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O homem menos
o homem
thierry trémouroux

( Para ser lido ao som da “Arte da fuga” de
Bach
Contrapunctus 18 – Fuga a 3 Soggetti )
“O
olhar do homem pousa agora sobre a parte de dentro do homem
e o vê do mundo exterior.
Essa
pedra não vale nada para agir. Ela está em nós.
Essa pedra não tem peso nenhum nela mesma,
a não ser que eu a carregue. Ou você. Dá no mesmo.
Caídas do céu ou não, ou dispostas por acaso,
as pedras daqui não têm mais peso nenhum
e jazem sem nem terem ainda a força de se mexer.
Assim: impossível que um ator faça durante muito tempo
o morto sem se mexer... e no entanto, grande é sua vontade.
Será
que essa pedra é tempo?
Meu
cadáver não tem resposta.
Cada manhã em que me encontro no mundo,
tenho que achar o espaço que corresponde a meu cérebro:
e devo achar, no meu cérebro, o espaço em buraco correspondente.
Durante trinta anos, tive que ir todo dia frente a essa pedra,
para que ela me confirmasse que o real existe. Hoje eu acredito nisso.”
“Então sentei e disse às pedras: a ação é
maldita.”
É com essas palavras que acordo toda manhã desde que tomei a
decisão de encenar e reviver alguns dos textos de Valère Novarina,
cuja língua eu escuto faz agora sete anos.
“Exit” é o nome
provisório do espetáculo em processo de criação cuja estréia está
prevista para início de 2007. Essa resolução encontra o seu ponto de
partida numa “mise en espace” realizada no intuito do lançamento do
livro “Diante da palavra” (com tradução de Ângela Leite Lopes, col. “Dramaturgías”,
ed. 7 letras, 2003) no contexto da Primeira Mostra Brasil-Europa do
teatro contemporâneo no Rio em 2003. Naquela ocasião, a atriz Lorena da
Silva ofereceu ao público presente no teatro da Aliança Francesa de
Botafogo uma emocionante leitura bilíngüe que, por ter sido única em
todos os sentidos, despertou a vontade minha de seguir o caminho outra
vez apontado.
Além do texto mencionado acima, esse novo trabalho reúne várias
escritas do autor, desde “O teatro das palavras”, P.O.L., 1989, até
“Luzes do corpo”, o seu último livro publicado, P.O.L, 2006. A
confrontação de textos tratando do processo de construção do
livro, fato pouco comum no meio dos autores, com o processo de “desconstrução”
do ator em cena tornou-se a linha diretriz do solo em elaboração. A
passagem da folha de papel para a cena, a “fisicalidade” deste espaço
chamado palavra, é o que vem, há um bom tempo já, nutrindo minhas
inquietações em relação ao teatro de hoje e isto será, sem dúvida, o
grande desafio dessa proposta.
Paralelamente a esse “sacrifício científico” (expressão dada por
Valère) e sempre em busca de troca, estou ministrando do dia 26 de março
até o dia 07 de abril de 2006 (*) uma série de oficinas intituladas
“Diante da palavra” nas cidades de Macapá, Manaus e Boa Vista com
atores, autores, diretores e cenógrafos reunidos pelas unidades do Sesc
Nacional e dentro de um programa focando a dramaturgia.
Por que ter esperado sete anos? Tanto tempo? Talvez porque,
como diz Valère: “é preciso espaço, é preciso tempo, é preciso coragem
para ir lá dentro.”
Mas dentro de quê, me pergunto eu.
Dentro da linguagem, o engajamento da linguagem. E assim, por assim
dizer, fazer-se de morto, retirar-se do homem, deixar a língua falar, o
verbo, o verbo ser, o ser, cuja primeira pessoa do singular no presente
é “je suis” que, em francês, significa tanto eu sou quanto eu sigo (eu
sigo quem eu sou, eu sou quem eu sigo). Seguir assim sua pessoa, pessoa
que em francês significa tanto alguém quanto ninguém, quer dizer o homem
sem o homem. Como essa frase que não me larga mais, atribuída por Valère
a Louis de Funès, ator cômico francês muito popular: “Para Louis de
Funès... ele sabia muito bem de tudo isso. Que ser ator não é gostar de
aparecer, é gostar muito de desaparecer.” Manifestar a metafísica da
linguagem da metafísica e vice-versa.
