fissura, a erosão e o esgarçamento, a intermitência e a privação
mordente. Nessa esfera, Blanchot descobre, não só em Artaud, mas na
literatura de seu tempo, um espaço rarefeito que põe em cheque tanto a
soberania do sujeito quanto a ‘autoridade’ do pensamento estabelecido.
Pois, segundo Blanchot, o que fala no escritor não é ele mesmo, ele
não é ninguém; tal como Joubert, o anônimo, o neutro, o Fora
Total. Joubert, contemporâneo de Diderot, se preparou para a
literatura e não escreveu um só livro, mas nessa jornada o que buscava
era, mais que a escrita, a sensação do escrever. Joubert se espraiou
nessa experiência e desapareceu na noite. Sem vestígios ou rastros, dele
temos não mais que os seus diários que, depois da sua morte,
Chateaubriand, numa edição reservada, fez revelar. Joubert preferiu a
sensação da escritura, o gosto pelas experiências do escrever, o
mergulho no centro da esfera. O pensamento-outro é a experiência
que arrasta toda experiência, que arranca o sujeito de si e do mundo, do
ser e da presença, da consciência e da verdade, da união e da
totalidade. Vemos isso em Joubert: aqui estou eu fora das coisas
civis e na pura região da arte, e mais adiante num caso mais
recente em Marguerite Duras: escrever./ Não posso. / Ninguém pode./ É
preciso dizer: não se pode./ E se escreve./ É o desconhecido que
trazemos conosco; escrever, é isto que se alcança. Isto ou nada. O
ser da linguagem só aparece com o desaparecimento do sujeito. Como não
pensar em Edmond Jebes: Não se pode falar do deserto como de um
lugar; pois ele é, também, um não-lugar. O não lugar de um lugar ou o
lugar de um não-lugar. Palavra de lugar nenhum, obscura fala do deserto.
Nelas, a escritura nos leva à literatura, mas talvez também a outros
caminhos, a um exterior onde desaparece o sujeito da fala. Nada mais
estranho e a um só tempo mais definitivo para o esfacelamento do
sujeito. Mas seguimos adiante. Foucault, em um livro dedicado a
Blanchot, o Pensamento Exterior, nos traz importantes afirmações nessa
direção: é preciso passar para “fora de si”, e para finalmente
reencontrar, se envolver e se recolher na fascinante interioridade de um
pensamento que é legitimamente Ser e Palavra. Discurso, portanto, mesmo
se ele é, além de qualquer linguagem, silêncio, além de qualquer ser,
nada. Mergulhar na superfície do pensamento-outro significa
liberar-se das reminiscências, quer dizer do monolítico e da tensão que
ele representa. Pois: Esse pensamento que se mantém fora de qualquer
subjetividade para dele fazer surgir os limites como vindo do exterior,
enunciam seu fim, fazer cintilar sua dispersão e acolher apenas sua
invisível ausência, e que ao mesmo tempo se mantém no limiar de qualquer
positividade. O pensamento-outro não é nem pensar para o
outro nem no outro nem na união nauseante do ‘eu’ com o ‘outro’. O
pensamento-outro é não mais que um pensamento plural que só é possível
no espaço do diverso, onde se prolifera, mais do que a agregação das
diferenças, a duplicidade dos entendimentos, num saber bilíngüe, que
como nos diz Khatibi: é um pensamento em línguas, uma mundialização
tradutora de códigos, de sistemas e de constelações de signos que
circulam no mundo, e isso não dá com base em um isolamento, de uma
periferia do saber ocidental ou no exílio interior de uma cultura do
impensado. Khatibi, em seu livro, o Amor Bilíngüe, encontra a
língua não como identidade selvagem, mas como uma profusão, uma
variação para dentro e fora de si, numa situação bilíngüe que pensa o
outro traduzindo-o. “A tradução
supõe um atravessamento de línguas na múltipla compreensão de uma
polissemia infinita. Assim poderá opor o saber ocidental, seu fora
impensado, radicalizando ao mesmo tempo a margem, alcançando um
pensamento-outro que fale em línguas, pondo-se à escuta de todas as
palavras de onde quer que elas venham”. Kafka, antecipando o bilingüismo, em seu diário nos diz: Vejam vocês, eu
falo todas as línguas em iídiche. Deleuze, nos Diálogos com Clarie
Pernet, pensando o saber bilíngüe acrescenta: toda língua é tão bilíngüe
em si mesma, multilingüe em si mesma, que se pode ser estrangeiro em sua
própria língua, ou seja, levar sempre mais longe as pontas de desterritorialização dos agenciamentos. O bilingüismo é um pensamento
encontrado nas margens, na distância e nas questões silenciosas, em um
silêncio que não é a intimidade de um segredo, mas o puro exterior onde
as palavras se desenrolam infinitamente, porque nele experimenta-se o
que Deleuze, em Crítica e Clínica, chama de terceira
possibilidade. Nesse caso Já não se trata mais de simplesmente, fazer no
texto, ou dizer sem fazer, mas de uma outra dicção, quando dizer é fazer
aquilo que acontece quando o balbucio (gagueira) não se dirige mais às
palavras preexistentes, mas introduz, ele próprio, as palavras que ele
afeta (...). Não é mais o personagem que é gago de palavras, é o
escritor que se torna gago de línguas: ele faz a linguagem gaguejar
quanto tal (...). Fazer gaguejar a língua e, ao mesmo tempo, levar a
linguagem a seu limite, a seu exterior, a seu silêncio. Levar a
linguagem a seu limite, a seu exterior, a um pensamento-outro.
Curiosamente, este seria também o projeto de alguns pensadores,
escritores e artistas da contemporaneidade. Fazendo brotar em seus
ensaios, romances, novelas, contos, poemas, as cintilações de um
pensamento-outro. Dessa comunidade fizeram parte, cada um a sua maneira, Jabés, Ponge, Joyce, Celine, Cummings, Beckett e alguns outros.
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