|
Da Chácara à Masmorra:
o caminho da loucura na prosa octaviana
samara inácio

Nubes lucida obumbravit.
( Pascal )
Discorrer acerca da prosa
de Octávio de Faria, escritor carioca que inicia seus escritos na década
de 30 e concebe-os até o final da década de 70, é agrupar uma série de
temáticas que atuam como um “corpo estranho” nessa era que apregoa a
existência de uma pós-modernidade. O século XXI se distancia daquilo que
o autor acreditava ser a problemática da sociedade. Aos que não conhecem
Octávio de Faria e seus escritos, devemos
dizer que ele era um “romancista católico”, que se dizia “fascista por
instinto e raciocínio”, e cria que a sociedade se debatia numa grande
crise, a “perda do Cristo” e conseqüentemente a perda da “fé católica”.
Portanto, a crise que acometia a sociedade de sua época era uma crise
espiritual.
Seu
mais importante trabalho é um roman-fleuve intitulado de
Tragédia Burguesa (T. B.), 15 romances que convergem para a
mesma temática, a trágica saga da sociedade burguesa carioca da década
30. Esses romances desvelam uma sociedade corrompida, tendo a ascensão
da classe burguesa como foco de discussão. Importa que
se diga, no entanto, que,
apesar de tratar da ascensão da burguesia, não é propriamente sobre a
“classe burguesa” que se ergue o romance cíclico octaviano. É dos filhos
dessa burguesia que se trata, é o indivíduo burguês que interessa, é o
seu comportamento e sua relação com o Outro e com a fé que preocupa.
Assim, duas instâncias se estabelecem na prosa octaviana, estas numa
relação intrínseca e conflituosa, o Homem e Deus ou o Ser e a Igreja.
O
presente texto tratará de um dos romances da obra cíclica de Octávio de
Faria, Os Loucos, sexto volume da série,
e das 3 Novelas da Masmorra, que é exterior à Tragédia
Burguesa, mas que mantém um vinculo
que se explica temporalmente e literariamente. Esse dois livros, porém,
ligam-se diretamente a obras de outros autores como Dostoievski, Luigi
Pirandello, E. T. A. Hoffman e Leon Bloy. Essa relação constitui aquilo
que alguns chamam de influência, entendida como um fenômeno intertextual
e não como um fator de dominação cultural, muito embora seja inevitável
admitir a existência, ainda hoje, de uma cultura “dominada”. No entanto,
aqui, o que nos interessa é tratar da presença da obra de Pirandello na
construção d’Os Loucos, já que as novelas surgem a partir do
romance.
Octávio de Faria pertence àqueles
romancistas que receberam a alcunha de Romancistas de 30, mas se
distanciou em muito dos autores nordestinos que faziam do
romance um documentário urbano-social,
querendo, através dele, tratar dos conflitos sócio-políticos.
Dentre os regionalistas ganharam destaque José Américo de Almeida,
Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge de Lima.
Contudo, a essa “corrente” regionalista somar-se-á a preocupação com os
problemas da alma e o destino do homem, em que se acentua o subjetivismo
e a introspecção. Desta fazem parte José Geraldo Vieira, Autran Dourado,
Lúcio Cardoso e Octávio de Faria. É sob as
características do romance psicológico que se constroem as obras
octavianas, problematizando e questionando o destino do homem,
aprofundando-se nos seus tormentos
espirituais e, sobretudo, fazendo com
que seus personagens se percam em monólogos longuíssimos, em que o fluxo
de consciência é simplesmente a catarse de viver.
O protagonista d’Os Loucos é
Paulo Torres, é membro da família Prado Campos, pertencentes à alta
burguesia carioca. A descendência “nobre” de Paulo Torres é ladeada por
uma herança mortal, - e não são os pecúlios da família, pois como muitos
dos burgueses retratados na prosa octaviana, os Prado Campos fazem parte
da burguesia falida da década de 30 - ele herda a loucura da família, é
o representante deste “mal” em sua geração. Ele não escapa ao fatalismo
da herança genética e percorre o caminho que não foi feito por nenhum de
seus antepassados, isto é, vai da Chácara à
Masmorra. A saga de loucura na família Prado Campos se iniciara
com uma trisavó do personagem, Chiquinha Dantas, e tivera continuidade
com o avô, Paulo Prado Campos, e um tio, Ranulfo Prado Campos. Loucura
que se manifestara em ambos de maneira diversa. De sua trisavó herdara a
tendência à agressão e do tio, além da
semelhança fisionômica, herdara o temperamento ensimesmado, o estar
sempre mergulhado em elucubrações, em conjecturas. O narrador questiona
o rótulo atribuído a Paulo Torres:
“Da infância distante, a doença viera vindo lentamente.
