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A figura do pai
na obra Dois Irmãos de Milton Hatoum
solange rebuzzi

Dedico meu texto
aos habitantes do sul do Líbano
“Estava
envelhecendo, o Halim: uns setenta e tantos, quase oitenta, nem ele
sabia o dia e o ano do nascimento. Dizia: “Nasci no fim do século
passado, em algum dia de janeiro... A vantagem é que vou envelhecendo
sem saber minha idade: sina de imigrante.”
A sina é de imigrante e um certo não saber é a vantagem da
“idade” chegando, em país estrangeiro. Um estranhamento com datas, e
determinado, possivelmente, pelas mudanças oriundas da língua e por um
calendário que anda diferente, pois carrega a vida “menos sazonal e
estabelecida do que a vida em casa”,
já que o exílio é a vida descentrada.
Descrever o personagem de um livro é tarefa difícil. E
encontrar os significantes que possam defini-lo me parece ser um caminho
distinto do meu projeto neste texto. Decido investigar a questão sobre a
figura paterna, indo ao encontro de Halim, este que é o pai de três
filhos – os gêmeos Osmar e Yaqub, e Rânia, na obra Dois Irmãos de
Milton Hatoum.
Priorizo escutar as vozes do escrito, especialmente a voz de
um pai:
“... um pai...eu
nunca soube o que significa... não conheci nem pai nem mãe... vim para o
Brasil com um tio, o Fadel. Eu tinha uns doze anos... ele foi embora,
desapareceu, me deixou sozinho num quarto da Pensão do Oriente... me
agarrei na Zana, quis tudo... até o impossível.”
No papel do narrador está algo da errância que a escrita
experimenta ao se fazer obra. Digo que o narrador, no texto, faz a sua
própria travessia. São narrativas de memória que a voz deslocada do
autor vai confirmando, em sua estrangeiridade, ao longo dos temas que
aborda: a dor, o exílio, a infância, a migração, a vida manauara em
certa época (ao redor das décadas de 50 e 60). E a nós, leitores
atentos, essa voz revela-se em trânsito, no encontro desencontrado com
este imigrante – Halim, que anda ao encalço da voz estrangeira na
esteira das histórias e dos versos contados, ou escritos pelas mãos do
poeta Abbas, um personagem que assim como ele vivia navegando no
Amazonas.
Hatoum compõe sua trama e faz conviver memórias em
desarmonia. Elas nos chegam com detalhes, enquanto nos comovemos com a
história de imigrantes libaneses que vieram viver em Manaus. As cenas
recortadas pela escrita compõem os cheiros e delicadezas desde “o bafo
de anis na boca, e um ou dois dísticos de amor na ponta língua”
até o vento que entra pela fresta de “uma janelinha que dá para o rio
negro”,
onde “uma brisa soprava do rio, trazendo o pitiú de peixe, o cheiro de
frutas e pimenta”. Somos capturados pela região de nossos sentidos que
nos abrem um mundo de sutilezas e gostos, inclusive os insabidos. Um
mundo onde não há Oriente nem Ocidente porque o que sentimos, antes de
tudo, é da ordem do humano. Tanto quanto no conto As Mil e uma
noites, nas histórias que carregam muitos fios, nós somos capturados
pela memória inventiva que nos atravessa.
Retomemos o
fio...
Halim constituiu família em Manaus casando-se com Zana, a filha de olhos
grandes de Galib, o dono de um restaurante na cidade no início do século
XX, local de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus
marroquinos, que viviam perto da Praça N. Sra. dos Remédios, nesta
época.
Foi com a escrita em árabe – um gazal
de quinze dísticos rimados – e ofertados a Zana, em meio ao alvoroço
do almoço de um sábado, que se oficializou esta relação amorosa. O fato
foi vivido como uma revelação, e assim é relatado em meio a outros
tantos que acontecem “em dias esparsos aos pedaços”, como “retalhos de
um tecido “sonoro””, que nomeiam Halim: “um flâneur da
província”, que gostava de pitar o bico do narguilé, contando e
recontando suas histórias.
Repito que ele gostava de dizer os
versos do poeta Abbas: “algaravias do desejo” com espaços de “silêncios
projetados na fumaça que nublava seu rosto,” no intervalo preciso, e,
concomitantemente ao sumiço da voz.