A própria produção teatral de Valère é o fruto de um
manifesto, Carta aos atores, no qual ele revela que tudo o que
destrói ou desvia nossos hábitos de linguagem é valorizado: erros,
articulação ruim, balbucios, lapsos, agramatismos, afasia e tantos
outros efeitos – psicopatológicos ou cotidianos – soltar a língua,
estragar a fala, quebrar a palavra.
Já faz tempo que eu também:
“Não sinto mais nada do que me
acontece;
não vejo mais nada do que percebo.
até a sua linguagem, composta por palavras que entretanto eu ouço,
não me atinge.
E mesmo as palavras que pronuncio pra vocês em troca,
não domino o seu sentido.
Meu pensamento é estranho às minhas palavras:
ele está profundamente fora de minha cabeça
e jaz num lugar fechado onde não posso penetrar.”
Longe dessa crueldade articulatória, dessa
carnagem linguageira – Valère é um dos raros autores (com Antonin
Artaud) a nos propor uma reconciliação entre a palavra e o corpo - é
preciso, sim, fazer com que a palavra volte a morrer do corpo. E
isso só é possível, segundo ele, graças ao ator, o profeta.
“O ator é o artista da memória. Tudo
ressoa nele. É nesse sentido que o ator é um vidente. A memória não é
absolutamente uma função subalterna, mecânica, mas um bicho
extraordinariamente inteligente que desce no labirinto do texto, vai
ouvir muito longe, viaja profundamente para lembrar de tudo, penetra na
rede ressoada secreta, vai pelas galerias, as câmaras de eco menos
exploradas, reencontrar as voltas e memorizar a arquitetura subterrânea.
Para desenrolar a matéria das palavras em volutas e desfazer diante de
nós a meada respiral, o ator teve que correr no mais profundo de toda a
caverna sonora... É nisso que o ator é profético”.
Valère declara que seus livros começam na montanha, que
estão ligados à infância e ao segredo, ao “segredo do segredo”. E eis
onde quero chegar, no recomeço, da linguagem, da infância ligada à
memória. Li em algum lugar que “o tempo da infância é uma pedra atada no
fundo de si”. Preciso ir buscá-la. E quem poderia melhor senão o ator.
“É ele que vai revolver tudo isso porque é um morto que fala, seu
defunto que aparecera pra mim. Vá, ator, entre e faça! O verdadeiro ator
que atua aspira ao nada com tanta violência quanto não estar ali”. Sinto
isso com muita força no fundo de mim mesmo, de forma subterrânea. É como
uma questão de vida e de morte. Desaparecer para reaparecer. Fazer
renascer. “Mato o homem. O ator é o único artista que pratica esse crime
imaginário todo dia impunemente diante de todos. Na indiferença quanto
ao outro e a si e no maior desprendimento, um homem vem aqui
publicamente se retirar do homem” (Carta aos atores).
Hoje, eu sei que o ator sensato (o único a meus olhos que
possa me liberar da “máquina de dizer”) é “o que assassina a si próprio
antes de entrar, um que não entra em cena sem ter andado sobre o seu
corpo... No qual ele não presta mais atenção do que num cadáver que
fica. Todo bom ator que entra deve ter andado por cima disso. Somente
então ele pode falar. Como verdadeiro “despossuído”. Como um que não tem
nada. Não um que sabe. Um desnudado. Que só sabe mesmo o que seu corpo
aprendeu e nada mais... É a condição pela qual ele pode se lembrar das
palavras” (Carta aos atores)...
Cada dia que passa, cada nova manhã, entende melhor e em meu corpo a
língua de Va l’air e sou grato a Novarina por esse novo sopro.
Galdinópolis, Carnaval de 2006 (*),
durante a construção de uma pequena barragem no rio que passa por ali,
em companhia da minha filha Lara,
e que exigiu de nós o deslocamento de 497 pedras.
As chuvas do dia seguinte levaram tudo por água abaixo.
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