Aliás, ninguém podia dizer ao certo se se tratava de uma doença. Uma
estranheza, uma diferença em relação a nós outros, mais ou menos normais
que, com as nossas necessidades de simplificação e catalogação,
abstraímos da cadeia mais ou menos ininterrupta que parece ligar todos
os seres humanos, do fundo do manicômio ao coração do supremo burguês,
das grades da casa de detenção ao mais perfeito colégio conventual, da
mais absoluta diferença sexual masculina à mais total feminilidade. Uma
estranheza, um quase nada original que a vida fora aos poucos abismando
num sentido único, em vez de retê-lo onde estava ou de orientá-lo para o
outro extremo do caminho”.
Depois de apresentar suas dúvidas
quanto ao rótulo impingido ao personagem, ele faz um histórico da sua
“doença” na família Prado Campos:
“Em casa, dizia-se que o menino, esquisito desde o berço,
tinha bem a quem sair. Herança paterna e herança materna não eram das
mais tranqüilizadoras. E os estranhos carregavam nas tintas: pai velho,
doente, já gasto pela vida quando o procriara; avô materno dominado por
uma mania de grandeza e pela insistência numa vida de fausto que o
levara, e à toda família, à mais completa falência econômica; tio-avô
francamente nevropata, tendo vivido mais de quinze anos em estado de
franca imbecilidade; tataravô também declaradamente alienada, morta em
conseqüência de um ato insano - que mais podiam explicar as
“esquisitices do rapaz? E, até, no físico, não era do conhecimento de
todos que lembrava muito o tio-avô, aquele Ranulfo Prado Campos que
parecia só ter vivido para deixar ao sobrinho-neto um aviso do perigo
que corria enveredando por aquele caminho de ensimesmamento e fuga ao
mundo”.
A loucura de Paulo Torres é parte de
um legado familiar, plenamente explicável por sua genealogia, mas, em
seu caso particular, somar-se-á a ela a simulação, a qual comentaremos
mais tarde, e é a partir dessa simulação que seu destino se
comprometerá.
Paulo não está sozinho, há outros
personagens como sua tia Leonor Prado Campos, a filha desta e sua prima,
Lisa Maria, motivo principal de seu enlouquecer prematuro, e o
antagonista de toda a Tragédia Burguesa, Pedro Borges. Octávio de
Faria atribui três tipos de loucura aos personagens Paulo Torres, Pedro
Borges e Lisa Maria: a loucura do espírito, da carne e dos sentimentos.
Em sua concepção de loucura, contudo, Octávio de Faria a relaciona com a
“paixão”, sendo esta uma das molas
propulsoras e desencadeadoras da “doença”:
“Nossos sentimentos são frágeis, vivem expostos a todas as
tempestades da vida. Nem os sabemos defender, escravos que somos da
exterioridade do movimento, do fato. A paixão os devora em poucas horas
e não raro ensandecem dentro de nós mesmos, a ponto de se tornarem tão
perigosos os bons quanto os ruins, os mais elevados como os mais baixos.
Vivemos num mundo mau, “destruídos de cisnes”, como o dizia um profeta
dos tempos modernos.
Nesse tempo de paixão, tudo é loucura. E não há porque se
perder em distinções sutis entre a loucura do espírito e a loucura da
carne, loucura da ambição de poder e loucura de sentimentos. O vento mau
que sopra de repente arrasa tudo. E tudo se passa, então, como em um
bailado de fúrias soltas pelo espaço. Para que classificar? Para que
raciocinar tanto?”.
Mesmo que o autor recusasse a
classificação, é inevitável que a façamos, porque o processo é
desencadeado de maneira diferente nos três. A loucura de Paulo é um
legado, mas há motivos que ultrapassam a genética, como a sedução de
Lisa Maria por Pedro Borges e a descrença de todos os habitantes da
Chácara das Rosas; Lisa enlouquece porque fora seduzida e abandonada,
por ter desprezado o alerta dado pelo primo; e Pedro Borges herdara a
loucura da carne do pai, Rodolfo Borges, que o ensinara a não temer os
perigos e apenas se deliciar com a sedução. Os personagens são loucos,
todos eles, a despeito disso, é Paulo Torres que, apesar da loucura e da
simulação, conserva ainda um pouco de razão, porquanto é dele que parte
o aviso, é ele que atenta e grita para o perigo que rodeia a propriedade
dos Prado Campos. Paulo é aquele que, como dizia, Van Gogh, “perdeu
tudo, menos a razão”, pois no auge de seu estado anímico continua
tentando evitar o inevitável, a sedução de Lisa Maria, que culminaria
com dois fatos mortais para a família, o suicídio de Lisa Maria e o
assassinato de Paulo Torres por Pedro Borges.