Pergunto:
Onde procuramos os traços de uma memória de travessia? Jacques Derrida
nos ensina que “nunca se fala mais que uma língua”
e “nunca se fala uma só língua”.
Recebemos no corpo as marcas que podem permanecer como feridas inscritas
em nosso corpo. E estamos falando e nomeando, inclusive, o corpo da
língua e a escrita.
De um pai, desde este lugar
estranho-estrangeiro, algumas expressões e comportamentos comovem.
Alguma coisa que passa invisível, lentamente, e pode ser transmitida
pela “diagonal do tempo”,
“do pai do pai”,
ou conforme dizemos na psicanálise, como um traço identificatório
(inconsciente) que pode ser levado de uma geração a outra, pela voz de
um pai, por exemplo.
Quando o autor Milton Hatoum declara em entrevista que,
escreve, faz e refaz seu texto, recortando palavras e excluindo trechos,
até definir-se com as que, ao seu olhar, conseguem traduzir algo também
de uma perda, podemos considerar que o que trabalha no escrito
deste autor, obriga-o, e dá a direção ao texto, pois a voz de um escrito
se impõe.
O pai Halim está apresentado ao leitor, de forma diferente
na relação com cada filho. E quando surge no lugar do pai do pai,
ou seja, do avô, aparece mais liberto e mais aberto em suas
considerações e memórias. Recolhemos as palavras ditas pelo neto, o
narrador que nos fala (contando momentos difíceis vividos logo após a
morte de Galib, o pai de Zana):
“Deitados na rede, conversavam sobre Galid, a infância de Zana em Biblos,
interrompida aos seis anos, quando ela e o pai embarcaram para o Brasil.
O pai a levava para banhar-se no Mediterrâneo, depois caminhavam juntos
pelas aldeias, (...) visitavam amigos e conhecidos cristãos.”
Acende-se no texto a cena familiar de uma despedida: “A beleza
misteriosa, bíblica, dos cedros milenares nas ondulações brancas às
vezes douradas pelo sol invernal” além das misturas de um banho de mar e
crenças distintas. Zana, aqui configurando seu luto, traz a imagem do
próprio pai e os gestos que o habitavam no momento de despedida de seu
lar no Líbano, cidade perdida, para no momento seguinte retomar outros
fios, lembrando–se que os dois juntos, contemplavam o mar e um rochedo
escuro. No gesto e no movimento do corpo em ato de manifestação, algo
muito singular que mora nas memórias de Zana, agora compartidas com o
marido Halim, nos transportam por instantes breves em cena
cinematográfica, para outras terras... outros chãos...
Mais além da memória e da perda, o
que podemos encontrar? Seria a própria cena de um véu que se toma
de sombras? Ou os fantasmas que as imagens do sofrimento acordam,
inclusive, no leitor?
O exílio que foi reconhecido por
Edward Said em seus estudos, como “uma fratura incurável entre um ser
humano e um lugar natal”,
não é compreensível do ponto de vista de nossa humanidade. Há algo que
emudece irremediavelmente aí, por mais que se fale na literatura desta
experiência secular, vivida ao longo da história. Os exilados estão
separados das raízes da terra natal, de um passado definitivo, e da
língua mãe; mesmo em suas lembranças, algo está morto.
A vida pode ser tão escassa,
especialmente para aqueles, que na “loucura” da história familiar de um
luto, da perda da Pátria-mãe, nunca completamente elaborada, são
colocados a tamponar a falta do Outro, e permanecem presos neste lugar
sem saber.
No texto de Hatoum, Zana - a mãe –
encarna o lugar de morada, mas também de alguma loucura. São as palavras
do Pai, primeiro as de seu próprio pai, e, depois as do pai de seus
filhos, que irão firmar alguma lei nesta família. E também será com as
palavras de Halim, que Zana é reconhecida como morada, inclusive para
ele próprio, em momentos de extremo sofrimento; o refúgio do amor no
corpo da amada: “...Zana entrou no quarto e me viu nu na rede. Me viu e
entendeu. Declamei umas palavras do Abbas... Era a senha...”