Far-se-á importante, contudo, que se
diga que a insanidade patente de Paulo se acentua com a introdução de
Pedro Borges, feita pelo próprio Paulo, na Chácara das Rosas, porque o
antagonista conhece Lisa Maria e passa a cortejá-la, mas a querela
existente entre Pedro e Paulo já se dera na escola. Este episódio está
contido no segundo romance da série, Os Caminhos da Vida, é neste
que aparece primeiramente a expressão o “Cavaleiro da Virgem”, quando da
reação de Paulo aos insultos de Pedro Borges à Virgem Maria, pois o
adolescente Prado Campos fizera a relação entre a Virgem Maria e Lisa
Maria:
“De estórias
suspeitas sobre padres, passara-se para o ridículo de determinadas
superstições, e intencionalmente se confundira este ridículo com de
certas crenças. Pedro Borges fizera questão de dar um exemplo: a
virgindade de Nossa Senhora. Dissera mesmo com ênfase no tom:
- Esse, mais do que todos os outros. Haverá mesmo, pergunto a vocês,
coisa mais ridícula, mais besta do que acreditar nisso?
Imediatamente Bráulio aprovara, completando a idéia:
-...Em pleno século XX...”
...Pedro Borges sentiu logo o ambiente predileto de suas habituais
bravatas. Ninguém tinha coragem de avançar, mas se arriscasse, todos
ririam, todos entrariam com ele. E muitos teriam coragem de dar um
passinho adiante, experimentando uma frasezinha mais ousada...
- O pobre do S. José é que sofre as conseqüências... – continuou Pedro
Borges. E o gracejo o levou a pronunciar em seguida palavras que mesmo
os mais ousados só acompanharam de longe, com risos fracos e olhares
incertos”.
A essa zombaria de Pedro Borges
imprime-se a revolta de Paulo Torres:
“Foi nesse instante
que, do canto do canto oposto, de punhos cerrados, os olhos
congestionados, com uma expressão de autêntico desvairado, alguém se
levantou para responder a Pedro Borges. (Atingira ele, então, nos seus
gracejos o limite máximo da inconveniência... )
Era Paulo. Olharam-no todos, surpresos, sem perceber ainda as razões do
verdadeiro pulo, dado do banco onde estava sentado. Paulo? Que tinha
ele? O que queria? O silencioso, o sempre alheio a tudo, o misteriosos
Paulo?...Que tinha a ver com aquilo? Jamais demonstrara ser católico ou
ter qualquer sentimento religioso. E, mesmo sendo em sinal de protesto
por que não o fizera logo de início?
No entanto, ninguém teve tempo de dar solução às questões propostas.
Aproximando-se de Pedro Borges, agarrara-o pelas abas do casaco e fora
logo diretamente às últimas:
- Porque você não cala essa boca imunda, seu...
E aos ouvidos atentos de todos, o insulto se fizera ouvir. Todos o
esperavam desde que começara a falar, mas, mesmo assim, o murmúrio foi
grande na sala. A voz era firme, ainda que traísse todo o seu esforço, e
ninguém duvidava de que aquilo não ia ficar apenas em simples
provocação”.
Esse episódio esclarece as
divergências entre Paulo Torres e Pedro Borges, no entanto, Paulo depois
de sair do Liceu Paulista, onde se ambienta o confronto, tornara-se
amigo de farras de Pedro Borges, daí ter este sido introduzido no
convívio dos habitantes da Chácara das Rosas. É, pois, no segundo
romance da série, que desponta já a loucura do protagonista do sexto
romance, mas a loucura é dos habitantes, cada um com suas (des) razões.
Embora o título do romance, Os
Loucos, já esclareça a temática, é necessário fazer alusão à
influência de Luigi Pirandello. Como afirmamos acima, a influência é
aqui entendida como um fenômeno intertextual, porque relaciona um texto
a outro, não apenas através de citações, mas, sobretudo, pelas
sugestões. É quando o narrador coloca o livro Henrique IV nas mãos de
Paulo Torres que percebemos a relevância da influência pirandelliana:
“Na manhã de
quinta-feira, o doutor Meira foi chamado com urgência à Chácara. Juliana
tivera uma “recaída” e quase não se agüentava de dores. Subiu a escada
lentamente, atravessou a varanda e, ao se dirigir para a porta da sala,
notou com espanto: numa das redes, Paulo cochilava, tendo um livro entre
as mãos. Inclinando-se, leu-lhe o título “Henrique IV” e o nome do
autor: Pirandello.
Aquele livro... Por certo já lera a famosa peça. Há muitos anos,
todavia. E não tinha bem presente à memória o detalhado desenrolar dos
acontecimentos. As linhas gerais haviam ficado e logo sentira as
relações profundas entre aquela estória e o drama que Paulo vivia.
Vítima de um acidente provocado, um homem enlouquece e acredita ser o
imperador Henrique IV da Alemanha. A ficção é sustentada pelos seus, mas
eis que depois de doze anos de loucura, ele recobra inesperadamente a
razão e percebe que a mulher vive com o rival e a vida acabou para ele
que envelheceu como Henrique IV. Uma tentativa de curá-lo, no entanto,
reúne os personagens do drama e o homem, depois de ter revelado a todos
sua volta à razão, mata o rival afortunado e volta a se fechar dentro de
sua loucura simulada”.
É a loucura simulada que resulta em
loucura real, à maneira de Pirandello e seu Henrique IV. Ambos, Paulo e
Henrique IV compreendem a loucura como uma necessidade, ela é uma arma,
é punição para àqueles que lhes imprimem o sofrimento. Para Michel
Foucault, loucura e simulação de loucura merecem o mesmo tratamento,
porque “loucura real e demência imitada se justapõem”, ambas
podendo ter a mesma origem, “uma vontade perversa”. Não obstante,
loucura e simulação mereçam o mesmo tratamento, ambas têm origens
diferentes em Paulo Torres, porque a loucura é legado e a simulação uma
espécie de necessidade, é o binômio causa e efeito que se coloca diante
do personagem, pois é a loucura gerando a simulação num movimento
indistinto, no qual Paulo Torres está indefeso, à mercê de seu organismo
fraco, que não resiste e cede espaço a demência, levando-o
conseqüentemente à Masmorra.
Um poeta dos tempos modernos (ou
seria pós-modernos?) dizia ter “conseguido seu equilíbrio cortejando
a insanidade”, o mesmo não se dá com Paulo Torres, que de tanto
cortejar a insanidade a alcançou, ela fora efeito desse cortejar, desse
espreitar: “aqueles desequilíbrios, aquelas palavras-símbolos,
aqueles acessos de quando em quando sem que se pudesse conter, o que
era aquilo, senão o caminho da loucura?”. Perde o controle aos
poucos, não conseguindo mais distinguir em que momento é a simulação e
em que momento é a doença que o ataca. É quando o personagem perde as
rédeas da situação que a loucura se constata, porque ele perde a
consciência de seu “eu”, vai perdendo aos poucos a consciência de sua
existência, do seu lugar na Chácara das Rosas, na realidade que se
exterioriza a este ambiente. O que Paulo Torres perde é a consciência de
sua realidade pessoal, desconhecendo os limites que se impõe,
estabelecendo um mundo permeado de “escuridão” e solidão em que se
proclamaria o “Reino do Prata”.
Todavia, n’Os Loucos, há
fatores da vida dos personagens que são preponderantes para que a
insanidade se instale, o abandono de Deus e da religião. É a cegueira do
mundo descrente que compõe o quadro mais cruel da ficção octaviana,
porque ele fecha todas as saídas, não há uma fresta através da qual seus
personagens possam respirar. A saída, se há, é única, é Deus, é o
retorno à fé, é o reconhecimento da existência dessa força divina,
sempre superior, artífice da humanidade. Octávio de Faria, no afã de
desvelar a humanidade de seus personagens, parece nos colocar diante do
Satã de Milton, quando este assegura no Paraíso Perdido que: “Reinar
no Inferno preferir nos cumpre/ À vileza de ser no Céu escravos”. É
provável que mesmo a loucura advenha dessa escolha, pois preterem Deus
em detrimento do Mundo. Diante da segurança dessa escolha, são corroídos
pelos “mecanismos do mundo”, possuidores de uma força bem maior do que
supunha seus personagens.
A simulação de que se vale Paulo para
tentar salvar a prima da sedução de Pedro Borges tem por objetivo
amedrontar o sedutor. Porque os loucos causam medo, e sobre isso afirma
Henrique IV:
“Por que sabem o
que significa estar diante de um louco? Significa estar diante de alguém
que abala nas bases tudo o que vocês construíram em vocês mesmo, ao seu
redor, a lógica, a lógica de todas as suas construções! - Eh! O que
querem? Os loucos, bem-aventurados os loucos, podem construir sem lógica
Ou com uma lógica própria que flutua como uma pena”.
Esse desabafo de Henrique IV, depois
de recuperar a lucidez, fora feito sob o medo dos participantes de sua
corte, sob o pasmo de o saber curado e ainda assim continuar achando que
aquele lampejo de lucidez era resquício da loucura que o acometera. O
personagem de Octávio de Faria também cria para si uma corte, em que ele
é o Monarca do Prata; Pedro Borges é o conde traidor, aquele que lhe
rouba a amada e a fez condessa. E mesmo a existência de um vingador,
intitulado de o “Cavaleiro da Virgem”, que remete a esse universo
paralelo criado pela loucura:
“De um lado para
outro, ao longo das alamedas, à sombra da vegetação do morro, o “plano”
progride. A “campanha” se delineia. Todos os estudos estão feitos,
tratados foram consultados: os esquemas se acham estabelecidos, os
“papéis” distribuídos. Reinos imaginários, títulos de nobreza, símbolos
e alegorias, nada ficou esquecido. Um príncipe aloucado evoluiria entre
os vilões e traidores, em defesa de uma “condessa” ameaçada pelas
intrigas e pela sedução de um “conde-Judas”. Todo um mundo de fantasia e
irrealidade, bordejando o horror da realidade presente, do perigo
iminente.