Ao mesmo tempo em que acalma os
próprios pesares na cena de intimidade vivida no embalo da rede, Halim
consagra ao leitor suas dúvidas e angústias enquanto um pai. Eis que os
filhos homens, os gêmeos Yaqub e Osmar, somam seus contrários de
excessos e restrições, impulsividade e concisão.
De um pai, na experiência com a
paternidade, Lacan constrói que “a relação de procriação está, com
efeito, implicada na relação do sujeito com a morte”.
Ao filho, na maneira como ele se colocará diante do desejo ou não dos
pais, “algo conserva a marca do fato de que o desejo não existia antes
de certa data”,
ou seja, o filho carregará a marca do desejo do Outro em sua
fantasmática.
Mas, diante de uma mãe que enlouquece e se distancia,
histericamente, e que depois do nascimento dos filhos, cola-se ao filho
Caçula (o gêmeo que nasceu depois), o pai pouco fez. Em algumas
situações, resta aos sujeitos na cena assujeitados, tornarem-se
perversos ou diabólicos, usando as expressões de Hanna Arendt,
recuperadas por Derrida, no livro O monolinguismo do outro.
Supomos, portanto, que o livro de
Hatoum nos esclarece pontos importantes deste lugar do Pai, função
paterna, e também de sua voz. No início do Seminário Os nomes do pai/
Des noms du père, Lacan anuncia que não será possível explicar de
imediato, o porquê deste plural. A seguir, faz a relação deste seminário
com outros,
vários outros já dados, para anunciar o passo seguinte: a saber, que
este plural diz respeito ao desdobramento, em diferentes níveis, da
função do nome do pai. Então, não mais uma figura paterna, mas uma
função. Desde o pai primordial de antes do interdito do incesto (o pai
freudiano, o pai totem) até o pai de depois do totem. O plural
dos nomes-do-pai teria a significação de repor em jogo o equívoco, ou
melhor, o enigma do saber; um saber que falha, um saber não-todo.
Ao que buscamos construir que existe
um caminho de tropeços e surpresas para cada pai diante de cada filho,
pois há um pai enquanto sujeito que fala e há a angústia que não é sem
objeto. Há ainda, nestas passagens, momentos insondáveis, que dizem
respeito inclusive ao nome de Deus.
Assim é que as palavras e decisões
deste pai Halim, podem montar cenas distintas e inesperadas. Algumas
delas se abrem e se fecham epifânicas, e outras são quase bíblicas. No
livro, os filhos gêmeos são separados um do outro, durante alguns anos
logo no início da adolescência, pela decisão do pai de mandar Yaqub para
o Líbano, depois de uma briga muito violenta entre os dois.
Após o desespero da cena, a voz do
pai intervem e faz alguma barra, pois afasta os irmãos gêmeos, e manda o
mais velho de volta à terra natal de seus ancestrais, deixando-o lá em
silêncio, durante alguns anos. Sem conseguir alcançar e interditar o
filho nomeado o Caçula, Halim às vezes se desespera. Na pressão de suas
palavras confirma-se um lugar sem lugar. Lugar onde, possivelmente, se
instalou o caçula Osmar: “o filho de minha mulher”. Pois, se algo da
ordem da estranheza fica fora da alçada paterna, podemos ouvir Halim nos
seus lamentos em voz alta: “Parece que o diabo torce para que uma mãe
escolha um filho...” e, parece-nos enquanto leitores, que o texto vem
confirmar o estranho-familiar, situando-o neste lugar de desconforto,
inominável.
Halim advertiu a esposa sobre os
excessos de zelo com o Caçula, mas não conseguiu impedir esses excessos.
Não suportava ouvir os cochichos de Zana com o filho, repetia parecendo
falar sozinho: “Tu entendes isso? Entendes?” Distanciado do jogo desta
sedução e com dificuldade de interrompê-lo, o pai chegou a cometer atos
bárbaros. Mas aqui, não iremos nos deter nos enlouquecidos atos que esta
narrativa testemunha.
Reconhecemos que o testemunho vem
dizer de um ato, onde a língua tem sua função. Algumas vezes o ato
atravessa silêncios, e se faz construtor de dignidades em situações
ímpares. Segundo Hanna Arendt “a língua há de ser mais e outra coisa que
uma ferramenta que permaneça todo o tempo, “sempre”, única, através dos
deslocamentos e dos exílios”.