Tudo está preparado, minuciosamente estudado para que, a qualquer
momento, o “plano” seja posto em execução. No coração da mata, em plena
agonia da espera, Paulo se agita, sem sono, sem descanso. Todos o
observam, apontam as transformações de seus hábitos, a visível alteração
de sua saúde. Magro, insone, fumando incessantemente, sem poder esconder
as freqüentes dores de cabeça, assusta a todos. Ninguém o compreende,
porém. Ninguém lhe diz uma palavra que alivie seu penar. Ninguém sequer
percebe nele a máquina solta, a engrenagem desencadeada...
Alguns termos utilizados por Paulo
Torres correspondem ao mesmo eixo semântico, utilizado por Pirandello
para construir a corte de Henrique IV. Neste temos a presença de um
marquês, de uma marquesa, de uns cortesãos, de um barão, etc. N’Os
Loucos, acompanhamos Paulo Torres transformar a Chácara em Reino e
atribuir a cada um dos habitantes um título de nobreza. Ele é o monarca;
Pedro Borges, o conde; Lisa Maria, a condessa; D. Leonor, a
arquiduquesa; os empregados são os conselheiros secretos e até os cães,
Peludo e Selva, fazem parte do exército do Reino do Prata. E é na
fantasia da existência deste “reino” que Paulo sucumbe ao delírio e
enlouquece. Não obstante, o reino será reinstalado na casa de saúde ou
na masmorra para onde se dirigiria Paulo Torres depois dos trágicos
acontecimentos que marcaram a Chácara das Rosas.
Nas 3 Novelas da Masmorra, o
autor retoma a saga de Paulo Torres e a temática da loucura, concebendo,
porém, um livro que se situa fora da Tragédia Burguesa. O
romancista não volta, através dessas novelas, simplesmente para retomar
a loucura já amplamente trabalhada n’Os Loucos, prossegue para
ratificar que o exame é ilimitado e que o mistério que envolve o destino
de suas criaturas é infinito, é o drama da condição humana e da
subjetividade se desenrolando numa atmosfera de sondagem psicológica,
obscura e de angústia.
Aquele mesmo Paulo Torres, que
protagonizara o romance, ressurge nessas novelas com o nome de Pedro
Paulo Perdigão, junção mais que evidente do protagonista e do
antagonista, mas em que não se fundem o destino e muito menos as
atitudes. Como bem expressa o título do livro, ele se compõe de três
novelas, que supostamente foram enviadas de uma masmorra para serem
editadas. Desta forma, Octávio de Faria aparecia apenas como o editor e
o personagem, Pedro Paulo Perdigão, seria o autor. Numa pequena nota
anterior ao início do livro, o “editor” esclarece:
“Essas estranhas
e, por vezes, tão contraditórias páginas de diário, de datas tão
esdrúxulas, que me vieram ter às mãos nem sei bem como, publico-as sob a
forma de “novelas” e tal qual as recebi. Julgará o leitor se tive razão
de fazê-lo.
Sinto-me à vontade, ao divulgá-las. No envelope, dentro do qual me
chegaram, só havia escrito, além do meu nome e endereço, este “note bene”.
“Publique, se quiser e julgar interessante. Exijo, porém, que não altere
o título geral: “Memórias de Um Cão Danado”. E, de forma alguma revele o
nome e o endereço da “Masmorra” onde me atiraram e de onde escrevo,
iludindo a vigilância do Grande-Cão.” Nenhuma assinatura. Nenhuma outra
indicação. Nem mesmo, ao fim das páginas escritas à mão, e com letra que
bem merece um estudo grafológico, uma rubrica qualquer”.
Na “note bene” acima, o autor,
Octávio de Faria, utiliza um artifício para eximir-se da autoria, pois
atribui a “outro” as novelas. Assim, se o autor não é Octávio de Faria,
verifica-se, portanto, a existência de um pseudo-autor, isto é, Paulo
Torres. As novelas seriam uma autobiografia, mas como o gênero
autobiográfico exige que o autor seja uma pessoa real, temos uma
pseudo-autobiografia, já que Paulo é o pseudo-autor, e essas novelas
nada mais são que a continuação de seu drama pessoal, a loucura
crescendo em torno de obsessões. É delas que surgem os cães que
perseguiam Pedro Paulo Perdigão, que surge o “outro” ou o “duplo” Paulo
Pedro Perdigão e que aparece também o problema da idolatria refletida na
imagem de um “gato selvagem” encarnado na figura de um menino.
Essas novelas têm matizes
memorialistas, em que se misturam o real e o irreal, sempre em tensão,
em choque, criando uma fusão de imagens e ocorrências da vida do
personagem. A primeira novela apresenta um pouco da infância de Pedro
Paulo Perdigão, e as outras duas são um crescente de vida e de
linguagem, pois à medida que o menino se torna adulto, a linguagem e os
artifícios literários ganham em intensidade dramática. Enquanto o menino
Pedro Paulo era atormentado pela imagem de cães, sobretudo uma imagem de
cão inspirada no Cão dos Baskervilles, de Conan Doyle, com seus
grandes olhos luminosos, o adulto e já casado Pedro Paulo é perseguido
por seu duplo, por sua auto-imagem que preenche todas as suas falhas
humanas no casamento, no trabalho, enfim, na vida. Na terceira novela,
no entanto, encontramos o pseudo-autor das novelas numa casa de saúde,
como Paulo Torres, perseguido pela obsessão da existência de um
menino-gato, que seria a encarnação do anticristo. É esta novela que
mais bem retrata o ambiente d’Os Loucos, porque nela encontramos
o médico, o padre, a casa de saúde, ambos em luta contra as alucinações
e a crescente loucura do personagem.
Segundo Sigmund Freud, “as idéias
obsessivas, como bem se sabe, têm aparência de não possuírem nem motivo
nem significação, tal como os sonhos”.
A partir dessa citação de Freud podemos perceber o quão importante é a
relação existente entre as 3 Novelas da Masmorra e Os Loucos,
porquanto só compreendemos as idéias obsessivas se entendermos que antes
de ser o pseudo-autor Pedro Paulo Perdigão, ele era Paulo Torres, aquele
que fora cruelmente humilhado por Pedro Borges e desacreditado por sua
família. É a perda da individualidade e da identidade de Paulo Torres
que possibilita a concepção de um “outro”, Pedro Paulo Perdigão. Freud
continua sua explanação acerca das idéias obsessivas utilizando a
temporalidade como fator possível de explicação, pois “a solução se
dá ao se levar as idéias obsessivas a uma relação temporal com as
experiências do paciente, quer dizer, ao se indagar quando uma idéia
obsessiva particular fez sua primeira aparição em que circunstâncias
externas ela está apta a voltar a ocorrer”.
Essa relação temporal é relevante para o autor, Octávio de Faria,
mas também o é para o personagem Paulo Torres, pseudo-autor das novelas.
Contudo, para o leitor familiarizado com as obras de Octávio de Faria,
a conexão entre os dois livros é relevante para explicar principalmente
a razão que situa e efetiva Paulo Torres como autor das novelas, pois
como afirma Michel Foucault, o autor deve ser entendido como “aquele
que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de
coerência, sua inserção no real”.
A inquietação, percebida nas novelas, só ganha coerência se antes
conhecermos a história de Paulo Torres, Pedro Paulo Perdigão, apesar do
discurso obsessivo que se lhe imprime na linguagem utilizada, só é
aceitável como pseudo-autor se nos voltarmos para Paulo Torres e
compreendermos o quanto Pedro Borges fora responsável por sua desgraçada
sina.
De sua relação com os cães, afirma
Pedro Paulo Perdigão: “Se em outra encarnação eu existi - e por que
não? - devo ter sido cão. Desde que me entendo, sempre tive com a raça
dos cães relações estranhas”. A partir desta constatação, o autor
(que fique claro, quando em relação a estas novelas nos referirmos ao
“autor”, aludimos ao personagem) declara: “Deveria mesmo escrever um
capítulo de autobiografia com este título: dos cães e dos bêbados; e da
obsessão de ambos por mim”. Essas citações retiradas do início das
3 Novelas da Masmorra, mais especificamente da primeira novela,
“Memórias de um Cão Danado”, evidenciam a consciência obsessiva de seu
autor, pois ele esclarece que além dos cães, sua obsessão maior, há os
bêbados que também o perseguem.
Os cães são nomeados de Peludo,
Selva, Balu, Zago e Plutão. Os dois primeiros são também os cães de
Paulo Torres: “Brinca com Selva, nota a ausência de Peludo - alguma
infidelidade em longínqua vizinhança?”, nas novelas, porém, são os
que perseguem Pedro Paulo. Todos esses cães precedem a aparição de sua
maior obsessão, o Grande-Cão. Este, para o protagonista e autor, tem
características humanas: “Quando o Grande-Cão se postou frente a mim,
todo sorrisos e disfarces, percebi: era preciso atacá-lo logo, logo,
antes que me avançasse”. Podemos, recorrendo ao romance Os Loucos,
identificar essas características em Pedro Borges:
“- Sim, digno de
Lisa Maria. E por que não?
- Porque se trata de um cão!
- Durante todo esse tempo, nada vi, nada ouvi que merecesse repreensão.
Pelo contrário. Melhor seria impossível!
- Fingimento! Fingimento puro... puro fingimento!
- Como, meu filho? Como seria possível fingir a esse ponto? Vivemos lado
a lado pelo menos duas horas por dia!
- É justamente isso! Pedro Borges é isso, esse fingimento perfeito, essa
habilidade diabólica.”.
E é este Grande-Cão que é
violentamente atacado por Pedro Paulo Perdigão:
“Ataquei.