O pai Halim, deslocado na língua, busca recuperá-la com os versos
repetidos e rimados da melodia conhecida árabe: o gazal. Quem
sabe se não o faz para conservar consigo um ritmo da terra mãe.
Lembramos que não é por acaso, que a
língua no norte do Brasil, especialmente, é falada mais lenta, em ritmo
suado e descansado. Além disso, não há como não reconhecer que o povo da
região do Amazonas é receptivo à dimensão sensorial das palavras
(facilitador destas misturas de sons e/ou dialetos). Há também na
mistura dos sabores, algo peculiar e familiar entre as pimentas
exóticas, em uma tradução saborosa de “oriente-amazônico”
no qual tudo parece fazer “parte de um pêndulo: mágico que aludia a um
outro tempo a um outro espaço”.
Seguimos priorizando as vozes, e
agora um balbucio nos chega pela voz da avó Zana, pouco antes de morrer.
O balbucio que é da ordem da linguagem enquanto marca primeira e
definitiva:
“pois soprou nomes
e palavras em árabe que eu conhecia: a vida, Halim. meus filhos, Omar.
Notei no seu rosto o esforço, a força para murmurar uma frase em
português, como se a partir daquele momento apenas a língua materna
fosse sobreviver. Mas quando Zana procurou minhas mãos conseguiu
balbuciar: Nael...querido...”
É
que o narrador, neste momento da história, é reconhecido e é nomeado
pela primeira vez. Nael, o que testemunha e que vai viver e contar o que
viu e ouviu 30 anos antes.
Cito:
“Ele me levava para
um boteco na ponta da Cidade Flutuante. Dali podíamos ver os barrancos
dos Educandos, o imenso igarapé que separa o bairro anfíbio do centro de
Manaus. Era a hora do alvoroço. O labirinto das casas erguidas sobre
troncos fervilhava: um enxame de canoas navegava ao redor das casa
flutuantes, os moradores chegavam do trabalho, caminhavam em fila sobre
as tábuas estreitas, que formam uma teia de circulação. (...) Um outro
sumia na escuridão do rio e virava notícia.”
Buscando abrir caminho, nas memórias
entrecruzadas, segue sendo inevitável no percurso do próprio narrador os
acontecimentos que dão lugar à voz de uma raiz bem brasileira: a de sua
mãe Domingas, a índia que servia na casa, a que foi dada ao casal Zana e
Halim, no início da vida matrimonial deles. Uma índia que sabia nomear
os “pássaros que triscavam a água escura: as batuíras e as jaçanãs”,
pois nasceu à margem do rio Jurubaxi, um braço do rio Negro.
No marco de tensão e na força da
pontuação, onde está a singularidade musical do texto, na “palavra como
uma melodia perdida”,
podemos
perceber a singularidade da voz deste escrito (uma espécie de modulação
semântica que tem relação com o estilo do escritor):
“O oceano, a
travessia...Como tudo era tão distante!”, lamentou Halim. ‘ Quando
alguém morria no outro lado do mundo, era como se desaparecesse numa
guerra, num naufrágio. Nossos olhos não contemplavam o morto, não havia
nenhum ritual. Nada. Só um telegrama, uma carta... A minha maior falha
foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meus parentes”, disse
com uma voz sussurrante, Mas Zana quis assim... ela decidiu.”
(silêncio)
Escolho encerrar este texto, dando
voz ao escritor Milton Hatoum, com palavras recolhidas de uma entrevista
onde a cena familiar traz um fragmento importante de sua história. Ele
está diante de seu pai em um silêncio que fala. Cito:
“Perscrutar um homem ajoelhado no seu quarto, a rezar com o corpo
voltado para Meca, era violar um momento de sua intimidade, mas também
descobrir o fervor religioso do meu pai. Outros parentes próximos eram
católicos ou cristãos maronitas, mas nenhuma religião me foi imposta:
era mais importante tomar conhecimento do texto bíblico ou corânico do
que optar por uma religião. Afinal, diziam os mais velhos, somos todos
descendentes de Abraão.”
* Conferência
de encerramento do
II Encontro de Literatura e Psicanálise,
apresentada em 26 de agosto de 2006
durante a Bienal Internacional do Livro de Fortaleza-CE.
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