Violento, forte, aguçado, rasgando de alto a baixo as pálidas e
ressequidas carne do Grande-Cão. Vi filetes de sangue escorrendo -
sangue pobre, morno. Vi carne dilacerada - triste, fraca. Ouvi gritos de
dor, gemidos, ganidos, lamentações. E não soube e não compreendi mais
nada. Apenas, que me havia vingado do mundo e estava, enfim, livre. Eis
porque escrevi, relatando tudo o que me sucedeu, na esperança de que,
talvez, algum dia, das minhas angústias e dos meus inúteis sofrimentos,
alguém dê testemunho justo, honesto, para proteger e salvar os que se
vêem injustamente condenados à rigorosa inumanidade da “Masmorra”.
O ataque que o personagem/autor
imprime ao Grande-cão é causado pelo desequilíbrio de seu temperamento,
é a loucura ainda instalada e a vontade de vingança. Todavia, é pelo
discurso criado que Paulo Torres consegue expurgar seus fantasmas, é
através da escrita que ele conseguiria voltar a sua realidade, saindo da
masmorra e elaborando um plano que acabaria de vez com esse Grande-Cão
(Pedro Borges). Por meio desse plano, o assassinato, é ele quem sucumbe
e é morto pelo Grande-Cão*.
Na segunda novela, “O Outro”,
deparamo-nos novamente com a sugestão da autobiografia, em que Pedro
Paulo Perdigão faz um pacto com o leitor, jurando dizer a verdade, nada
mais que a verdade. Esse pacto é aquele que o teórico francês Philippe
Lejeune define como “pacto referencial”, “pacto” em que o autor se
compromete a dizer a verdade, estabelecendo um vínculo entre a realidade
e a autobiografia. Celina Fontenele Garcia, em Poética do
Memorialismo, afirma:
“O pacto
referencial, no caso da autobiografia, é em geral co-extensivo ao pacto
autobiográfico, difícil de dissociar, exatamente, como o sujeito da
enunciação e do enunciado na primeira pessoa. A fórmula seria não mais
“eu, abaixo assinado”, mas “eu juro dizer toda a verdade, nada além da
verdade”. O juramento se reveste de uma forma simples, se restringe ao
possível, a verdade tal como me aparece, na medida em que posso
conhecê-la, fazendo parte dessa restrição os inevitáveis esquecimentos,
os erros e as deformações involuntárias, etc. e também, assinalar
explicitamente, o campo ao qual esse juramento se aplica”.
O pacto referencial se aplica ao caso
das 3 Novelas da Masmorra, haja vista Pedro Paulo Perdigão se
comprometer com o leitor a dizer a verdade. Esse compromisso com a
verdade é a expressão máxima da subjetividade enlouquecida de Pedro
Paulo Perdigão, por que é na relação entre realidade ficção que se
instaura a referencialidade do texto, o que caracteriza a autobiografia.
O autor das novelas é um pseudo-autor, já que é um personagem criado por
Octávio de Faria. É, por conseguinte, de uma pseudo-autobiografia que
tratamos aqui, que explana aspectos de uma realidade exterior. É na
segunda novela, contudo, que Pedro Paulo Perdigão firma seu pacto com o
leitor:
“Apelo para que
me creiam. Apelo que esqueçam, por alguns minutos, que estou numa casa
para doentes mentais e prestem atenção, apenas, ao que vou contar, ao
depoimento que pretendo prestar, meu testemunho é sincero. Falo em
espírito de verdade. E falo como se estivesse sozinho, diante de Deus,
no julgamento último. Acreditem, pois, no que vou dizer. Aliás, nessa
altura da vida, depois do que me sucedeu, de que valeria enganar,
mentir? Nem pensem que meu intuito é recuperar a liberdade. Lá fora como
aqui dentro, tudo é vazio para mim. Tudo é prisão. Quero que não me
julguem “louco”, somente porque minha história é um pouco mais estranha
do que costumam ser as histórias dos romances e das novelas que se lêem
com espírito crédulo, disposto a todas as aceitações.
Falarei com inteira simplicidade e sem usar de artifícios de
ficcionista. Peço apenas que tenham confiança em mim, na minha
sinceridade, no compromisso que assumo: é como se estivesse diante de
Deus que eu, Pedro Paulo Perdigão, vou testemunhar...”
Comprova-se, portanto, o
comprometimento com a verdade, mas em nenhum momento o pseudo-autor
confronta realidade e ficção. Mesmo quando assevera não usar de
“artifícios de ficcionista”, é dado ao leitor, participante ativo das
novelas, já que elas são registradas como um testemunho de vida, o poder
de julgar a veracidade do texto de que se faz juiz. É dado ao leitor o
poder de aquilatar o testemunho de Pedro Paulo Perdigão, como se este
poder facultasse, de fato, ao autor a possibilidade de liberdade
almejada por ele, porque a prisão pressupõe o desejo de liberdade.
“O Gato Selvagem ou As Meninas da
Curva do S” é a terceira e última novela. Acreditamos que todo texto
traz sua própria chave, pensamos que esta novela é circunstancial, pois
que é nela que vemos culminar o mistério da loucura de Pedro Paulo
Perdigão. A figura de um menino como um menino-gato, encarnação do mal,
é peça chave da loucura, porque ele encarna o anticristo e
conseqüentemente retoma a temática da crise espiritual, mote da
Tragédia Burguesa, de que são egressas as Novelas da Masmorra.
No entanto, essa crise espiritual se deflagra em virtude do aparecimento
da expressão “Ídolos Brancos”, em que o problema da idolatria é
amplamente explorado e apontado como motivo principal da insanidade de
Pedro Paulo Perdigão. É através dos “Ídolos Brancos” que o personagem
completara seu percurso, isto é, ele fora definitivamente da Chácara à
Masmorra. À “masmorra”, nesta novela, é atribuído um poder aterrador,
como se fosse uma espécie de cúmplice das forças do mal:
“E são poderosas
as forças da Masmorra. Contra elas - contra seu poder discreto, sua
desfaçatez, seus secretos informes, sua incessante espionagem -, pode
bem pouco a nossa débil ingenuidade. Imaginamos. Pouca coisa mais do que
imaginar conseguimos, no decurso de nossas turbulentas e vãs
manifestações. De concreto, nada logramos. Esbarramos. Esbarramos
sempre. E, de nossos sonhos, por mais belos e generosos sejam, não fica,
no mais das vezes, senão sombra e cinza - mais cinza ainda do que
sombra”.
O homem Pedro Paulo Perdigão fora
destruído, seus sonhos todos se esvaíram por meio de suas obsessões, de
sua loucura. O escritor português Raul Brandão em sua obra-prima diz que
“a vida é muito maior pelo sonho do que pela realidade”. Então,
diante desta afirmação, o que restara a Pedro Paulo Perdigão? Se nem
mesmo os sonhos ele poderia cultivar, a saída era a idolatria, a
fantasia transformada em luta contra uma força imaginária que o
degradara lentamente, por esta razão o personagem perguntara a Padre
André:
“Mas então,
padre, a quem eu adoro? Por que, afinal, todo homem adora alguma
coisa?...
- Não é a Deus que você adora. É aos ídolos brancos, acima de tudo...
Detive-me eu, mas não se deteve ele que logo encadeou:” - Quando
deformado, não há nada pior do que o mito da pureza. Suas vítimas são
incontáveis. E foi por isso que eu lhe disse que tinha muita pena dos
adoradores de ídolos brancos...” Perguntei, tímido: - “Mas quem são
esses adoradores de ídolos brancos?” - “Nós todos”, respondeu-me ele.
“Nós todos... Você, para não irmos mais longe...”
Ora, “O Gato Selvagem ou As Meninas
da Curva do S” reflete uma realidade que é comum a todo o homem, a
idolatria. Se não é a Deus que idolatramos, escolhemos algo que se possa
idolatrar, porque se somos todos “adoradores dos ídolos brancos”, essa
adoração é já uma necessidade. Os Loucos e as 3 Novelas da
Masmorra refletem a loucura crescente de um personagem, mostrando
que o caminho da Chácara à Masmorra tornara-se bem mais curto do que ele
supunha. Fora por meio da idolatria que Paulo Torres, depois Pedro Paulo
Perdigão e Paulo Pedro Perdigão, conseguiram trilhar inconscientemente
esse percurso.
Não é por mera coincidência que a
prosa de Octávio de Faria converge para a temática da loucura, da
idolatria. Se o autor acreditava realmente que a crise de sua época era
uma crise espiritual, nada mais conveniente do que apontar o fulcro
dessa crise, o próprio homem. É este que se perde de Deus no trajeto que
escolhera. Perdendo Deus, contudo, resta-lhe à fantasia de acercar-se
das vacuidades da vida, dos prazeres. Mas essa fantasia não é sonho.
Essa fantasia é a loucura, porque esta representa a vida. Indigna?
Talvez.
Portanto, Octávio de Faria concebe a
loucura como fonte de vida para o personagem Paulo Torres, porquanto é
através da loucura que ele conseguira sobreviver. Cultivando os lampejos
de lucidez, apontando e reconhecendo o que os sãos não conseguem
enxergar. É por meio da loucura que a vida dos personagens tem sentido.
Um mundo paralelo. Uma vida paralela. Uma vida para além daquilo que se
chama vida, que retoma o mundo à sua maneira e a recria da forma que lhe
apraz. Paulo Torres ao se transformar em Pedro Paulo Perdigão ou Paulo
Pedro Perdigão adentra no universo paralelo, no qual Pedro Borges deixa
de se nomear, uma vez que ele se transformara em obsessões, em cães, em
bêbados, em múltiplos, em menino-gato, em ídolos brancos. Pedro é uma
paixão pelo avesso e Paulo é o avesso dessa paixão, ambos possibilidades
sempre em tensão.
BIBLIOGRAFIA
FARIA, Octávio. Os Loucos. In: Tragédia Burguesa: Obra
Completa. Tomo II Org. Afrânio Coutinho. RJ: Pallas; Brasília:
INL, 1985. p. 12.
|